Recordando Manuel Campelos, e outras recordações

Domingos Pedrosa

2018-09-06

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Manuel Campelos foi o mais determinado filho da nossa Terra, e, a ele se deve, o mais importante que nos últimos quinhentos anos aconteceu em Vizela: a criação do nosso concelho. Decidido a sacudir o jugo de Guimarães que nos derreava e não nos deixava sair dum marasmo angustiante, fundou e formou o M.R.C.V. em 1964, que logo começou uma luta que duraria 34 atribulados anos. Nos primeiros dez, últimos da longa noite fascista, os contactos com os políticos de então, eram difíceis, mas a sagacidade de Manuel Campelos, conseguiu-os. Um, foi com o conselheiro Albino dos Reis a quem Salazar respondeu que Vizela devia ter orgulho de ser uma parcela de Guimarães, e outro foi com o Ministro do Interior, Gonçalves Rapazote. (Gonçalves Rapazote – esta é uma das tais “outras recordações” – foi meu professor, que aí por 1941/42, no auge do domínio fascista na Europa, nas aulas dizia: Hitler, Mussolini e Franco, além de serem grandes Cabos-de-guerra, são extraordinários estadistas, mas nenhum chega aos calcanhares do nosso presidente do Conselho, professor doutor António Oliveira Salazar).
São muitos os episódios que vivi na luta pelo nosso concelho, ao lado de Manuel Campelos, mas vou contar só cinco ou seis para mostrar a tenacidade e a capacidade de improviso do líder do Movimento – que até os “inimigos” admiravam – nas mais diversas situações. Algumas foram bem amargas e difíceis, pelo menos quando foram precisos nervos de aço para aguentar escárnios e humilhações, suportar desapontamentos. Quando isto acontecia, Manuel Campelos para nos dar ânimo, citava a célebre frase de Lenine: as grandes vitórias só se alcançam dando dois passos para trás e um para a frente, ou, então, a não menos célebre de Churchill: perdemos uma batalha (Dunquerque), mas não vamos perder a guerra. 
Nos 34 anos de luta, demos muitos “dois passos” atrás, muitas batalhas perdemos e muitas vezes reprimimos lágrimas de revolta perante atitudes bem provocantes dos “testas de ferro” de Guimarães. Freitas do Amaral era, talvez, o maior de todos, e lembro-me da sua sobranceria quando quisemos falar com ele à porta do gabinete do CDS, na Assembleia da República. O seu desdém foi tanto, que pôs Manuel Campelos fora de si. Sem perder a compostura, Manuel Campelos disse a Freitas do Amaral o que nunca tinha ouvido e, se calhar na vida não ouviu mais. Pálido como um rolo de cera, não aguentando mais a reprimenda, Freitas do Amaral enfiou-se no gabinete. A funcionária do CDS, de blusa amarela e saia azul que de boca aberta, pasmada, assistia à cena, disse: nunca ouvi ninguém falar assim para o senhor professor! Mais ouviria se ele não fugisse – respondeu-lhe Manuel Campelos. Outra situação embaraçosa aconteceu no Luso onde o General Spínola costumava veranear. Uma comitiva do M.R.C.V. foi lá, fora do devido tempo, felicitar o insigne militar, mas ele não gostando do atraso das felicitações, recebeu friamente do M.R.C.V., e tão friamente, que só respondia aos pedidos de desculpa de Manuel Campelos, com esta curta frase: Estou muito sentido com o esquecimento de Vizela. Manuel Campelos bem tentava justificar-se, mas Spínola não saía do “estou muito sentido”, nem alterou a sua sisudez. Foi o único encontro do Movimento com personagens políticas, que só falou Manuel Campelos, tal era o respeito que o tom de voz do General, impunha.
Outra vez fomos recebidos pelo General Eanes (outro militar de semblante austero) presidente do PRD,como sempre, Manuel Campelos foi categórico na sua dissertação afirmando ao General que a exigência de Vizela “cabia” em todos os pontos da lei vigente para a criação de novos Municípios. Convencido, o General logo prometeu o apoio do seu partido. Falhou, mas ainda hoje acredito que o General foi sincero e que Hermínio Martinho lhe “roeu a corda”, vergado pela força de Guimarães. Guimarães além de ter mais nas mãos o poderoso triunvirato – Eurico de Melo, Freitas do Amaral e Cavaco Silva – conseguia também que políticos de meia-tigela, como eram Hermínio Martinho e Ângelo Correia, ou de alta craveira como era Mário Soares, lhe dissessem amém. 
Como o Movimento bateu a todas as portas, um dia foi-lhe aberta a de Cavaco Silva, e, mais uma vez Manuel Campelos foi brilhante. A forma irrepreensível como expôs a pretensão de Vizela, obrigou-o a ter só esta saída: tragam cá todos os deputados do PSD do círculo de Braga para eu os ouvir. Se a maioria apoiar a criação do vosso concelho, prometo-vos que será criado. Conseguimos levá-los todos ao mesmo tempo e, um a um, todos disseram que sim, mas Guimarães accionou outra vez as suas “poderosas alavancas”, e tudo foi pela água abaixo. Mas ficou à mostra a pusilanimidade de Cavaco Silva, o homem que dizia que nunca se enganava, não teve vergonha de nos mentir, nem de nos enganar.
Guterres, homem de reconhecida integridade, foi a nossa nova esperança quando numa vinda ao Norte afirmou aos vizelenses que o rodearam, que criaria o concelho de Vizela, se um dia fosse Primeiro-ministro. Tempos depois o PS ganhou as eleições e o Movimento foi a Lisboa lembrar-lhe o seu compromisso. A intervenção de Manuel Campelos foi tão eloquente, tão convincente, que Guterres quase inebriado, disse que só tinha uma palavra. E cumpriu.
Foi António Braga, tempos depois, que no seu gabinete na Câmara de Braga onde era vereador, nos informou que o PS tinha pronto, para avançar, o projecto para a criação do concelho de Vizela, mas havia um senão. O PS jamais o agendaria e não queria que fosse o Partido Comunista (nosso amigo desde o tempo de Álvaro Cunhal, que sempre reconheceu a nossa razão) a agendá-lo. Percebemos que era manobra do PS de Guimarães, julgando que se nenhum outro partido o agendasse, (e era difícil) tudo continuaria em banho-maria. Mas no dia seguinte fomos a Lisboa e encontrámos nos corredores da Assembleia da República o Dr. Manuel Monteiro e a Dra. Maria José Nogueira Pinto. Inteirados por nós do que na véspera se tinha falado em Braga, logo disseram que contássemos com o CDS, que agendariam o projecto se houvesse garantias do PS, mas que tratavam disso, que falariam com o Dr. Francisco Assis. E mais disseram: que o caso de Vizela estava a denegrir a classe política, que era tempo de pôr fim a tamanha injustiça, que todo o país admirava o estoicismo do povo de Vizela.
Ao acreditar nas informações do Dr. António Braga e nas palavras do Dr. Manuel Monteiro, vimos chegado o “repouso dos heróis”, vimos cumprida a missão do M.R.C.V., já que era certa a criação do nosso concelho, mas, até à votação e aprovação do projecto, Guimarães não parou, e redobrou o seu ardiloso trabalho de sapa, que só não resultou, por esbarrar em políticos dignos, impolutos, como eram e são, António Guterres, Jorge Coelho, António Braga, Francisco Assis, Manuel Monteiro, Maria José Nogueira Pinto, (já falecida) e todo o Partido Comunista Português.
Neste “Recordando Manuel Campelos”, tenho que dizer isto: numa das acaloradas discussões nas reuniões semanais do M.R.C.V., Manuel Campelos não concordando com a posição de alguns companheiros e não gostando que eu a defendesse, abandonou a reunião. No dia seguinte recebi uma carta a pedir desculpa do sucedido, e a dizer que não queria que a nossa amizade acabasse. Só homens de elevada probidade, têm gestos destes.
Finalizo com uma opinião e uma sugestão. Por tudo o que Manuel Campelos foi, e fez pela nossa terra, o seu nome e a sua memória, jamais se apagarão da história de Vizela, mas, para perpetuar o seu nome, o melhor é dá-lo a uma rua, e, a da Cruz Caída, onde morava, se a família consentir, deve passar a chamar-se Rua Manuel Campelos. Para imortalizar a sua memória e a sua imagem, deve erigir-se o seu busto, num local honroso de Vizela.
À memória do ilustre vizelense, amigo e companheiro de muitas batalhas perdidas e da grande vitória que alcançámos, curvo-me respeitosamente. Obrigado, Manuel Campelos.