Já lá vão, 80 anos!

Domingos Pedrosa

2018-07-12

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Nas noites mal dormidas, tento tudo para adormecer e, uma das tácticas, é “pôr-me a ver” a nossa Terra 80 anos atrás. (Naquele tempo, uma senhora muito religiosa que só adormecia a contar santos, todas as noites percorria o Panteão católico, começando pelos santos do dia. O sono chega-me - dizia encharcadinha de religiosidade - quando vejo uma fileira de santos como se estivesse a ver a saltar carneiros).
Como “vejo” muitas vezes a nossa Terra daquele tempo, apeteceu-me lembrar parte dela. Só o que havia na Rua Dr. Abílio Torres e na Praça da República, que era um alfobre de talentos.
Na Rua Dr. Abílio Torres que começava logo a seguir ao Largo da Estação, havia todas estas actividades: uma loja de produtos agrícolas e o táxi do dono à porta; a taberna e mercearia do “Se Zézinho da Granja”. No muro em frente, expunha as suas fenomenais abóboras que vendia às fatias sem as pevides, mas dava-as a quem lhas pedisse. Nunca a ninguém nasceu uma abóbora. Diziam que ele cozia as pevides e que depois as tostava no forno. Uma barbearia; a oficina de um marceneiro que esculpia santos e era ateu; uma tasca. Depois da passagem de nível, uma drogaria e outro táxi. Em frente, um pouco mais abaixo, morava uma senhora que fornecia o peixe (vindo de Vigo) para os hoteis e pensões. Transportava-o num carrinho de duas rodas que, quando passava, diziam: Lá vai a “Seremilinha Biscoita” com o seu estabelecimento. Uma mulher com os pés tortos enfaixados com farrapos, vendia castanhas cozidas à sua porta. Uma padaria; uma taberna; um alfaiate. Em frente - hoje “Fundação Jorge Antunes”- era a cozinha dos pobres. A tasca do “João dos jornais”, que os vendia e fazia recovagem para o Porto. Defronte, o quartel dos bombeiros, e ao lado, um armazém de vinhos com este letreiro: Vendo para todo país, vinho verde em pipas ou em barris. A mercearia do “Timpanas” que era germanófilo, sempre com a montra atafulhadada de progaganda Nazi, e este aviso: Quem partir o vidro da montra, sofre as consequências da lei. Um  vizinho brasileiro, rico e somítico que também era admirador de Hitler, dizia: No fim da guerra, para festejar a vitória da Alemanha, não me importo de gastar duas ou três rodelas de oiro. Uma bomba de gasolina e outro táxi; um “atelier” de costura.
Todo o edifício onde hoje é a “Midouro”, era o logradouro fronteiro do “Hotel do Padre” e, naquele em frente que faz esquina com a Rua da Rainha, era o “Posto do Turismo” e a tasca do “Frasquita”. Ao lado, a “Casa do Pão-de-ló Delícia” já o fazia há meio século. Depois do grande espaço com muro e gradeamento, a “Farmácia Dias” e, a seguir, o estabelecimento do Sr. Noé e mais um táxi. Defronte, o portal da “Quinta do Prado”, hoje Rua Dr. Alfredo Pinto e “Jardim Manuel Faria”. O “Hotel Universal” e em frente um café com o mesmo nome. Uma pequena loja  de fruta; uma pastelaria; a entrada e jardim do “Hotel Cruzeiro-do-Sul” com frondosas tílias que no verão sombreavam toda a esplanada. Nela se almoçava nos dias quentes, e se jantava à luz difusa das lâmpadas escondidas na folhagem dum “tecto” fragrante e ramalhudo. A “Farmácia Alves” que em grandes frascos azuis, guardava o permanganato, o azul-de-metileno, a linhaça e a mostarda. Em frente, o Correio, uma barbearia, uma garagem. Ao fundo da rampinha que ainda lá está, uma típica taberna. Do outro lado da rua, outra taberna e mercearia, e ao lado o “Centro Comercial”. O Casino; a “Farmácia Campante” que vendia mais barato um tostão, cada pacotinho de ácido-bórico para desinçar piolhos. Em frente, o emblemático “Hotel Sul-Americano”. Um relojoeiro; a “Casa Santa Teresinha”; o armazém do Sr. Lopes Linhos; a pensão “Nacional” e a pensão “Termas”. A porta em frente na casa do Sr. Dr. Rómulo, era a entrada da sede de um clube de amigos: a “Terúlia do reviralho”. Lá discutia-se política, jogava-se e liam-se livros da boa biblioteca que tinha.
Depois da entrada da rua das Termas, começavam as “Barracas”. A primeira, vendia fruta, a segunda, era uma barbearia, e a terceira vendia tudo: livros, chapéus, quinquilharia, cestas... Depois, o Cine-Parque que passava filmes  de grandes metragens. Davam para duas ou três sessões, dois ou três Domingos. E mais “Barracas”: uma de fruta, outra de doçaria, e a última, outra barbearia mesmo encostadinha ao portão das Termas. Termas que traziam até cá milhares de aquistas que muita animação davam à nossa Terra, e cá deixavam muito dinheiro. Hoje não. Não, porque incúrias, incompetências e ganância, atiraram as nossas Termas para um marasmo agonizante. Já outras, que nada tinham que as recomendassem, floresceram, e oferecem hoje aos muitos aquistas que as procuram, tudo que precisam graças a dinamismos, a capacidades gestoras, a desapegos a lucros rápidos.
A frente e entrada do Parque era recta, alinhada do muro do adro à guarda da ponte que era em pedra. No Verão, a ramagem das gigantescas tílias do Parque que esbarravam no telhado do Cine-Parque e cobria parte dos das “Barracas”, formava um agradável túnel, fresco e aromatizado pela densa floração das tílias.
Falta dizer que na Rua Dr. Abílio Torres, havia ainda “negócios ambulantes”: engraxadores, vendedores de enxota-moscas, mansos gericos de aluguer e o “Roberto” que fazia rir crianças e adultos. Uma boina no chão, aparava as moedas. E só mais isto: uns anos antes de rebentar a Segunda Guerra Mundial, o “Saleiro Maluco”, figura típica de Vizela, percorria a Rua Dr. Abílio Torres de manhã à noite, a berrar: Agora vai, agora vai, agora vai. Mais tarde, em 1941, já em plena guerra, Fernando Pessa que veraneava sempre em Vizela e era locutor na B.B.C. dos noticiários para Portugal, num deles, disse: Hoje lembrei-me do maluquinho de Vizela. Em Calais, de onde partirá a invasão à Inglaterra, e por duas ou três vezes falhada devido ao mau tempo, Hitler perguntou a Goering: Então? Vai ou não vai? E Goering respondeu: Agora vai, agora vai. E nunca foi.
Vou lembrar agora, a vida na Praça da República onde abundavam artistas de várias áreas. Onde é uma pequena loja de fruta, morava e trabalhava o Sr. Gaspar Chicória que fazia chuteiras e era um excelente músico. Ao lado, um sapateiro; a tasca do “Panoia”; outro sapateiro e, por cima, uma dentista e o “La-Minuta”. O “barateiro” que vendia flanelas, chitas e riscados. Depois da entrada da Rua da Rainha, uma barbearia; uma mercearia; um picheleiro; uma alfaiataria. Por cima, morava o genial Joaquim da Costa Chicória. Uma loja que vendia fazendas e retrosaria. Por ali morava o “Fernandinho dos Suspiros”. Diziam que a mãe os fazia num penico, e todos os dias os vendia fresquinhos. Um talho; um sucateiro. Depois do cumprido muro da “Quinta do Prado”, uma taberna. Outro sapateiro que trabalhava e cantarolava para adormecer dois filhos pequenos que tinha deitados em dois gavetões abertos de uma cómoda grande e suja. No edifício que faz esquina com a Rua Fonseca e Castro, havia duas mercearias à entrada da rua, e, em frente, um talho, um sapateiro e um tamanqueiro. Já na Praça, a “Se Ritinha” que vendia tudo que fosse feito de barro. A “Casa Araújo” era do conhecido escritor Malheiro Dias (no seu romance “Os Telles de Albergaria” fala de Vizela). Todos os anos passava cá o Verão e muitos fins de semana. Uma padaria; o “Pão-de-ló Primor”; uma drogaria e, na esquina, a tasca da “Caçoila” que vendia mais aguardente que vinho. A “Mãe Ana”, desgraçada figura típica, muitas vezes lá entrava. Bebia dum trago um pequeno cálice de aguardente, fazia uma cara-feia, e dizia: Não sei como os homens gostam disto. Bote outro... maiorzinho. Na outra esquina, outra tasca e uma pensão; a padaria do “Zum”. Pegado, morava um “planetólogo” que só falava de planetas quando estava com um “grão na asa”. O homem sempre que ia à tasca, levava um cão, e só parava de beber quando começava a ver dois. Saía de lá bonito.
O senhor “Tião” que fazia bolas de futebol, amarelinhas, era um extraordinário músico. No Verão, à noitinha, já com a lua pendurada no céu, era um regalo ouvir o seu saxofone. Dele, soltava os mais belos trechos musicais, que inundavam toda a Lameira. No “Callidas” era a escola primária, e na outra esquina, naquela casa com escadas de pedra, vivia o “Mestre Zequinha”, pintor desenhador talentoso, criador da “Vizela Romana”, símbolo da nossa terra.
Um abraço amigos, foi um gosto “mostrar-vos” a nossa Terra do tempo da minha meninice. Boas férias, e até sempre.