Como seria o mundo sem música?

Domingos Pedrosa

2019-01-03

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Só conheço uma pessoa, (mas sei que há mais) que gosta de música, vocal e instrumental, tanto como eu. É um velho e bom amigo que por saber o prazer deste “gostar”, me ofereceu umas semanas antes do Natal, um telemóvel e uma pequenina “coluna de som”, com mais de mil trechos musicais gravados. São dois tesouros, dois preciosos arquivos onde tenho sempre à mão, toda a música clássica que gosto de ouvir.
Estas prendas, e o ter visto no canal Mezzo, umas noites antes da do Natal, a “Aida”, a triunfal ópera de Verdi, sugeriram-me alinhavar estas apreciações sobre a música. Lembrei-me de outras óperas, de outras agradáveis musicalidades. Dos nossos fados de Coimbra que enlevam quem os ouve no silêncio da noite. Ninguém fica indiferente ao ouvi-los, como ninguém ficou quando Amália cantou os seus pelos quatro cantos do mundo.
Sei que há muita gente que gosta de ouvir os grandes Coros cantar Beethoven, Verdi, Massenet. Sei que muita gente gosta das belas Árias de Puccini, Leoncavallo, Verdi, Donizetti, Bellini... E quem não gosta da majestosa sonoridade das marchas militares, ou não é invadido por uma profunda melancolia ao ouvir as fúnebres? A de Beethoven – o segundo andamento da terceira sinfonia – infunde uma imensa tristeza; o “Lacrimosa” do “Requiem” de Mozart é tão triste, tão triste, que causa consternação; e as duas do nosso Joaquim da Costa Chicória, “Descansa em Paz” e “Sepultus Domini”, fazem-nos ter saudades do amigo que levamos a enterrar.
Mas há mais, muitas mais músicas comovedoras. A quem não causa constrangimento o “Requiem” de Verdi ou os de: Fauré, Brahms, Schuman, Cherubini. O “Stabat Mater” de Scarlatti, o de Vivaldi ou a marcha fúnebre de Chopin? Mas, também, há músicas de uma exaltação infinita: O “Te Deum” do nosso João Domingos Bomtempo, o “Messias” de Händel... A música, arte e ciência de combinação de sons de maneira agradável de ouvir, é a cultura do espirito, é suavidade, ternura, enlevo, alegria, arrebata-nos e transporta-nos. Quem não se sente num meio campestre quando ouve a “Pastoral”, a sexta sinfonia de Beethoven? Depois do estalido do raio anunciador da tempestade prestes a desabar, pressente o desabrolhar da natureza, e ouve o cantar do cuco. Na “Cavalaria Ligeira”, Suppé faz-nos ouvir um cadenciado galopar, e no “1812” de Tchaikovsky, aquele repicar dos sinos de Moscovo, traduz solenidade, o imenso regozijo do povo pela retirada das tropas Napoleónicas. Nos “Murmúrios do Vizela” do nosso genial Chicória, é percetível o esgueirar da corrente pelos meandros do rio, e o ritmar da roda da azenha. Já na “morte de Antoni Gaudí,” – o famoso Arquitecto Espanhol que morreu atropelado – de um quase desconhecido compositor espanhol, a derrapagem dos pneus e o embate do carro são tão inteligíveis, que quase se vê o acidente.
A música Sacra que muitos séculos foi só o Canto Gregoriano e a Polifonia Clássica, sempre sob a vigilância dos Papas, ficou enriquecida quando Beethoven, Schubert, Gounod e muitos outros, levaram para o recinto das igrejas, músicas expressando os seus sentimentos próprios sem terem em conta os da Igreja. Hoje, o “Agnus Dei” da “Missa Solene” de Beethoven, inspira tanta religiosidade, que obriga o mais incrédulo a ajoelhar-se e a rezar. E as “Ave Marias” de Schubert e de Gounod, parecem músicas caídas do céu.
Há géneros musicais que são símbolos, fazem lembrar a terra onde “nasceram”. Além das  belas“Canções Napolitanas” e das alegres “Tirolesas”, (do Tirol) a “Valsa” lembra-nos Viena; o “Tango” a Argentina; o “Passodoble” a Espanha. E o “Batuque” da África negra, que deu origem ao “Samba” que caracteriza o Brasil e o faz folião, enraizou tamanha morbidez na atual música – Africana, que faz dançar com languidez e lascivos requebros.
E há músicas citadas por eruditos, que vou lembrar: Pitágoras dizia que os astros nos seus movimentos, compõem “Música Celestial”; Frei Luís de Sousa, escreveu: a “música das sereias”, ajudava à devoção e à saudade; nos seus “sermões”, o Padre António Vieira, diz: … Extasia ouvir a “música dos rouxinóis” nas noites de luar; José de Alencar, poetizou: … como arpejos de uma lira, ela deixava ao passar, a “música do seu riso mavioso”; e Camilo Castelo Branco chamava à poesia, a “música da Alma”.
O valor da música no mundo cultural foi tão importante, que se ergueram sumptuosos “Santuários” para ser ouvida no mais religioso silêncio. São exemplos o “Teatro Lírico de Paris”, o “Metropolitano” de Nova Iorque; o “Teatro Ópera de Praga”, o “Costanzi” de Roma; o “Teatro Scala de Milão”; o “Teatro Bolshoi” na Rússia, e muitos outros. Na magnificência das suas salas, aplaudiram-se estreias de bailados, de belas óperas, de sinfonias eternas.
E do vasto “Mundo musical”, a história diz-nos que muitos artistas atingiram o mais alto grau da perfeição, que foram sublimes: Caruso, Maria Callas, Liszt, Paganini, a nossa Guilhermina Suggia... Toscanini. Foi uma memorável circunstância que o havia de lançar de um momento para o outro, na sua prodigiosa carreira de regente. Vale a pena contar: numa representação da “Aida” de Verdi, o púbico protestara violentamente, assobiando contra o maestro que a ia dirigir. No meio do desespero da situação, o empresário recorreu ao modesto violoncelista da orquestra, um rapaz de 19 anos. O jovem Toscanini aceitou, e dirigiu toda a representação de cor. No final, os aplausos, apoteóticos, fizeram nascer um génio para a arte de reger. Ficou à frente da orquestra, e não saiu mais. Dirigiu 68 anos as maiores e melhores orquestras do mundo, e sempre delirantemente aplaudido no final de cada atuação. Toscanini foi único, só ele, antes de começar a ensaiá-las, fazia um estudo exaustivo ao espirito das obras, para depois explicar aos músicos a importância de pequenos pormenores da partitura e, foi por saber, e fazer ressaltar os “melos” da música, que a sua batuta dirigiu as primeiras representações do “crepúsculo dos Deuses”.
Um abraço amigos, com desejos de um Ano-novo feliz com muita saúde. E oiçam música, oiçam as “reisadas”, cantem as “reisadas”, celebrem a chegada dos magos a Belém, repitam os cânticos dos pastores que adoraram o Deus-menino.