Umas Inestéticas e Obscenas Ruínas

Eugénio Silva

2017-08-03

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Ao longo da rua dr. Pereira Reis, mais concretamente no espaço compreendido entre a Ponte Nova e a Ponte Romana, perpetuam-se indignas ruínas, facto que evidencia, simultaneamente e com requintada eloquência, o imenso colapso que atingiu a maioria da indústria têxtil da região e a inoperância complacente da sua amorfa comunidade na resolução deste triste e vergonhoso panorama, conspurcante da imagem da cidade e do concelho.
 É imperativo que, rapidamente, essas ruínas, sinónimo de incúria, despudor, decadência e degradação, sejam proscritas da paisagem e se inicie um sério debate destinado a encontrar as melhores soluções para esse mesmo espaço em termos urbanos, paisagísticos e ambientais.
Estou certo que a maioria dos cidadãos vizelenses concordará em que voltar a edificar-se nessa longa e estreita faixa de terreno será repetir o enorme erro, paisagístico e ambiental, cometido no passado. Conceder permissão de construção nessa extensa e apertada parcela de terreno sobranceira ao Vizela constituirá um colossal equívoco, um clamoroso desprezo pela área e pela cércea, que obstará, em definitivo, tornar a cidade mais aprazível, harmoniosa e encantadora.  
Com efeito, um metódico projeto de reordenamento dessa área (acabará, também, por potenciar subaproveitadas capacidades de carácter iminentemente turísticas) terá de contemplar, entre outros, os seguintes aspectos: 
- Requalificar o citado arruamento. 
- Devolver à natureza e aos cidadãos o referido espaço.
- Prolongar o passeio pedonal marginal ao Vizela até Vilar. 
-Restituir a dignidade furtada à Ponte Romana, monumento nacional, libertando-a das ofensas urbanísticas.
- Melhorar o enquadramento paisagístico dos balneários termais, devolvendo-lhe alguma da visibilidade perdida.
- Reconstituição paisagística desse espaço, restituindo-lhe o núcleo de moinhos e azenhas, arrasado pela voragem industrial nas primeiras décadas do século XX.  
Será de referir que, sobre esta última questão e nesse mesma área, duas importantes fontes documentais - as Memorias Paroquiais de 1758 e o Inquérito Paroquial de 1842 – mostravam nas levadas do Pisão, Azenhas Novas e Azenhas um elevado número de moinhos e azenhas (mais de 30 rodas e 2 pisoeiros), aproveitando a força hidráulica do Vizela para a moagem de cereais e leguminosas secas, produzidos nas terras férteis das freguesias do seu vale. 
Neste âmbito, a reconstrução do núcleo de moinhos e azenhas possibilitará, para além de se constituir em atrativo turístico e ativo exemplar na despoluição do Vizela, educar e formar as gerações mais novas e vindouras, de modo a que não fique preso à história o saber de como se processava a moagem do grão para a confeção do pão e de como é hoje em dia a sua produção.