Uma Viagem pela

Pedro Marques

2019-04-11

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Prezado leitor amigo, sabemos da nossa promessa de nos debruçarmos, pelo menos mais uma vez, sobre quem foi o abade de Tagilde. Não esquecemos. Todavia, outros assuntos há que entendemos serem mais pertinentes porque verificados em cima do acontecimento.
E há dois, neste momento: a nossa peregrinação pelos ribeiros de Vizela e do próprio rio, na busca do que ainda restará do que foi a cultura munheira no aproveitamento de uma energia limpa e dada pela Natureza e sem custos de explorações de terceiros. Exigia tempo e paciência na “arte” de saber esperar. Como se fica a aguardar que a semente depois de lançada à terra, germine, cresça e dê fruto. Contudo, estamos vivendo um tempo de pressas, de impaciências e de querermos tudo em pouco tempo e sem esforço.
Há trinta e dois anos, fizemos o percurso que hoje estamos fazendo na referida “peregrinação” pelos ribeiros do vale do Vizela, onde era esperança de que viessem a fazer parte integrante do hoje concelho de Vizela, mas que ficaram de fora: nomeadamente, as freguesias de Regilde, Sto Estêvão e S. Faustino e que por causa das nossas pretensões de concelho, a de S. Faustino eliminou do seu nome de sempre, a referência a “Vizela”. Ou seja, de S. Faustino de Vizela e a exemplo de S. Jorge de Vizela; de S. Paio de Vizela e Sto Adrião de Vizela, cujo nome lhes veio do baptismo do rio Vizela, não senhor: passou a ser apenas S. Faustino. Sabemos do porquê disto. Não vamos, agora, desbravar isso. No entanto, é para Vizela – mercado e feira – que vem muita da força produtiva de S. Faustino. Isto é: Vizela serve para umas coisas, mas para outras já não serviu. E vai daí, passe-se de S. Faustino de Vizela, para apenas S. Faustino. Adiante. Adiante, que “águas passadas não movem moinhos”.
Do que está a ser o resultado não só das pesquisas de agora como das de há trinta e dois anos, do mesmo e a seu tempo, o leitor amigo virá a ter conhecimento. Será um livro e virá a ter o título de “Na rota dos moinhos de Vizela”. Estamos a trabalhar nele.
Ao tempo, houve quem nos dissesse que nós andávamos a fazer um trabalho inglório e inútil, como teria sido este nosso da pesquisa de moinhos movidos a água. E nesse tempo, nos artigos que então fomos publicando no então Notícias de Vizela, fomos apelidado de “D. Quixote” e de “defensor de causas perdidas”. E assim caiu mesmo em saco roto a nossa intenção de sensibilização de autarcas. Ao tempo, nem um se mexeu. Pertencíamos, ainda, ao concelho de Guimarães.
Se há trinta e dois anos foi assim, entretanto, houve novidades. Mas noutros concelhos. Na verdade, foram recuperados moinhos de água nalguns deles. E presentemente, ainda se mantêm apoios comunitários para isso. Podemos referir que houve recuperação de moinhos em Alvarenga (Arouca) e ficou célebre a “carreira dos moinhos”. Em Ul, Oliveira de Azeméis. E mais recentemente em Boticas. E também e mais recentemente, em Tarouca. Recuperações estas que reverteram em motivo e fonte de turismo rural. Em Tarouca, por exemplo, em sete deste mês, foi a “Rota dos Moinhos de Cister” com o “almoço do moleiro” e depois, a “caminhada rota moinhos de Cister”. “Não podemos estar em todas. Senão, teríamos estado lá. E só referimos aqueles sítios, quando eles são já muitos mais. Há já a “Rede Portuguesa de Moinhos” e são bastantes os moinhos recuperados por autarquias, tendo sido, no passado dia sete, o “Dia dos Moinhos”, desde há doze anos.  E tanto dinheiro se gasta em eventos que nem resíduo deixam, a não ser o ditado do POVO: “palavras leva-as o vento. Cantigas leva-as o rio”! Tanto dinheirinho desperdiçado, quando os moinhos de Vizela e o turismo e a bem do concelho, dele poderiam beneficiar!
E por isso, vem agora o segundo motivo e por causa dos moinhos -  a nossa visita e digressão, pelas montanhas de Montemuro, de Cinfães a Castro Daire. Na busca de moinhos de água operacionais e a trabalhar. Aproveitando este motivo, subimos, acompanhados, ao topo da Serra de Montemuro como é o sítio de Talegre. Em termos de apreciação do rasgado horizonte, não fomos felizes por causa da bruma e da chuva que ia caindo. Fomos, porém, felizes noutro pormenor - o da queda de neve! Lá mesmo no cimo, em vez de chuva, foi caindo neve como pétalas de flor de amendoeira ou cerejeira. E foi lindo! Como foi maravilhoso todo o aparato de serra por nós percorrido e onde os penedos nos pareceram sementeira de granito à superfície das montanhas de tão abundantes que eles são nas mais diversas formas e tamanhos. E de onde emerge um exército de torres eólicas sempre a girar e a zunir. E mesmo assim, milhafres aos bandos no seu descontraído voo. Da águia de asa redonda, não nos apercebemos.
Depois, veio a oportunidade dos motivos que lá nos levaram: a visita, pelo menos a um dos moinhos em laboração. Graças à colaboração de amigos que fomos criando por lá e nos proporcionaram condições para a visita desejada. E vimos um, pois não deu para mais. E estivemos dentro dele. E apreciámo-lo por dentro e por fora. E o amigo António Ribeiro, membro activo da Associação Cultural e Recreativa da Póvoa de Montemuro, aldeia da freguesia de Pinheiro, plantada na serra, falou-nos com orgulho e alegria deste moinho e nos foi dizendo o nome de todas as peças de que ele se compõe. E da fabricação da farinha, desde a entrada do milho, à sua recolha numa caixa apropriada. E, hoje, quer o moinho, como o forno de cozer pão, um pouco mais acima, são património comunitário à disposição de quem deles necessite. Um moinho aberto às necessidades de pessoas singulares, ou colectivas, desde grupos de amigos e associações. Está ali ao serviço da comunidade. Como nos falou também da dinâmica à volta da exploração do moinho: ao lado do forno, há já um bar; que até dá para refeições. Há também já uma piscina; um jardim infantil; um terreiro onde se pode jogar o chincalhão ou até dançar. Presentemente, já lá estão plantados castanheiros, para e também no seu tempo, haver ali sombra.
Nós, em Vizela e mais no vale que nas montanhas vizinhas, temos bastantes ruínas de moinhos. Em todas as freguesias e cuja recuperação de alguns poderia vir a ser uma fonte de riqueza turística rural. Pensem também nisto, senhores autarcas. Todas as  freguesias tiveram os seus moinhos de água. Já se pensou em reanimar o moinho do ribeiro de Passos, à entrada da R. Dr. Bráulio Caldas?... E recuperar, uma vez mais, a azenha das que foram do Maquias, a seguir à Companhia dos Banhos?... Com o abraço amigo de sempre.