Uma Reflexão Quaresmal Via Sacra dos Simples e Puros de Coração

Pedro Marques

2020-03-26

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Pelo Calvário da Vida porque Verão a Deus


Neste “tempo favorável que nos dais, vimos rogar perdão. Em Vosso altar, Senhor, purificais o nosso coração” (…) . Em algumas igrejas, é esta oração penitencial que a POVO canta no início das eucaristias dominicais. Em consonância com as flores roxas e lilases da própria Natureza a regenerar-se dela mesma, dolorosamente sorrindo no lírio roxo do campo; na flor do cardo; na flor da campânula silvestre na infinitude das suas variantes; na flor da lavanda e do alecrim; na flor da violeta, do jardim à flor discreta das valetas e até na flor das “lágrimas de Cristo” dos combros à mistura com a da violeta brava… nas flores da urze no seu manto infindo a coroar as montanhas e suas encostas…  nas campânulas roxas dos campos, tão lindos quando o manto lilás os cobria como era cíclico isto acontecer nos campos da que foi a quinta do poço quente. Quem se lembra desses tempos que temos recordados em fotografia?...Toda a Natureza, neste seu manto imenso de violeta florido, é um acto de penitência para o advento  da “florália” noutras localidades chamada a “festa das rosas” no auge da Primavera…
Ora, se assim  é na Natureza, postura idêntica aos crentes se impõe, na constatação de que “somos pó e ao pó voltaremos”( e isto não é nenhuma homilia; simplesmente o que sentimos e tentamos viver em consonância…). E neste ínterim, acontece o decurso da nossa vida pelos caminhos cujos percursos insondáveis ninguém conhece. E há os que sofrem de penúria e miséria; e há os que se banqueteiam até ao excesso, numa vivência de contrastes que são incógnita e nos deixam a nós suspensos da eterna pergunta “porquê uma existência humana assim, onde uns poucos têm todo o mundo e a esmagadora humanidade se afunda na miséria da pobreza de bens de elementar necessidade?... O Universo clama por Justiça! E nós – e de novo –  o porquê o sofrimento e para quê?!...
Nesta vida, o homem só não come o outro homem porque as leis disso o impedem. Afirmam os latinos que o homem é lobo do próprio homem – “homo hominis lupus est”. Impunemente e infelizmente, continua a prevalecer a “lei-do-mais-forte”. Se na selva isto acontece na luta pela sobrevivência, nos humanos há os causadores das opressões e de injustiças, e mais agora pela ganância do domínio do mundo através do dinheiro, fazendo isto por malvadez, cinismo e prazer de esmagar o outro. E voltamos à interrogação permanente: porquê um mundo assim?... Virá este COIVD-19, também neste âmbito, ajudar alguma coisa?...
Todavia, também há o lado bom do samaritano que vê o ferido caído na berma estrada, pega nele e o deixa em sítio onde se possa zelar pela sua saúde. Veja-se tanto samaritano agora a acudir a quem está doente: afinal, mais que a defesa da eutanásia, há a luta pela vida!
A este propósito do Sofrimento, além de outros episódios, fomos às páginas dos muitos nossos “diários” onde estão registadas memórias do calvário da via dolorosa dos “simples e puros de coração porque verão a Deus” e cuja vida foi à margem da sociedade que nunca para eles olhou… e encontrámos este episódio…
“Terça-feira duplamente dolorosa. Do falecimento de uma senhora de ao pé da porta. E também com a amargura de uma rapariga viúva, a quem há meio ano atrás um outro acidente na estrada roubou o marido. E conta:
- Namorei quatro anos e oito dias. Estive casada quatro anos e oito dias… No dia em que ele morreu, foi o dia em que em toda a minha vida me estava a sentir mais feliz. No domingo a seguir à sua morte, iríamos passear até à Póvoa… Agora, é quando estou a sentir desesperadamente a falta do meu homem. E sem ele, nada tem interesse. Nada consegue limpar esta amargura que sinto dentro de mim. E choro… Que hei-de fazer?! De noite, tenho tantos sonhos lindos com ele! E penso ainda que a morte dele não passa de um pesadelo. Mas acordo e vejo o lugar dele vazio na cama!... Isso é que me custa! De madrugada, até grito! E esteve aqui na minha casa contando tudo isto. Desabafando e chorando convulsivamente. No domingo de Pascoela, vi-a sentada no banco do adro. A procissão ia lá longe dobrando a esquina da farmácia e o som da banda de música já só amortecido chegava ao adro. Todavia, o pensamento dela, pela expressão triste e distante do seu olhar, estava junto da memória do marido.
Falei com ela uns minutinhos. Poucos. E notava-se que ela agradeceu esta fugaz companhia e que a sua carência afectiva era gritante. Tive eu de desprender as minhas mãos das mãos dela que se demoravam infinitamente num aperto de mão, de simples cumprimento informal – o aperto de mão de cortesia social.
Calou fundo na minha sensibilidade demasiado desperta para situações destas e gostaria de transferir para mim e em mim sentir toda a amargura dos que sofrem, para que ninguém mais soubesse quanto custa o sofrimento da via-sacra dos simples no percurso do calvário da sua vida.
Nestas poucas linhas de texto, da sua vida está um espelho partido e aos bocados pelo chão. Desses bocadinhos apenas consegui apanhar um pequenino fragmento onde vi esta história de vida…”

Com o abraço amigo de sempre!