Uma bienal de fotografia em Vizela

João Ilídio Costa

2019-08-22

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“Acham a sinceridade uma coisa terrível? Pois é simplesmente um método que nos permite manter a nossa identidade.”

(Autor desconhecido em 1891)

 

Quando o nosso Bolinhol atinge o patamar a que tem direito, nunca o podemos desligar da fotografia dos seus fundadores.
Quando recordamos a luta heroica pela criação do nosso concelho, nunca a desligamos dos seus protagonistas, tão bem imortalizados através da fotografia.
Quando recordamos os “50 anos do Festival Woodstock”, o que nos aparece é a mítica fotografia do casal que se beijou e o repórter registou.
Sem modéstia, Vizela poderia adquirir o estatuto de Arles em França, pois, não fora a fotografia, continuaria uma povoação conhecida na Alta Provence e pouco mais.
Estou seguro que o espólio fotográfico existente nas famílias e instituições vizelenses, que doado ou emprestado, poderia ser o motor de arranque para uma viagem que colocaria a nossa terra, não num local de seleta peregrinação, mas numa marca de referência internacional, se estabelecesse parcerias com outras cidades e Festivais Internacionais de Fotografia, sempre disponíveis, para contrariar um mundo em que os acontecimentos são encenados e no qual querem transformar os fotógrafos, principalmente os fotojornalistas em funcionários dessas dinâmicas.
Mário Gifreda escreveu premonitoriamente em relação à fotografia que “chegará o dia em que a objetiva Zeiss superará o olho de Zeus, que tudo vê, mas de muito longe”.
O fascínio da fotografia e da imagem atraem e cativam técnicos de fotografia, amadores e simples curiosos, tal como no passado, e já no novo milénio, a fotografia representa com muito mais eficácia um verdadeiro auxiliar de memória, quer individual quer coletiva.
Chegado aqui, quero significar que não sou um obcecado pela fotografia, mas reconheço que enquanto documento sociológico, adquiriu um estatuto, que o cinema o catapultou, por exemplo, como no “Momento 2000”, a desconcertante experiência de narração cinematográfica que conta a história de um personagem que, apesar de se ver afligido por uma alteração de memória, mantém o desejo de vingança em relação ao estupro e assassinato de sua esposa, recorrendo à fotografia, a fim de se “lembrar” dos acontecimentos da sua vida enquanto sofre do transtorno, estabelecendo assim graças a fotos instantâneas, um método com o qual obtém um registo das pessoas com quem se relacionavam, as pessoas de confiança e as que não são, os locais frequentados, as matrículas dos carros e outros elementos básicos para o transcurso da sua vida. O frenético ritmo dos acontecimentos com que o filme se desenvolve teria tornado inviável o uso da fotografia convencional (a guerra da Kodak com a Polaroid) não fora essa enorme evolução para a fotografia instantânea que a Polaroid criou e que permitiu, no filme em apreço, sustentar a narração de modo convincente.
O meu contributo, agora modesto, para colocar Vizela na rota dos grandes eventos culturais massificados está dado: a realização de uma Bienal de Fotografia é possível!
Tendo começado este Artigo de Opinião com um pensamento de um “autor desconhecido de 1891”, não podia deixar de acabar sem a citação de um mestre do pensamento “Michel Foucault”, já em 1977, que diz “a verdade é deste mundo: se produz nele graças a múltiplas coerções. E detém nele efeitos regulamentadores do poder. Cada sociedade tem seu regime de verdade, sua política geral da verdade: ou seja, os tipos de discurso que acolhe e faz funcionar como verdadeiros ou falsos, o modo como uns e outros são sancionados: as técnicas e os procedimentos que se valorizam para obter a verdade: o estatuto dos que têm a tarefa de dizer o que funciona como verdadeiro”.
Qualquer semelhança do pensamento de Michel Foucault com o que se passa em Vizela é pura coincidência, até porque, já que de fotografia estamos a tratar, e se é verdade que uma imagem vale mais que mil palavras, as 18 fotografias que o RVJornal publicou do Presidente do Município, nos três números do mês de agosto, valeriam já um discurso de 18.000 palavras e, mesmo esse “pastelão” com tantas palavras, não seria necessariamente o “estatuto dos que têm a tarefa de dizer o que funcionava como verdadeiro”.


Um abraço amigo