Três casos quase caricatos

Domingos Pedrosa

2018-11-08

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… E o de Tancos só não é, pela gravidade que tem, mas, novelesco e vergonhoso, é. E são muitos, de peso, todos os seus personagens. 
1-Os criminosos fotografados no momento em que foram presos, vão apresentar queixa contra agentes da PSP. Tinham fugido de um tribunal no Porto e andaram a monte 24 horas depois de terem conseguido acesso à chave da cela onde estavam fechados. Saltaram pela janela e fugiram. Quando foram apanhados estavam na posse de 40 mil euros e preparavam-se para fugir do país. São suspeitos de vários roubos violentos a idosos com penas por cumprir, um cadastro pesado, mas a advogada que os defende diz que é crime as fotografias publicadas dos seus clientes, e que por isso, vai apresentar queixa. Contra quem? – Perguntaram-lhe. “Não posso dizer, mas os meus clientes sabem quem tirou as fotos às casas onde moravam e quando algemados, sentados no chão.
Diz o sindicato da PSP que a publicação das fotografias não foi para humilhar ninguém, mas para mostrar a eficiência da polícia, que, em 24 horas, conseguiu capturar três perigosos criminosos. Mas os foragidos não gostaram da publicação das fotos. Nem eles nem Eduardo Cabrita, ministro da Administração Interna. Ficou indignado, e foi com certa fúria que disse “ser inaceitável a publicação de imagens que não correspondem à forma de actuação da polícia portuguesa”.
Mas devia ser aceitável, senhor ministro. Não sabe que o povo gosta de ver os criminosos algemados? Fica mais descansado, já que para susto chegou o de quando Manuel Palito e Pedro Dias andaram a monte, senhor ministro. A GNR num gesto de solidariedade, disse que não ficou indignada com as fotografias por entender que os criminosos não são merecedores do mesmo respeito e consideração por parte do Governo e da comunidade, atribuídos ao cidadão comum. O major Brasão da Polícia Judiciária Militar que não está identificado como criminoso, foi fotografado algemado e não houve qualquer polémica – concluiu a fonte da GNR. (O major Brasão é um dos personagens de peso da “novela” de Tancos).
2-Ao juiz Carlos Alexandre, assenta bem o cognome do nosso Rei D. Pedro I. Julga que só ele é justiceiro, que só ele é capaz de resolver os muitos casos de corrupção que minam o país. Foi isto que deu a entender ao pôr em causa o sorteio que o afastou da fase de instrução do processo Marquês, (o caso José Sócrates) percebendo-se claramente que está agarrado a um lugar onde está há uma eternidade, e de lá não quer sair. Dizem isto, o ele ter duvidado da seriedade do sorteio, o ter vindo a adiar a sua promoção a juiz – desembargador, e o ter dado aquela entrevista na televisão num momento crucial para a referida Operação Marquês.
É de perguntar ao Conselho Superior da Magistratura, como pode continuar a manter este juiz no mesmo tribunal tantos e tantos anos? Que não se esqueça (no julgamento do corrupto Oliveira e Costa houve um esquecimento que lhe valeu uns anos menos de prisão) que Portugal é um Estado de Direito onde a vida dos juízes é pautada por concretas normas constitucionais.
3-    Numa sala quase vazia, na Gulbenkian, foi apresentado o segundo volume das memórias de Cavaco Silva referentes ao período em que foi presidente da República. Ele que foi um presidente parco em comentários quando o país ansiava por eles, vem agora destilar ressabiamentos que não são mais que ajustes de contas. A sua falta de sentido de Estado, mais uma vez mostrada, vai ao ponto de revelar conversas pessoais com titulares de Órgãos de Soberania, com líderes partidários e tecer considerações sobre o Governo de António Costa, não tendo o bom senso de esperar pelo fim da legislatura para que os portugueses pudessem fazer a sua avaliação. Este segundo volume de “Quintas-feiras e outros dias”, fez desabar em poucas horas, críticas sobre o autor e a sua obra, e, algumas bem azedas. O Partido Socialista que não gostou de se ver no retrato, não se calou. Carlos César acusou Cavaco Silva de “devassa e infeliz falta de sentido de Estado”. Desabaram críticas e lembrou-se o passado de Cavaco Silva. Lembrou-se que o seu tempo de primeiro-ministro foi um período de profunda transformação da sociedade portuguesa, e de ele não se ter adaptado ao Portugal novo, tornando-se um corpo crescentemente estranho. E mais estas coisas foram lembradas: que foi um presidente distante dos portugueses, nada simpático, sorumbático, insociável, incapaz de ler a realidade da sociedade, e que empurrou Passos Coelho para erros sistemáticos na avaliação dos comportamentos dos partidos de esquerda (que, aliás, tratou com um desdém impróprio de um presidente da República). Aconteceu ainda, que por dificuldades em gerir o processo político que se atravessava, Cavaco Silva acabou capturado pela agenda de Passos Coelho, que assumiu como sua, e, depois, foi triste o seu final político. Em Belém, (torre-de-marfim de Cavaco Silva) lugar privilegiado para sentir o pulso ao país, às suas organizações e instituições, Cavaco Silva foi incapaz de perceber os sinais da sociedade, não adivinhando a “geringonça” que se estava a formar diante dos seus olhos. Mas lá vai dizendo: nunca receei ser submetido ao exame de consciência das posições assumidas. Nunca tive dúvidas e nunca me enganei. Enfim, presunção e água-benta…