Tiranias democratas

António Veiga

2017-07-13

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As democracias são até hoje a melhor forma de entregar o poder, porque até à data não se inventou nenhuma outra forma mais abrangente para o fazer. No entanto pode ser , na sua essência perigoso, na medida em que a entrega do poder a uma maioria corre-se o risco de uma ditadura de maiorias. Dessa forma, o poder e os eleitos, tornam-se mais frágeis e manipuláveis por interesses e compadrios, que com a sua força e influência económica, pessoal ou social. Uma democracia é tanto mais englobante e dinâmica quanto mais for participativa por projetos diferentes desde que haja compromisso claro com as reais necessidades ao que se propõem. A atribuição de poderes de decisão a partidos ou forças cuja representatividade é menor permite aportar um conjunto de mais-valias à mesa de decisões tornando audível a voz de minorias. Maquiavel via a democracia como o exercício do poder plural da república, por sua vez uma forma de governo na qual o poder é coletivo. Decididamente a democracia não é para autistas que refutam o debate e não se completam nas diferentes vontades. Há atualmente uma confusão muito grande a respeito do que é a democracia na sua essência. Cabe ressaltar que a “ditadura da maioria”, como a que se viveu em Vizela nestes últimos 19 anos, é parte de um discurso defendido por alguns membros de elites, de grupos que se colocam como opressores de camadas minoritárias da população. A maioria, que todos os partidos agarrados ao poder e aos interesses clamam, é uma organização castradora que unilateralmente consegue definir à luz dos seus propósitos o que é justo ou injusto, certo ou errado. Dessa forma fomenta-se uma democracia que se condena, viabiliza-se uma ditadura eleita prepotente, abafando e absorvendo propostas ou projetos  que venham doutras ideias. Assim, a democracia fica convertida em autoritarismo, como um instrumento de dominação, na visão destes “superiores” que patrocinados e impulsionados por interesses obscuros tentam minimizar outros projetos. Muitos deles passam nessas democracias e quando ameaçados ou com os propósitos atingidos continuam à distância a manipular dissimuladamente. Para o poder emanar do povo, há que se considerar duas premissas: que todos aqueles que compõem o povo sejam livres e iguais. Devem ser livres para agir e se manifestar, sempre respeitando a liberdade do outro, o qual, sendo igual, terá igual liberdade e igual valor na arena de debate público. Como pode ser-se igual quando outros se refutam à frontalidade e escondem-se no marketing e no oportunismo de influência. Mas acreditem, democracia não é isso, democracia é ouvir e dar voz aos que não conseguem falar tão alto, ou que nem sequer podem falar. Para que possam ser ouvidos também, de forma a darem um parecer, mesmo que contrário ao que grande parte da população quer e precisa. Democracia não é apelo à maioria, muito menos “ditadura”. Por isso é assustador e de mau presságio declarações de candidatos que afirmam que no dia depois das eleições só farão acordos pontuais contrariando a figura visível dum sempre em pé numa vénia constante aos que passam, apenas para lhes caçar o voto, pois não se constroem pontes de costas voltadas pois o azimute direcional á antagónico e focado em horizontes opostos. Diálogo e compromisso coletivo são valores inerentes à democracia e como tal essenciais, caso não se acredite nisso teremos o próximo presidente na câmara fechado no seu gabinete a fermentar decisões dos que o empurraram para o poder. Aí os sempre em pé serão marionetes e o povo durante quatro anos assistirá ao espetáculo deja vu onde perde representatividade, por isso desacredita e definha na cumplicidade do seu voto, o ato mais nobre da democracia. 
Pensem nisso