Tempos Culturais

Domingos Pedrosa

2018-02-08

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Há dias, quando na Casa Municipal de Cultura Jorge Antunes assisti à apresentação de um opúsculo que nos conta como nasceu e o que fez o Centro de Recreio Popular na nossa terra, ao ouvir a apresentadora, fechei os olhos, e voltei a viver os belos tempos dos anos 50. Abri-os quando mencionou os nomes do Rates e de Jerónimo Martins, e lembrei-me de tempos mais recuados, da década de 40, quando na Europa se ouvia o cadenciado das botas ferradas dos exércitos de Hitler a espalhar o terror e a morte por todo o lado. Em Portugal vivia-se com dificuldades mas sem o flagelo da guerra, e em Vizela, embora com as mesmas atribulações do resto do país, a vida era adoçada com o que cá se fazia, principalmente alegres diversões levadas a cabo pelos vizelenses com um certo grau cultural, e sempre muito concorridas. Havia conjuntos de violas e guitarras que acompanhavam bons cantadores de fado, uma orquestra de violinos, um grupo de cinco ou seis assobiadores que nas noites cálidas e silenciosas se ouvia quase religiosamente, a assobiar afinadinhos, trechos de óperas, fados de Coimbra, belas melodias. Grupos cénicos havia vários, que representavam no Cine-parque o que alguns vizelenses escreviam, comédia ou drama, que saíam das penas de Jerónimo Martins e Francisco Costa.
O opúsculo sobre o Centro de Recreio Popular foi oportuno e era necessário para a posteridade vizelense não esquecer aquele punhado de vizelenses que na área cultural, proporcionaram ao nosso povo, momentos alegres e felizes. Joaquim Ribeiro Ferreira, fundador do Centro de Recreio, soube rodear-se dos bons jovens de então, hoje homens maduros, orgulhosos e saudosos do que fizeram pela nossa Vizela. A Alexandre de Sousa, Alfredo Coutinho, Américo Osvaldo, Armando Antunes, Armando (sapo) - bom jogador de futebol que hoje valeria milhões- Augusto Amaral, João Madureira e alguns mais que não me ocorre, o meu reconhecido apreço, o meu e o de toda a comunidade vizelense.
Se estes vizelenses que na década de 50, impulsionaram a cultura e diversões na nossa terra estão felizmente vivos ainda, da década anterior, só um vive: Manuel Campelos. Ele, e os já desaparecidos Jerónimo Martins, Hernâni Macedo, Rates, Rogério Alves, José Ribeiro Ferreira e Amaro de Sousa, são merecedores também da nossa lembrança pelo muito que fizeram em prol da nossa cultura, e não só, como é o caso de Manuel Campelos. Vou contar três episódios (mas há mais, muitos mais) que aconteceram nas peças teatrais por eles escritas e interpretadas no Cine-parque, vou contá-los porque não merecem ser esquecidos. O primeiro é este: Jorge Pego fazia o papel de mordomo numa cena em que só dizia: “senhor conde, a carruagem acaba de entrar no parque”. Para dizer só isto nem precisava de ir aos ensaios, mas ia a todos. No dia da representação, quando chegou o momento da sua entrada em cena, envergando uma libré, o mordomo  (Jorge Pego) aproximou-se do senhor conde, fez uma elegante mesura e disse: “senhor conde, o pátio acaba de entrar na carruagem”. Logo se ouviram “us” e assobios, mas sem se desconcertar, o mordomo virou-se para a plateia e repetiu: “é verdade senhores, o pátio acabou mesmo agora de entrar na carruagem. Não ouvem os guizos dos cavalos?”. E de facto ouvia-se o guizalhar de três ou quatro guizos que um garoto abanava escondido atrás do pano de boca. Mas a revoada de apupos não parou. Este é o segundo: No julgamento noutra representação, José Ribeiro Ferreira fazia o papel de advogado de defesa do réu. Chegada a hora da sua intervenção, o advogado (José Ribeiro Ferreira) levantou-se enfarpelado com uma toga e, ao tentar dizer: “eu, na qualidade de advogado de defesa do réu”, foi interrompido pelo queixoso que, pingueiro (ninguém se tinha apercebido do seu estado. Era sábado à noite), ripostou: “o quê? Advogado? Você advogado? Você é o Zezé do pão-de-ló delícia. Olha advogado! Todos o conhecemos. É o Zezé do pão-de-ló”, repetia. E ouvia-se Jerónimo Martins, que era o ponto, todo atrapalhado a tentar “encarreirar” o homem que não parava de dizer: “você é o Zezé do pão-de-ló delicia!”. Por último, este: havia num acto a cena de queimar uma carta comprometedora, mas os bombeiros não deixaram fazer fogo e optou-se por a rasgar. Quando entrou o personagem a fungar, a farejar com o nariz bem levantado, e que tinha de dizer “cheira-me a papel queimado”, disse: “cheira-me a papel rasgado!” Que bons tempos aqueles, que tantas saudades nos dão.