Será depressão?

Ana Isabel Carvalho

2017-12-07

Partilhe:



A depressão é uma entidade clínica bem conhecida, cada vez mais frequente e com tratamento a maioria das vezes eficaz. Trata-se de uma doença mental que se traduz num estado emocional anormal que afeta o pensamento, as emoções, a perceção do mundo exterior e o comportamento.  Todos já tivemos a experiência de estar triste. A tristeza é uma emoção humana normal, tal como todas as outras. Numa sociedade moderna em que existe a tendência para querermos obter tudo o que desejamos no momento, também no que diz respeito à tristeza, queremos rapidamente ver-nos livres dela. Existe uma tendência crescente em esquecermos o que é saber estar triste. Hoje em dia a tristeza é um estado ao qual não queremos estar associados, como se isso implicasse uma perturbação mental. A tristeza é um estado emocional de adaptação, é um processo necessário para permitir processar as experiências dolorosas. Não é um sinal de depressão, mas sim uma forma de ultrapassar essas mesmas situações, levando mesmo à prevenção de uma futura depressão, que pode surgir quando a experiência desagradável não é vivida como tal.
Como distinguimos então o que é estar triste de estar deprimido? A tristeza é normalmente desencadeada por um acontecimento doloroso, difícil, ou por uma situação ou experiência de desilusão. Costuma dizer-se que nos sentimos tristes com alguma coisa. Quando nos reajustamos ao acontecimento ou a situação é resolvida, a tristeza desaparece. A depressão é um estado emocional anormal, em que a pessoa se sente triste em relação a tudo à sua volta, um estado que não tem necessariamente relação com algum evento adverso. Existem acontecimentos de tal forma marcantes que podem originar a longo prazo uma depressão reativa ao mesmo, que se caracteriza pelo prolongamento dos sintomas depressivos mesmo quando a causa já não está presente ou, estando presente, não houve a adaptação esperada à mesma.
Existe uma entidade especialmente geradora do sentimento de tristeza, o luto. A perda de um ente querido cria nas pessoas um grau de tristeza elevado e é um processo em nada equiparável à depressão, pelo contrário, a forma de lidar com as duas situações é totalmente distinta. O luto é um processo que deve ser vivido em pleno, sem mascarar o sentimento de tristeza natural e adaptativo, pelo que não deve ser tratado como se de uma depressão se tratasse. Existem sintomas para os quais devemos estar alerta e que fazem suspeitar da presença de depressão: Perda de interesse ou prazer na maioria das atividades; humor deprimido ou irritável a maior parte do tempo; lentificação mental e física; perda de energia; perturbação do sono; pensamentos sobre a morte ou suicídio.
A depressão é uma doença tratável e, na presença destes ou outros sintomas, deve ser procurada ajuda médica. Existem diversos tratamentos disponíveis e eficazes e, quanto mais precocemente instituídos, mais fácil será a recuperação.
Como mensagem final, é importante salientar que o sentimento de tristeza deve ser desmistificado e deve ser vivido em pleno, pois é o estado que permite a adaptação a acontecimentos de vida para que mais tarde seja possível viver as experiências felizes também com a alegria adequada.
 “Aquele que nunca viu a tristeza, nunca reconhecerá a alegria.” Khalil Gibran