SENHORA DA LAPA (III)

Pedro Marques

2018-09-06

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Muitas das grandes devoções do POVO e que levaram na proporção à edificação de grandes santuários, ou basílicas e até catedrais, tiveram como base o mito-lenda-milagre-sobrenatural de algo fantástico. Veja-se o caso de S. Torcato (Guimarães); o caso da Senhora da Lapa (Sernancelhe); Senhora do Alívio (Vila Verde); Senhora de Fátima (Fátima); Senhora do Cabo Espichel (Sesimbra); Senhora da Nazaré (Nazaré); Senhora da Peneda -antes Senhora das Neves (Arcos de Valdevez); Senhora dos Remédios (Lamego onde há séculos havia a capelinha de Sto Estêvão); Senhora da Lapa (Soutelo-Vieira do Minho); Senhora da Lapinha (Calvos, Guimarães). E fiquemo-nos por aqui, no rol imenso dos casos extraordinários. De todos, o templo mais humilde é o da “Senhora da Lapa” de Soutelo – Vieira do Minho que se ficou pela singeleza da gruta que era.   Temos pena de não dispormos de espaço para ilustração do texto com fotografias dos casos evocados.
Como, porém, o nosso propósito é o de continuarmos a escrever sobre o Santuário de N. Senhora da Lapa de Sernancelhe, suspendemos a evocação dos santuários erigidos na base do fantástico e do milagre para nos debruçarmos de novo sobre o santuário de N. Senhora da Lapa.
Como já referimos, não nos movem os mirabolantes motivos da passagem estreita entre dois gigantescos penedos nem o crocodilo embalsamado. Para nós, o Santuário de N. Senhora da Lapa tem a sua espiritualidade baseada na FÉ. E foi esta FÉ que nos levou de propósito até à serra da Lapa. Para irmos buscar a nossa patente de “associado” da “associação de fiéis” de lá. Patente ou “diploma” de que fomos merecedor, ao contrário de uma “irmandade” que de “irmão” nos “rejeitou”, porque, segundo a nota de “rejeição”, nós actuámos em descrédito da confraria“ e da igreja em geral”. 
 É certo que o POVO diz o seguinte: “quem ao longe vai casar ou se engana ou vai enganar”.  Parafraseando, fomos longe, sim.  Também nesta nossa procura da Senhora da Lapa, não fomos ao acaso. Sabíamos aonde íamos e ao   que íamos, depois de visitas anteriores e depois de dado a conhecer o nosso “curriculum”. Não nos escondemos atrás de disfarces. Não foi, assim, “mais uma” excursão. Neste caso, foi a sinceridade e a honestidade na nossa Fé que nos levou tão longe à Senhora da Lapa. Nem para enganar nem por engano: apenas na nossa busca de afectos na Fé de que somos carente e na Senhora da Lapa tivemos o acolhimento tão necessário a esta nossa carência.  E então, por que referimos o episódio da “rejeição”?...  Porque foi um acto indigno e mesquinho de baixa vingança. Cuja afronta nos magoou e nos causou repulsa. Indigno de uma associação de fiéis. Um dia, ainda virá a público toda esta “história”. Não por vingança, mas pela “revolta” que ainda anda aos pulos no mais fundo da nossa alma. Uma sacanice. A juntar a mais algumas.
Se bem repararmos, haveremos de concluir que o isolamento do ruído humano e no seio das montanhas é o local mais propício onde possamos ouvir a voz do Sobrenatural, onde o cosmos e Homem se plasmam, na essência do Divino. De um “divino” não “dominado” nem “controlado” pelas religiões nem por elas “aprisionado”, cada uma delas puxando a brasa à sua sardinha, na ânsia de serem detentoras exclusivas da DIMENSÃO da ESSÊNCIA de DEUS. “Sou cristão e de o ser me glorio” – cantámos um dia pela nossa comunhão solene. Para nós, é no cimo das montanhas e no silêncio envolvente, onde o vento é mais activo. E onde o vento é força” e é voz e é movimento. E é o vento que “sopra” também do Alto: Do Espírito Santo, soprando” onde quer, quando quer e em quem Ele quer”. Deus Espírito Santo. Livre!  Que nenhum alçapão (de pássaro) religioso O aprisiona. E também aqui, no cimo da serra da Lapa e desta vez, a voz do Espírito de Deus nos falou e de lá viemos “reconvertido” na nossa adoração a Deus pela devoção à Senhora, Mãe de Jesus (e não de Deus e não vamos esmiuçar aqui o porquê desta nossa afirmação) na sua quase infinita diversidade de nomes, sob cuja invocação de alguns, o POVO na simplicidade da sua Fé (mas também ignorância) apelida de a “festa” (a oito de Setembro) das “sete irmãs”. E parece que ninguém quer deitar a pedrada no charco desta devoção das “sete irmãs…).  E da Lapa regressámos qual Moisés a quem Deus-Fogo falou na sarça ardente com a entrega das “tábuas da Lei”. Na verdade, da montanha da Lapa regressámos “diferente” à nossa casa. Com a reformulação das “tábuas” da nossa forma de pensar sobre a espiritualidade Mariana.
Para nós, na sua forma e aparato, a devoção à Senhora da Lapa tem uma particularidade muito relevante: a ausência de arraiais a par das celebrações religiosas. Sem invasão de carrosséis, nem de vendedores ambulantes aos berros nos microfones, nem de gigantones ou bombos nem de foguetes. Nem ranchos nem “artistas”.  Nem o formigueiro de comércio à custa da devoção, ainda que seja impossível separar o profano do sagrado. Um testemunho vivo de FÉ e não de passatempo ou distracção. Até parece que o POVO, para se distrair tem de “usar” um “santo”! Honra seja feita, de novo, às “festas de Vizela” que têm o brilho que têm e atraem multidões e sem constrangimento de santo nenhum!  Na Senhora da Lapa, a devoção é na singeleza de uma FÉ no silêncio e na oração em sintonia com todas as lapas à volta a louvar o Senhor!  Sem pessoas a rastejar de joelhos. Mas de pessoas aprumadas na verticalidade da sua Fé. De um sentimento íntimo de penitente sem espectáculo nem deprimência. Deus quer as pessoas de pé na sua verticalidade! E na Senhora da Lapa, fora dos ruidosos domingos das multidões, ouve-se o vento! Ouve-se Deus a falar! E nós ouvimos! Exagero?... Experimente, amigo leitor, fazer uma digressão pelo silêncio e pratique o seu “ioga da meditação” ouvindo a sua alma. E também será capaz de ouvir o “Espírito do Senhor (que) encheu a terra inteira(!)” e responderá cantando “Aleluia!”. E para isso não precisa de ir à Senhora da Lapa: suba a S. Bento.  A nós, hoje, custa-nos ir a S. Bento porque da montanha se fez depósito de animais abandonados – cães e gatos é o que mais lá se vê. Uma espécie de canil a céu aberto. E para não virmos de lá deprimidos, não vamos lá acima. Uma solução (para este mal) é imperativa, mas sem que se varra o lixo para baixo do tapete.
E meus amigos, neste nosso estilo de comunicar consigo, somos assim: abrimo-nos e deixamos exteriorizar o que nos vai na alma. Uma coisa é certa: somos honesto naquilo que estamos escrevendo e isso fazemos também com sinceridade. Sem misturar alhos com bugalhos, mas chamando os bois pelos nomes quando isso vem a propósito.
Sobre a Senhora da Lapa de Sernancelhe, muito há a dizer e escrever. Além de narrador, também somos observador. E gostamos depois, de partilhar em jeito de conversa, com os aportes que a propósito vão surgindo.

Com o abraço amigo de sempre