Senhora da Lapa (II)

Pedro Marques

2018-08-09

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Escrever algo sobre a Senhora da Lapa, é incontornável ter de se escrever  também sobre a devoção do POVO de Vizela à Senhora num Santuário tão distante. Felizmente que, agora, as auto-estradas permitem mais facilidade de acesso também a um sítio aonde o POVO de Vizela vai com fidelidade desde tempos perdidos no tempo:  anteriores já à nossa vinda para esta terra que desde 1966 passou a ser também a nossa. Atrever-nos-emos até a afirmar que, depois da devoção ao S. Bento das Peras, será a devoção à Senhora da Lapa que Vizela mais cultiva. Com uma curiosidade peculiar, observada por nós: se ao para lá se canta e rezam terços no percurso da viagem, ao para cá é já em ambiente de romaria que se faz o regresso. Devoção e alegria, duas componentes que se congregam e completam e mostram a alma do POVO.
É curiosa uma informação constante da página do facebook do Santuário da Senhora da Lapa e que é esta: em quatro de Setembro de 2016 houve uma peregrinação da gente do Minho à Senhora da Lapa. Ora, tanto quanto sabemos, na massa desta “gente do Minho” é Vizela em peso que por tradição costuma estar. E tanto assim, que no Santuário e nalgumas Eucaristias, é feita mesmo referência à presença de “gente de Vizela”. O que até levou a que pessoas já mais próximas do culto no santuário, se tenham interrogado do porquê desta gente do Minho ter devoção à Senhora da Lapa, em sítio tão distante. Digamos ainda que “Vizela” já tocou órgão e já cantou acompanhada ao órgão, no coro do seu santuário. Vozes do Minho (Vizela, no caso) se fizeram ouvir nos cânticos litúrgicos.  E também esta quadra, quase universal e que tanto impressionou João Paulo II quando passou pelo Sameiro lá se cantou: “Senhora do Sameiro/ Por entre o Teu sorriso/ Que veja o pecador/ sorrir o Paraíso! Vela por nós filhos teus/ Mãe de Jesus, nosso bem/ Tu podes, és mãe de Deus/ E deves, és nossa Mãe”… E depois, cá fora no largo, também cantou ao som da concertina e do cavaquinho e da viola e dos ferrinhos e do bombo, como nas lajes das eiras nas desfolhadas minhotas! O largo na dimensão de eira imensa!  E mais! Que se saiba, a primeira “serenata” à Senhora da Lapa, cantada à porta do Seu santuário, foi privilégio do rancho folclórico de Tagilde, na sua última deslocação pelos festejos do aniversário natalício da sua “madrinha”, a qual, por coincidência é também quem “tira o andor da Senhora” nas procissões. Se não em todas, pelo menos nas procissões de velas. E este ano, até na procissão seguinte (a de Junho) e cujos arranjos florais são feitos por tal senhora. Com flores de Vizela! E este ano, até a flor do campo “mimos de mãe”, adornou e aromatizou no seu perfume tão doce, o ambiente dos altares no Santuário da Senhora! Quinze dias depois, as flores dos altares estavam ainda frescas e cheirosas no seu tão cativante perfume! Vizela e a Senhora da Lapa são duas faces da mesma moeda! Plasmam-se!
 O porquê deste fenómeno?... Recuemos ao tempo do início da fundação da nossa nacionalidade, ainda bem mais distante que a distância geográfica. Nestas regiões beirãs se verificou o repovoamento do concelho de Tarouca e vizinhos após a expulsão dos árabes que na Lapa deixaram também a sua marca. E de onde veio gente para o repovoamento?  A resposta encontramo-la (também) na “Monografia do concelho de Tarouca” – do Minho. E embora e quanto a esta freguesia mas sem certezas, seja referida Várzea da Serra como uma das freguesias beirãs com a “marca” minhota, o certo é que essa “marca” é mais ampla. Com outra curiosidade acrescida: é de Vizela como é de Várzea da Serra a maior afluência constante de devotos à Senhora da Lapa.  Haverá para isto, alguma afinidade?... Quem sabe se desse tempo tão distante não se tenham criado e transmitido geneticamente raízes antropológicas do chão e da devoção?...
E encontramos ainda uma outra curiosidade: o bispado de Lamego. Sem irmos às venturas e desventuras deste bispado através da história, “a criação da diocese formalizou-se pela era de 570, por influência de S. Martinho de Dume que a submeteu naturalmente à metrópole bracarense”.  E assim permanece ainda hoje – “integrada na Província Eclesiástica de Braga, tendo como Metropolita o Arcebispo Primaz de Braga”. E sabemos do poder e da força da influência da Igreja na “educação” mesmo social do POVO. A cultura adquiria-se à sombra dos conventos e por acção do clero, mesmo e sobretudo no tempo das classes sociais do “clero, nobreza e POVO”. A Igreja, portanto, exercia forte e poderosa influência junto do POVO. E, hoje, ainda se diz: “Vale mais uma mentira do padre do cimo do altar, que mil verdades ditas cá fora!”
Traduzido isto ainda mais em miúdos, poderá deduzir-se que até Lamego (diocese no seu extenso território) se estende um braço da metrópole de Braga. E assim e através da religião católica pela supremacia de Braga e pelos motivos referidos no parágrafo anterior, se terá verificado a influência minhota no miolo das serranias das “Terras do Demo” e que terá contribuído também para o fenómeno do repovoamento desta região por gente do Minho. Ora, se Sernancelhe faz parte geograficamente do bispado de Lamego, não repugna que as gentes do Minho também por aqui se tenham fixado. Não será, assim, tão difícil a resposta ao porquê de “gentes do Minho” (leia-se também de Vizela) terem pela Senhora da Lapa devoção tão especial e tão intensa. Isto, como é evidente, são suposições nossas. Não somos historiador e nem essa presunção temos. Somos apenas um curioso que gosta de saber dar respostas (e se possível fundamentadas) aos porquês das interrogações em que vamos tropeçando pela vida fora.
No próximo “trabalho” sobre a Senhora da Lapa, iremos ver que haverá, ainda, mais um motivo que tenha levado as gentes do Minho a devoção tão longe como é a da Senhora da Lapa. Até lá,
O abraço amigo de sempre!