Seja corajoso, Senhor Presidente.

Eugénio Silva

2019-07-04

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Não fuja; não se esquive ao dever de esclarecer


Em Reunião de Câmara, realizada em 23 de Junho, fui acusado, erradamente, de cobarde. Mas não, decididamente, não sou cobarde nem necessito de terceiros para o questionar, senhor presidente do município de Vizela. Cobarde seria se, temperado em combates pela Liberdade (antes e depois de Abril), não o questionasse, em Democracia, acerca da falta de rigor, de verdade e de transparência em que atolou o seu projeto para requalificar o adro da igreja de Santa Eulália. Não sou cobarde nem preciso de procuradores para lhe afirmar que não há virtude nem honestidade política quando pretende, erradamente, julgar o carácter dos cidadãos, apenas porque desejam escrutinar as suas decisões e/ou omissões; apenas porque, simplesmente, desejam, pelo dever e pela obrigação, que as torne acessíveis à avaliação pública e ao juízo dos cidadãos. 
Não, decididamente, não sou cobarde, senhor presidente da câmara de Vizela, nem preciso de ninguém para o aconselhar a rever a suas capacidades de mise-en-scène  políticas. É que, quando apelida, erradamente, de cobardes bons e destemidos cidadãos, aqueles que não temem afrontá-lo e não consegue dominar, todos aqueles que só se vergam perante a nobreza do exercício político em conformidade com salutares valores e princípios democráticos, acaba por não conseguir disfarçar uma preocupante e natural tendência autoritária, mostrando o desejo de impor a famosa Lei das Rolhas, decretada, em 1850, pelo despótico Costa Cabral, ou a suspensão temporária das liberdades e garantias durante o seu mandato, à semelhança do preconizado por Manuela Ferreira Leite. 
Relembro-lhe que esta tendência para o autoritarismo ficou bem patente aquando o seu discurso proferido, em outubro de 2018, na tomada de posse dos órgãos diretivos dos Bombeiros Voluntários de Vizela. Nesse palco e ocasião, apropriados para discursos diplomáticos e reconciliadores, erradamente, aproveitou, na qualidade de convidado, para acusar de cobardes uma trintena de associados que, com todo o direito e legitimidade, entenderam exercer a abstenção no ato eleitoral, anteriormente realizado, colocando em causa os valores sagrados de um país democrático: a liberdade, o pluralismo, a tolerância, o respeito pela opinião e vontade do outro. E como não sou cobarde nem preciso de auxílio de ninguém, digo-lhe, senhor presidente da câmara, mostro-lhe que cometeu um clamoroso erro político, um ato pleno de cobardia. O local adequado para tecer essas considerações teria sido, na qualidade de sócio, - uma Assembleia Geral da Associação. Nela, nessa qualidade, teria toda a legitimidade democrática para o fazer, o que lhe granjearia todo o nosso respeito e consideração.
Como sabe, desde que abandonou o PS, tornou-se meu adversário político. Nem negará que sou, politicamente, impoluto, um privilégio que poucos, muito poucos, podem proclamar. Por isso, com muita honra, integrei, como militante, o 4.º lugar na lista de vereadores do PS para a Câmara Municipal de Vizela sufragada nas últimas eleições autárquicas. Motivou-me, acima de tudo, um programa eleitoral prático e exequível e a liderança de um homem sério e honesto, um projeto político baseado nos valores pelos quais sempre me baterei em democracia: competência, seriedade, rigor e transparência. Tudo isto, quer goste, quer não goste, concede-me a legitimidade e a obrigação de lhe pedir contas. Hábito que exercerei no futuro.
A fundamentação para alterar o Regimento da Câmara Municipal de Vizela, mormente o período destinado à intervenção do público, apenas para se furtar à estopada de prestar contas e explicar negócios públicos aos munícipes, seria um simples e hilariante disparate, uma tremenda gargalhada no mundo da política, caso não envolvesse o secreto desejo de promover a famosa Lei das Rolhas. Sabe, ademais, que não preciso dessa tribuna para o questionar. Utilizo outra via, as páginas do RV- Jornal, incomensuravelmente, bem mais democrática que a curta intervenção que concede aos munícipes, sem direito ao contraditório. 
Por isso, senhor presidente do município de Vizela, com toda a legitimidade, e como não sou cobarde nem necessito de mediadores para o questionar, renovo-lhe, com a habitual frontalidade, as mesmas perguntas: mostrando-se, como se mostra, célere e impiedoso a denunciar toda a espécie de irregularidades praticadas, no passado, pelos seus ex-colegas de vereação do PS, por que não explica, agora, a utilidade para o seu projeto de requalificação do adro da igreja eulalense a compra, em 2016, da obscura “Bouça de Agros ou Pendal”, pelo valor de 26 000,00 €, a quilómetros de distância da igreja? Quem e o quê pretende esconder? E, já agora, por que não faculta ao munícipes as coordenadas para que, através do recurso ao sistema por navegação por satélite (vulgo GPS), possam aferir a concreta localização da misteriosa bouça? 
Deste modo, rogo-lhe que  seja corajoso, senhor presidente. Não fuja; não se esquive ao dever de esclarecer; não se perpetue em pesados e eloquentes silêncios. Diga-nos a verdade.