Retratos à La Minuta - XXVII

Em memória de Domingos Pedrosa

2020-02-27

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Vou mostrar o retrato de um bombeiro que o meu pai, bombeiro também, muitas vezes contava proezas dele. Proezas inauditas que ficaram na história, pelo menos na história dos soldados da paz.
Nascido no Brasil, Guilherme Gomes Fernandes aos três anos de idade veio viver para o Porto, aos treze, rumou para Inglaterra onde estudou e, aos dezanove, abastado e culto, fixou residência no Porto, onde fundou a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários (1875) e o corpo de Salvação pública, sendo nomeado comandante do corpo de Bombeiros, e inspector de incêndios do Porto em 1885. Recebeu formação de Bombeiro nos municipais de Lisboa (notabilizando-se logo no combate ao trágico incêndio do teatro Baquet) e manteve contactos frequentes com os bombeiros de vários países e com prestigiados mestres de ataques a incêndios. Realizou campeonatos de exercícios e organizou e instruiu várias corporações. No Porto, em 1893 realizou o primeiro congresso dos Bombeiros Portugueses, e no mesmo ano, participa com uma força sob o seu comando num torneio internacional, tendo-se classificado em primeiro lugar, sem a atribuição do segundo a outro concorrente atendendo à excelência da prova dos portugueses.
Em 1894 participou no Torneio de Lion - França com uma força de catorze bombeiros tendo conquistado o segundo lugar, e no de Paris em 1900 no qual estiveram bombeiros da Áustria, Itália, Espanha, Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Inglaterra, Holanda, Luxemburgo, Suécia, Rússia, etc, o grupo de Gomes Fernandes vence o concurso perante uma assistência de 40.000 pessoas, e é condecorado com a medalha de Sévres pelo Presidente da República de França, recebendo ainda o título de campeão do mundo, além do prémio secundário de 1.500 francos. Noutro concurso que ficou célebre, os nossos bombeiros e Guilherme Gomes Fernandes, cobriram-se de glória. A prestação de provas verificou-se perante numerosa assistência tendo como tema a extinção de um incêndio num prédio de vinte metros com três salvamentos: dois no quinto andar e um no sexto.  Para o seu cumprimento, o júri estabeleceu o tempo máximo de quinze minutos. Os bombeiros americanos (vencedores de três concursos) foram os primeiros, e na sua actuação demoraram quinze minutos. Seguiram-se os Húngaros, sempre bem classificados noutros concursos, que cumpriram o exercício em dezasseis minutos, e os bombeiros portugueses foram os terceiros a serem chamados, para prestar provas.
Diz-nos a história que Gomes Fernandes apitou e que a equipa se dirigiu de imediato para o esqueleto de madeira instalado junto à pista do edifício incendiado, extinguindo as chamas num tempo recorde. Se os americanos precisaram de quinze minutos e os húngaros de dezasseis, aos portugueses bastaram dois minutos e 56 segundos. Os valentes rapazes correm o prédio incendiado, com um sangue frio que logo conquistaram todas as simpatias. Armam escadas, lançam as cordas, sobem o esqueleto com uma agilidade extraordinária e o problema é triunfantemente resolvido, descreveu o correspondente do jornal dos bombeiros, no seu artigo sobre o evento. A equipa não havia efectuado qualquer treino antes da prova e muito menos conhecimento das condições do esqueleto, o que sabia, disse Gomes Fernandes, é que tinha que ser mais rápida, que as chamas devoradoras. Após o exercício o público que se encontrava nas bancadas, invadiu o recinto dispensando calorosos aplausos aos bombeiros portugueses pela rapidez e eficiência. Houve até quem entre a multidão afirmasse: Eles são bombeiros gatos!
Devido ao tempo realizado pelos portugueses, considerado inatingível às restantes 17 equipas, o júri deu tudo por terminado, e o Presidente da República Francesa, saudando a equipa vitoriosa, ergueu o seu chapéu, e disse: Vivam os Bombeiros Portugueses. Viva Portugal. E a Gomes Fernandes, confidenciou: Diga ao vosso governo que quando Portugal necessitar de alguma coisa de França, mande como seus embaixadores os seus Bombeiros.
O contributo de Guilherme Gomes Fernandes para o progresso dos bombeiros, valeu-lhe o tratamento de mestre, assim como diversas condecorações nacionais e internacionais de prestígio.