Retratos à La Minuta - XXVI

Em memória de Domingos Pedrosa

2020-02-13

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Por serem pequenos, e caberem no mesmo espaço, vamos mostrar dois retratos. O primeiro é de Gago Coutinho, vice-almirante da armada portuguesa, onde foi um notável geógrafo e navegador, mas, o seu espírito empreendedor e investigador, levou-o a dedicar-se aos estudos de navegação aérea, muito incipiente ainda, naquela época. Para esse fim, ligou-se ao seu amigo capitão Sacadura Cabral, aviador dos mais distintos, e, num trabalho que de começo se fez muito em segredo, começaram a realizar vôos de experiência para estudo de novos métodos de navegação aérea, já com o fim de se efectuar a travessia aérea de Lisboa ao Rio de Janeiro.
Em 1921, Gago Coutinho faz com Sacadura Cabral a viagem aérea de experiência, de Lisboa ao Funchal, em que pôde verificar a exatidão dos seus processos de navegação e pela qual foi louvado. E é então que, em 1922, no modesto hidro-avião “lusitânia” que os dois oficiais realizam a travessia aérea de Lisboa ao Rio de Janeiro, que havia de ficar memorável. Esta travessia, que foi a primeira que se realizou entre a Europa e a Améria do Sul, foi também a primeira em que se fez a navegação aérea com rigor e por métodos próprios para a navegação noa ar, fazendo Gago Coutinho uso de tábuas de navegação, especialmente adaptadas para esse fim, e de um sextante da sua invenção cujo modelo foi mais tarde reproduzido por uma empresa alemã.
Esta travessia teve uma repercussão mundial importante e trouxe não só fama para os dois aviadores que ultrapassou fronteiras, como honra e engrandecimento para Portugal. A navegação aérea que até ali se tinha feito um pouco ao acaso, apoiando-se o piloto apenas no rumo da agulha, passou a ser feita por processos rigorosos, práticos, científicos.
Gago Coutinho foi condecorado com as mais altas comendas de diversos países: Portugal, Brasil, Espanha, França (onde foi recebido na Soborne), Bélgica e Itália. Estes países ao agraciarem o nosso cientista, significou o valor e o apreço que o mundo inteiro deu a tão glorioso feito.
    O segundo retrato é o de Afonso Domingues, primeiro arquitecto do Mosteiro da Batalha. A história, diz-nos isto: Afonso Domingues, autor da planta do Mosteiro da Batalha, dirigiu as obras no seu começo em 1387, mas a cegueira não lhe permitiu que continuasse. Com grande mágoa, D. João I deu a responsabilidade ao arquitecto David Ouguet, que julgou irrealizável a formosíssima abóbada delineada por Afonso Domingues. Para a sala do capítulo e traçou novo desenho, que seguiu na construção. Quando tirados os cimbres no acto da inauguração na presença de D. João I, a grande abóbada ruíu.
    O rei mandou que se seguisse o projecto de Afonso Dominges, que dirigiu a construção apesar de cego, e a dar ordens ao mestre Ouguet. Quatro meses depois, o tempo que Afonso Domingues achou necessário para completar a obra, D. João I dirigiu-se à batalha e encontrou a sala cheia de prumos, traves, andaimes e cabrestantes que iam ser tirados para criminosos, que teriam a vida salva se a abóbada não caísse. Afonso Domingues garantiu que não caía, e ficou debaixo, até tirarem toda a tralha, prometendo ficar ali três dias, sem comer nem beber. A abóbada não caiu, mas ao fim dos três dias foram encontra-lo morto por não ter resistido ao jejum.
    Quando em 1923, se procedia às escavações para o túmulo do soldado desconhecido, precisamente sob a célebre abóbada, foram encontradas ossadas humanas que foram consideradas como as do mestre Afonso Domingues. Metidos numa pequena caixa, ficaram ao lado das do soldado deconhecido.