Retratos à La Minuta - XXV

Em memória de Domingos Pedrosa

2020-02-06

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Florbela Espanca é uma poetisa que deixou uma obra notável.
Nasceu em Vila Viçosa a 8 de Dezembro de 1894 e faleceu em Matosinhos a 8 de Dezembro de 1930. A sua vida, de apenas 36 anos, foi plena, embora tumultuosa, inquieta e cheia de sentimento íntimos transformou-se em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização e feminilidade.
Estudou no Liceu de Évora sendo das primeiras mulheres em Portugal a frequentar um curso liceal, e durante os seus estudos, leu avidamente obras de Balzac, Dumas, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro e Garrett, que a Biblioteca Pública de Évora tinha ao seu dispor. Para sobreviver, Florbela começou a dar aulas particulares de português e a traduzir romances para as editoras Civilização e Figueirinhas do Porto. Nessa ocasião, o irmão da escritora, com apenas 30 anos, faleceu num trágico acidente de avião. A sua morte foi devastadora e Florbela procurou lenitivo no livro de contos “As máscaras do destino”, que escreveu para homenagear o irmão. O desgosto pela morte do irmão foi tanto que agravou a sua doença mental levando-a pela primeira vez a tentar o suicídio. A segunda vez foi após o diagnóstico de um edema pulmonar, quando a escritora perdeu definitivamente a vontade de viver. Não resistiu à terceira tentativa de suicídio.
Morreu em Matosinhos no dia em que fazia 36 anos. A causa da morte foi uma overdose de barbitúricos. Jaz no cemitério de Vila Viçosa, a sua terra natal.
Foi uma autora multifacetada, tendo escrito poesia, contos, um diário e epístolas. Traduziu vários romances e colaborou em revistas e jornais de diversa índole. Antes de tudo foi poetisa abordando sempre temáticas amorosas. Preocupando-se muito com o amor, utilizou repetidamente palavras que romanticamente lhe são inseparáveis: solidão, tristeza, saudade, sedução, desejo e morte. Mais vocábulos são repetidos na sua escrita. O Eu, presente em quase todas as suas peças poéticas, e depois, muitas vezes aparecem palavras reflexos de paixão: alma, amor, saudade, beijos, versos, poeta e várias outras que delas derivam.
Florbela Espanca causou grande impressão entre literatos e público do seu tempo e de tempos posteriores, que prestaram homenagem à pessoa humana e lírica da poetisa. Manuel da Fonseca, em Para um poema a Florbela, e Fernando Pessoa no poema À memória de Florbela Espanca, em que a descreve como … alma sonhadora irmã gémea de mim ….
Na música, o grupo Trovante musicou o soneto “Ser poeta”, e o soneto “Perdidamente”, musicado por João Gil, tornou-se o trecho mais popular do repertório da banda. O brasileiro Fagner interpretou os poemas “Fanatismo e Fumo”. A cantora brasileira Nicole musicou vários sonetos e na obra da fadista Marisa são cantados os poemas Caravelas e Amores Vãos.
Florbela teria deixado uma carta confidencial com as suas últimas disposições e um admirável soneto que começa assim:
Não tenhas medo, não! Tranquilamente,
Como adormece a noite pelo Outono,
Fecha os teus olhos, simples, docemente,
Como, à tarde, uma pomba que tem sono...