Retratos à La Minuta - XXI

Domingos Pedrosa

2020-01-09

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A finalidade destes retratos, é mostrar bocados da nossa história e, há dias, numa conversa sobre futebol onde se falou de Eusébio e do campeonato do mundo de 66 em Inglaterra, alguém disse que não sabe ainda, porque chamaram magriços aos nossos jogadores. Ora bem, hoje é um retrato (vão ser dois) um pouco diferentes, mas vou mostrá-lo para o meu amigo saber porque chamaram Magriço a Eusébio, Coluna, Simões.
O magriço foi um guerreiro português, um dos doze de Inglaterra, natural de Penedono, povoação a quem o nosso rei D. João I em 1408, doou a seu pai. Os doze de Inglaterra são os heróis de uma história de cavalaria que Camões nos Lusíadas (canto VI, estrofes 37 a 70) apresenta como contada uma noite por um marinheiro, em uma das naus de Vasco da Gama, quando iam de Melinde para a Índia, aos camaradas para os distrair. Esse marinheiro (Fernão Veloso) narra que no tempo em que reinava em Portugal D. João I (1385-1433), foram na corte de Inglaterra agravadas doze damas por alguns cortesãos. Queixaram-se então elas ao Duque d Lencastre, o qual lhes propôs que as defendessem contra os injuriadores doze cavaleiros portugueses que ele conhecera, quando por cá andara. Cavaleiros que designou e cujos nomes, as damas tiraram á sorte entre si. Escreveu cada uma ao que lhe coube, e todas ao rei português. Aceitando o convite, partiram os paladinos do Porto, por mar, excepto um, Álvaro Gonçalves Coutinho, por alcunha o magriço, o qual preferiu seguir por terra. Chega este ao campo do torneio em Londres, à última hora, quando os cavalos já mastigavam, escumando, os áureos freios – como diz Camões.
Trava-se o combate e os portugueses saem vitoriosos. Diz Camões: “Cos nossos fica a palma da vitória/ e as damas vencedoras com glória (...) recolhe o Duque os vencedores/ nos seus paços, com festas e alegria (...) magriço, o mais aguerrido, por lá ficou, vindo matar noutra liça, um invencível cavaleiro francês.” Isto disse o marinheiro a Camões, porque o historiador Ferreira de Vasconcelos no memorial da Távola Redonda, diz: da sua corte, mandou D. João I doze cavaleiros portugueses a Londres, que se desabeiram em campo cerrado com outros tantos ingleses nobres e esforçados por respeito das damas do Duque de Alencastre.
Está mostrado o retrato de um desconhecido cavaleiro do século XV, e, o que vou mostrar a seguir, é o de uma mulher menos conhecida ainda, que, pela sua coragem e bravura ao serviço da coroa portuguesa, foi apelidada de cavaleira portuguesa do século XVI. Chamava-se Antónia Rodrigues, nascida em Aveiro, e levada por seus pais para Lisboa para a companhia de uma irmã casada que tinha comportamentos ríspidos, e com a qual não se deu bem.
Aos doze anos e com o pouco dinheiro que tinha, cortou os belos cabelos louros, comprou uma vestimenta de marinheiro, e disfarçou-se de rapaz. Passou a dizer que se chamava António, e ajustou com o mestre de uma caravela carregada de trigo para Mazagão, Marrocos, o trabalho de grumete. Depois da viagem, alistou-se na infantaria local, na qual adquiriu habilidades no manejo de armas, alcançando o comando de uma tropa contra uma invasão de mouros. E entrou vitorioso em Mazagão onde foi triunfalmente aclamado e integrado na cavalaria da praça. Por suas seguidas e brilhantes actuações militares, ficou conhecido como o terror dos mouros e ganhou a estima, a admiração e o respeito de todos. Tanta admiração, que uma donzela filha de um cavaleiro, apaixonou-se pelo valente militar e, devido ao seu prestígio o pai pediu-lhe que casasse com sua filha. O assédio de várias jovens fidalgas portuguesas da época para que o jovem oficial as desposasse, obrigou a heroína a confessar a verdadeira identidade, Antónia resolveu mudar as suas actividades militares e tornar-se uma cidadã civil comum. Pouco depois, casou-se com um ex-colega de armas e regressou a Portugal, onde o Rei Filipe II a recompensou pelos serviços prestados, conferindo-lhe diversas condecorações.
A partir de então, a sua vida ficou envolta em mistério e pouco se sabe dela, bem como a data e local da sua morte.

 


Querido Avô

Lutaste até ao fim, foste um homem notável, não só pelas causas em que te envolveste, mas também pelo legado que nos deixaste.
Tiveste sempre o dom das palavras, pois quando escrevias construías mundos, e quem os lia, passava a habitar neles, por isso os teus artigos vão continuar a ser publicados como tu pediste.
Obrigada por teres sido tão presente nas nossas vidas e por deixares tanto de ti em nós.

Até sempre avô

Dos teus netos