Retratos à la minuta

Domingos Pedrosa

2019-06-06

Partilhe:


Isto de ter noventa anos não obriga a ver só televisão, ouvir música, ler, jogar xadrez com o computador e fazer sudoku’s muito difíceis, para melhor exercitar o cérebro. Além de tudo isto, a mim, apeteceu-me lembrar pedaços da nossa história, mostrar retratos “à la minuta” de insignes portugueses. São retratos verdadeiros, contrariam os que afirmam que a história é uma “chorrilhada” de mentiras. Mentiras que se tornaram verdades depois de muitas vezes repetidas, como disse Goering, o gordo braço direito de Hitler. Opinião diferente teve Cícero que disse que a história é a mãe da verdade. Para muitos não. O americano Nick Tosches, até diz que a bíblia é obra de sábios e de loucos, de videntes e de poetas, de autores de fábulas e de mitos, de estudiosos de um passado que nunca existiu e profetas depois dos acontecimentos.
É sem olhar para estes conceitos – porque nada tem a ver com eles – que vou então, lembrar alguns vultos da nossa história. Hoje vamos “mostrar o retrato” do nosso Primeiro Rei. Filho do Conde D. Henrique de Borgonha e de D. Teresa, filha de D. Afonso VI de Leão. Nasceu em Guimarães em 1111, e foi fundador da nossa nacionalidade e primeiro soberano da dinastia de Borgonha que durou 244 anos.  Aos 14 anos armou-se cavaleiro por suas próprias mãos na Sé de Zamora, quando sua mãe e o seu valido Conde de Trava, governavam o Condado durante a sua menoridade. Aos 17, instigado pelos fidalgos irritados contra o predomínio do Conde de Trava, Afonso Henriques ficou à frente de um movimento revolucionário que na Batalha de S. Mamede desbaratou as hostes de D. Teresa. Expulsando-a depois do Condado, bem como ao seu valido, Conde de Trava.
A partir da Batalha de Ourique, Afonso Henriques manifestou a ambição de ser rei, mas D. Afonso VII não deixou, recusou-se a reconhecer a sua realeza, mas, em 1143, Afonso Henriques ao declarar-se Tributário da Santa Sé com quatro onças de ouro anuais, reclamou em troca a protecção do Papa, que acedeu. Mesmo assim, D. Afonso VII ao assinar depois em Zamora a paz com Afonso Henriques, não lhe reconheceu a realeza; não protestou, porém, contra o título de rei que D. Afonso Henriques tomava, ratificado 36 anos depois (1179) pelo Papa Alexandre III, quando D. Afonso Henriques aumentou o censo anual de quatro onças, firmado em 1143, para dois marcos. 
Morreu a 6 de Dezembro de 1185 consolado com a certeza de ter deixado uma nação por ele fundada, digna da sua espada e da sua valentia, cheia de esperança de vir a ser nação valente e imortal que é, e berço de um nobre povo. 
Ordenara que o enterrassem no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, que fundou e dotou, além do de Santa Maria de Alcobaça, S. João Baptista de Tarouca e o de S. Vicente de Fora de Lisboa, onde, por sua ordem, foram depositadas as relíquias daquele santo. Fundou duas ordens militares: a da Ala e a de S. Bento de Avis. Introduziu em Portugal os Cavaleiros de Rodes e começou a Ponte de Coimbra. 
Mostrei o primeiro retrato à la minuta, e prometo mostrar mais, pelo menos já os tirei, faltam pequenos retoques. 
 

Retratos à la minuta

Domingos Pedrosa

2019-06-19

Partilhe:


Vamos mostrar hoje o de Santo António que nasceu em Lisboa em 1195 no Reinado de D. Sancho I. Aos quinze anos, órfão de pai e mãe, pediu aos Cónegos de Santo Agostinho, que tinham claustro às portas da cidade, que o admitisse na comunidade. Foi breve o seu noviciado. Santa Cruz de Coimbra, afamado como centro de estudos e crisol de fé, era o que lhe convinha para se entregar ao amor de Deus. Como a Ordem era a mesma, foi fácil a sua admissão, onde pôde beber conhecimentos que tanto ansiava. Quis ensiná-los, propagar a fé, e partiu para a África, a terra cruel do Islão, evangelizar, que era o mesmo que morrer pela fé de Cristo. O clima não deixou, e depois duma enfermidade que durou meses, reembarca. O navio que o traz, apanhado por uma tempestade, vara nas costas da Sicília onde S. Francisco de Assis, o Patriarca da Ordem e mensageiro de Deus, anda perto. Santo António pegando no bordão põe-se a caminho.
Quando em Bolonha se encontra com S. Francisco de Assis, este fica maravilhado com o seu talento, com a sua dialéctica. Desde esse dia Santo António será o Ministro das Missões Difíceis e do Ensino de Teologia em Bolonha, Tolosa e Limoges, chegando até a ser titular da cadeira de Teologia da Ordem Franciscana. Eram tão sólidos os textos de Santo António tirados da Sagrada Escritura, que os sequazes do erro não ousavam chegar à sua presença, nem proferir palavra. 
Como pregador chegou a ser ouvido por mais de 30.000 pessoas, todas tão silenciosas e atentas, como se fora uma só pessoa. Não havia igrejas para tamanhos auditórios, e o Santo tinha que pregar ao ar livre. Num dos seus sermões, os céus turvaram-se subitamente, os ares escureceram-se, e ao longe, começaram a rolar trovões. O auditório assustado, já redemoinhava em várias direcções quando Santo António brada: Meus irmãos, não retireis, ouvi o Sermão da Omnipotência Divina. Deus é Pai. Tende confiança na Sua Misericórdia e eu vos prometo que nenhum raio vos há-de ferir, nem nenhuma gota de chuva vos orvalhará os cabelos. E diz o cronista: “Terminado o sermão todos reconheceram que desfazendo-se o céu em chuva torrencial por todos os sítios, apenas a terra onde estava o pregador e o auditório, estava enxuta. 
Muitas lendas se formaram sobre Santo António, tendo-lhe sido atribuídos vários milagres. Entre estes, o de ressuscitar uma princesa, o de pregar aos peixes, o de fazer ajoelhar uma mula perante a hóstia consagrada, o de pôr cegos a ver e paralíticos a andar.
Santo António morreu em Pádua aos 36 anos de idade, a 13 de junho de 1231. Um ano depois, foi publicada a bula da sua canonização, expedida pelo Papa Gregório IX. (Uma das mais rápidas canonizações na história do Vaticano). 
Santo António morreu em pleno arroubo místico, dizendo no lance final de desprendimento terreno, sobre a cidade que lhe deu albergue: “Ó Pádua, bendita sejas! És bela e ricos são os teus prados; o céu prepara-te, porém, neste momento, Glória mais bela e mais rica, que todas as outras”.