Remate Certeiro 10.05.2018

Manuel Marques

2018-05-10

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Gosto quando o bom Povo vizelense se levanta para mostrar a sua força, qual rio Vizela na sua maior pujança em rigoroso inverno. No domingo vimos de volta essa união igual àquela (ou pelo menos parecida) que do meio da rua deu há 20 anos o concelho 306 a Portugal. Graças à força, ao querer e ao amor de tantos vizelenses (alguns saudosamente já desaparecidos) Vizela recuperou a sua independência tão importante para quem amorosamente sente esta terra de cujo subsolo brota água quente natural, tem um dos parques mais antigos do País, um rio truteiro, um santuário, gastronomia da melhor que há, património histórico e religioso, montanha, etc. 
A viagem a Vila Franca não foi apenas um episódio clubístico ou futeboleiro: foi muito mais do que isso pois revelou que Vizela continua, 20 anos depois da criação do Concelho, a saber unir-se, a cantar em uníssono, a trocar um copo de vinho entre gente tão separada no dia a dia por inúmeros afazeres, continua a sabe rir ou a chorar de emoção.
Obviamente que Vizela também tem, como sempre teve, divisões comezinhas bastando para tal apreciar o fraco exemplo que vem de cima de alguns políticos e de alguns cristãos de sacristia cada um no seu canto menosprezando a união e a concórdia bem diferente da natureza do FC Vizela que a todos une.
Os estudiosos do nosso País e as empresas de estatísticas ainda não se deram ao trabalho de avaliar e aprofundar a dimensão da estrondosa vitória vizelense de 19 de Março de 1998 que era mais improvável do que um clube da cauda da tabela ser campeão nacional da Primeira Liga.
Vizela daquele tempo, pouco mais do que duas freguesias descalçadas, enfrentou (e venceu) adversários super poderosos tendo apenas como armas a sua razão e o acreditar que era possível vencer quando todos os indicadores apontavam o contrário. Com as mais apuradas artimanhas os senhores do Reino e seus comparsas derrubavam o povo Vizelense num dia e na aurora seguinte esse mesmo povo já estava de pé outra vez pronto para lutar. No futebol, onde o famigerado Apito Dourado serviu apenas para castigar os pobres, teve iguais efeitos nos vizelenses. Tentaram aniquilar o seu amor clubístico mas ele novamente se ergueu. 
A luta de Vizela (sem paralelo em Portugal) foi um exemplo profundo e que deve ser encarado como a mais bela lição de vida. Lutar, lutar e nunca desistir ou esmorecer… 
Ver este Povo levantar-se novamente, depois de na época transata o seu Clube ter caído num ridículo e injusto Campeonato de Portugal que mais não é do que o tapete das provas da Liga, é algo reconfortante e leva-nos a recordar um passado de lutas que tiveram por fim a glória.
Nascemos para lutar contra as desventuras como aquelas que vergastaram o falecido atleta Joaquim Cunha (minigolfista internacional que carinhosamente tratávamos por “Quim da Rosinha”) e sua família, o sócio do FC Vizela, nº 632, Manuel Pereira que no domingo assistiu alegremente ao Vilafranquense -Vizela e o guarda-redes Pedro Albergaria, sub-capitão da equipa vizelense, cuja carreira pode ter terminado no domingo com uma grave lesão.
Os infortúnios de Joaquim Cunha, do associado Manuel Pereira e, embora em menor grau do guardião Albergaria, deixaram-nos sentidos e tristes mas cada vez mais reforçados na ideia de que a vida é pouco mais do que um dia mau e deve ser definida por uma luta contra os muros da desgraça. Mais do que qualquer derrota do nosso clube ou até mesmo duma descida de divisão, o valor duma vida é incomparável. Em futebol hoje perde-se este jogo e amanhã ganha-se. Atrás dum campeonato virá outro, mas quanto à vida só temos uma para jogar e quando a de alguém próximo se perde, perdemos todos.