QUANDO A GRATIDÃO SE SOBREPÕE A QUALQUER DESÍGNIO POLÍTICO

Fátima Andrade

2018-09-06

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Uma vez mais, os sinos da igreja de S. João, em Vizela, ousaram repicar naquele som feito de temor e angústia, arrancando-nos à monotonia dos dias da chamada “silly season”.
Parece que nada de menos bom poderá suceder nesta estação fugidia que move a população de um lado para o outro, sequiosa na procura de uma faceta diversa da monotonia da espuma dos dias ditos normais. Nesse dia, 20 de agosto, longe de Vizela, um telefonema me despertou dessa modorra que alimentamos em tempo de férias na procura de arranjar energias para um ano quase sempre igual, de trabalho, família, obrigações, responsabilidades. O Senhor Manuel Campelos-Cidadão Honorário deste Concelho tinha dito adeus a todos, aos 94 anos de idade.
Seria hipocrisia da minha parte dizer que conhecia muito bem este digníssimo Cidadão Vizelense, ou que com ele tinha privado assiduamente.  Conheci-o numa das cerimónias de cariz político e com ele troquei meia dúzia de palavras de circunstância.
Apesar disso, e pretendo afirmá-lo publicamente, a simbologia do seu nome, ligado indiscutivelmente à criação do Município de Vizela, leva-me a reconhecer a fibra do Homem que transmitiu aos Vizelenses a força e a persistência de quem luta por um ideal, em nome de todos. Fica, assim, um rasto histórico indelével que nunca deixará de fazer parte do historial vizelense, com o qual granjeou o reconhecimento público de “Pai do Concelho”.
Sempre fui apologista de que as homenagens, se possível for, deveriam ser feitas em vida. Demonstrar àqueles que nos proporcionaram a liberdade de construirmos o nosso destino, sem subserviências, de cabeça erguida e orgulhosos das lutas travadas na prossecução desse desiderato é indiscutivelmente a forma de gratidão mais pura e verdadeira, na hora da partida. 
O Concelho de Vizela perfez, em 19 de março último, 20 anos de existência. Uma existência construída de altos e baixos, com períodos de desilusão, na sua maior parte fruto de políticas desacertadas por parte de alguns daqueles que tomaram em mãos a gestão desta Terra, desde a sua constituição autonómica como Concelho.
Todos estamos cientes de que Vizela deveria já estar num patamar superior quanto aos níveis económico, social, urbanístico, cultural e ambiental, atendendo aos paradigmas que vemos acontecer nos concelhos limítrofes. 
É verdade que alguma coisa foi feita. É verdade que vários passos foram dados. Mas não os suficientes que nos permitam ficar sossegados e inertes, perante aqueles que tanto se sacrificaram para que vivêssemos livres e senhores de todos os direitos inerentes a qualquer cidadão. E é aqui que a tal palavra GRATIDÃO nos chama à razão, nos remete para uma consciência cívica de participação coletiva, numa transparência plena para com todos e cada um daqueles que fizeram a História, daqueles que a continuarão a escrever, mesmo afastados da nossa convivência.
É hora de a Câmara Municipal perpetuar a lembrança do nosso, de todos, Cidadão Honorário, através de um memorial, busto/ estátua que venha lembrar que a nossa gratidão será eterna para quem, de mãos dadas com o povo, não recuou perante as adversidades e persistindo, tornou imortal a luta do povo de Vizela pela autonomia administrativa do seu Concelho.
Mas o grande e significativo tributo a prestar ao Senhor Manuel Campelos é, sem dúvida, a concretização de uma política direcionada ao investimento, ao empreendedorismo, ao reconhecimento do mérito, do trabalho em prol da coletividade.
 Desencorajar a cultura da subsídiodependência por si só, valorizando o serviço público nas várias áreas, realizado por algumas das muitas associações que não se têm negado a esforços para preservar formas de uma cultura eclética, respeitando as tradições e servindo públicos de todas as faixas etárias. Reinventar o Município com um apoio sério à Educação e à inovação tecnológica para todos, não esquecendo a ambiental, instaurar uma verdadeira política de contenção definindo prioridades, rentabilizar os recursos proporcionados pelo governo central, os fundos da União Europeia e sobretudo a vontade firme de fazer desta Terra uma Terra que faça jus à heroicidade das suas gentes lideradas, no momento crucial, pelo Senhor Campelos. Saber dizer NÃO, quando esse NÃO for sinónimo da defesa dos interesses da coletividade, em detrimento dos particulares. São precisas coragem e determinação? Pois são. Mas, não foi esse legado que nos foi deixado pelo Senhor Manuel Campelos? Então, que aquele seja respeitado na reconstrução de Vizela. 
Esta será a homenagem justa ao Homem que um dia sonhou que a democracia e a liberdade são valores intrínsecos do cidadão, acreditando que a sua/nossa Terra faria para sempre, tal como ele, parte dos anais da História do País, num Concelho moderno e livre para sempre.

 Muito obrigados, SENHOR MANUEL CAMPELOS. Descanse em paz!