Preservação Patrimonial: “Uma no Cravo e Outra na Ferradura”

Eugénio Silva

2018-10-11

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O popularíssimo adágio português - uma no cravo e outra na ferradura – significa, literalmente, fazer algo bom e em seguida algo nocivo. Como se observará, é neste espaço que se representa a ação municipal em matéria de proteção e salvaguarda patrimonial. Nesta questão sobressai, entrelaçada, uma surpreendente e misteriosa contradição. Por um lado empreende a sua preservação, o bom rumo, por outro determina a sua descaracterização, o mau rumo, aniquilando-o.  
Responsáveis pela gestão do município de Vizela apregoaram, no pretérito dia 24 de setembro, profundas obras destinadas à requalificação da Praça da República e do Jardim Manuel Faria. Acerca do(s) projeto(s) de arquitetura, plano(s) que desconheço por completo, apenas desejo que os espaços revertam mais agradáveis, tanto  em estética como em harmonia,  contemplando, profusamente, o elemento água, a qual, há muito tempo, se encontra, ignominiosamente, oculta  nesse subsolo. 
No entanto, quero, desde já, enaltecer a meritória ação municipal em acautelar a preservação do seu património. Pela primeira vez, em Vizela, far-se-ão obras planeadas no subsolo da Lameira, tendo por objetivo a exumação de presumíveis vestígios arqueológicos, que se crêem abundantes no tipo de estruturas termais da época romana, o seu subsequente estudo e a hipotética recolha para musealização. 
Sei avaliar a dimensão e os esforços de ações políticas públicas de planeamento, proteção, gestão e mediação patrimonial. Por isso, será de louvar a intenção municipal em envolver no projeto o arqueólogo Reimão Queiroga, detentor de um já significativo conhecimento do espaço em estudo, e o estabelecimento de uma parceria (a nível institucional ou particular?) com profissionais da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, seguramente oriundos do departamento de Arqueologia dessa mesma faculdade. Do mesmo modo, ter-se-á de elogiar uma programada colaboração do Museu de Arqueologia Dom Diogo de Sousa, de Braga, destinada ao estudo, preservação e musealização dos vestígios arqueológicos que entretanto venham a ser exumados. Porém, num cenário otimista, caso os vestígios arqueológicos se venham a traduzir em estruturas arqueológicas de elevada dimensão, valor e significado, não ponderarão a revisão do projeto tendente à sua exposição no próprio local? Não ganharia outra dimensão a aposta no Turismo com a musealização, in loco, dessas estruturas termais da época romana interligadas às próprias nascentes de águas sulfurosas? Faltará, porventura, algum elemento que obste replicar as famosas Furnas da ilha açoriana de S. Miguel?
De um modo ou de outro, mesmo que os atentados cometidos no passado se venham a revelar catastróficos, acabará sempre por se cumprir um objetivo primordial, que reverterá num mais vasto e profundo conhecimento científico do nosso passado, sustentado na definição, localização e identificação, rigorosa e precisa, dos bens culturais e arqueológicos concelhios. Para além disso, possibilitará acautelar a preservação, o estudo e a musealização desses mesmos bens. 
No referente à preservação do património edificado Oitocentista de Vizela, o município insiste na perversa intenção de lhe viabilizar novas cérceas, mexendo, por isso e para isso, no Plano Diretor Municipal. Será, sem dúvida, um exercício repleto de legalidade e democraticidade e, simultaneamente, uma ação de imenso desprezo pelo centro histórico de Vizela. Será, em minha opinião, o lado mau da preservação patrimonial.
Reafirmo aos gestores do município que uma salutar política de regeneração urbana procura metodologias específicas que nunca comprometam a autenticidade histórica do património edificado, eliminando-se possíveis intervenções desvirtuadoras e pouco informadas. Se assim não for, a didáctica da intervenção será sempre a da adulteração descaracterizadora do edificado no centro histórico de Vizela. Nesta altura, com imensa tristeza, fecho os olhos e só me ocorre o novo-rico, repleto de parolice e ignorância, carente de senso e bom gosto, a exibir a sua coleção de automóveis antigos, aqueles dos primórdios do século XX, adulterados com spoilers, na retaguarda,  e jantes de alumínio de vinte polegadas. Tornar-se-ão mais bonitos?