Paisagem nua

Constantino Martins

2019-04-11

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Todos nós partilhamos três coisas fundamentais neste mundo: um tempo, um espaço, e o caminho para o fim. Neste sentido básico vital, estamos todos no mesmo barco. A forma como habitamos esse espaço-tempo e como caminhamos para a morte é que muda tudo. E é mais do que uma questão de estilo. Esse caminhar tem um contexto, um pano de fundo, uma paisagem. E uma paisagem é mais do que um olhar exterior e contemplativo, é um espelhamento e uma identificação no seu sentido forte. É, como Heidegger advertia, uma habitação radical. Uma raiz. Na relação entre o visível e o invisível. Na impossibilidade de nos determos na análise da noção de casa, recomenda-se a todos os amantes de Arquitectura a leitura do ensaio de Heidegger “Construir, habitar, pensar”. Para irmos directos ao assunto diria que uma paisagem é um horizonte em que nos inscrevemos. Não nos damos conta disso muitas vezes, tal como em geral associamos paisagem automaticamente à Natureza. Isso é verdade mas não em exclusivo. Isso seria reduzir a paisagem a uma imagem (para mais desenvolvimentos ver o texto de Simmel sobre a paisagem, na sua relação à (Stimmung) disposição anímica. Assim, dir-se-ia brevemente que teríamos que ampliar a nossa sensibilidade à questão da paisagem. Ou seja, atender, e estar conscientes de que existem diferentes tipos de paisagens. Desde a paisagem histórica à paisagem do pensamento, na diferenciação entre paisagem estática e paisagem dinâmica, paisagem sonora, e até à clássica distinção entre a paisagem urbana, dinâmica e em perpétuo devir, e a paisagem rural mais ao ritmo natural. Por relação às cidades é inegável uma teoria mimética transversal, desde Roma a Lisboa, de Nova York a São Paulo. E se Lisboa tem algo de francês o Porto é inglês. As influências misturam-se e exibem-se nas ruas e camadas históricas de uma cidade. E se a paisagem urbana global está hoje ao abrigo de um processo de verticalização, isso não impede que a história e a memória se continuem a edificar em  paisagens emocionais. No caso português, na sua acepção imperial, não é a cidade romana que se mimetiza e replica mas a aldeia, o bairro, a rua. Já está constituída numa micro-política originária  Essa especificidade do bairro da Lusofonia também entronca no traço comum da paisagem política. Existem sempre os bairros das cidades, ou as aldeias, mas também sempre o mar, as baías, os portos, desde Lisboa ao Rio de Janeiro, de Luanda a Macau. Dentro da ideia de paisagem política também está contida a noção de atmosfera que remete para coisas mais insondáveis ligadas à intuição, ao som (do timbre ao tom), e às sensações da pele, coisas complicadas de explicar e que a Poesia nos faz o favor de trazer à tona das páginas (e sem explicações). Ou seja, uma paisagem pode ter um rosto e transpirar? Pode ter um cheiro e arrepiar? Quantas vezes não somos assaltados por micro-memórias que podem variar de um cheiro a uma voz? Gostava de tocar aqui a paisagem nua. Ela poderia ser vista como virgem, mas também, à imagem do pensamento de Agamben, como desprotegida, máxima exposição. Do cuidado que exige a paisagem nua. Cuidado e Ética. Exemplo: deve ou não ser a Natureza protegida? Como passar do dever, obrigação moral e geracional, para um ancoramento institucional e legal de facto? Questões complexas que nos tocam a todos. Ou quase todos. Porque a relação entre Cultura e Natureza foi sempre complexa. Não gostaria de terminar este texto sem aflorar uma categoria quase mágica: a de uma paisagem abençoada. Este é, ainda e felizmente, o caso de Vizela. Um pequeno coração minhoto. Cheio de água, flores, árvores, pedra, penedos, rio, ribeiros, aves. Dizem que de lontras também. Que incrível e abençoado privilégio. Mas é preciso estar à altura disso. A fragilidade e a violência contidas na natureza são uma e mesma coisa. Essa contradição e força também habita em nós. No nosso desejo de nos fundirmos com as coisas.  A vida trabalha na fusão. Corpos em corpos, almas em almas. Ao fundir palavras e coisas, nascem outras coisas e outras palavras. O desejo de fusão com o sublime ao ver os laranjas de um pôr-do-sol. A fusão da vida com a morte, e com essa terra que um dia nos vai comer a todos. As paisagens ficam assim a pertencer-nos, e nós, sem sabermos, a pertencer-lhe. Deveria haver espaço ainda para falar da paisagem sagrada. Talvez isso fosse o mais importante. Talvez em outro texto. Toda a gente se deveria cumprimentar assim pela manhã: “ Calma, ainda há tempo”. Fica essa promessa de um texto sobre o sagrado se houver tempo. Deus queira que sim.