Os “Bichos” de Miguel Torga Uma Tourada na Lameira

Pedro Marques

2020-02-27

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A Lameira  e  a sua bica-de-água quente foi sempre um sítio icónico de Vizela, uma espécie de “passerelle” ou sala de visitas onde todo o quotidiano por ali passava. Ou se quisermos, o centro do anfiteatro numa espécie de estádio de futebol repleto de bancadas em redor para onde toda a Vizela convergia nos seus convívios e acontecimentos. Desde os despiques de bandas de música e nos quais o compositor Chicória se inspirou para a sua peça “Parece mas não é”, a outros episódios, até para encontros amorosos, a Lameira era o centro nevrálgico da “Vizela dos tempos idos”. Porém, desta vez, não é sobre isto que pretendemos escrever pelo que a este assunto voltaremos na primeira oportunidade. Prezado amigo leitor, hoje, até si vamos trazer um episódio acontecido na Lameira. Das muitas memórias que temos em arquivo: gratas, alegres e lindas, umas. Todavia, também tristes  como esta que hoje trazemos até si.
Certo dia, há uns bons anos, atravessou a Lameira em correria desalmada e em pânico, um pobre cão a quem tinham atado ao rabo uma lata que fazia muito barulho ao roçar pelo chão, assustando cada vez mais o pobre animal. Este era um bicho-bicho. E toda a Lameira riu de tão deprimente espectáculo. Se a Lameira aqui foi arena de circo, ela isso voltou a ser. Desta vez, porém, tendo por protagonista um homem-bicho, como os “bichos” de Miguel Torga, no seu livro com o mesmo título. Isto foi há muitos anos. Então registámos o seguinte:
“As festas em cada terra são o melhor palco e cenário, onde, a par da alegria e exuberância próprias, tanto se vê a pessoa vestida a rigor, como o andrajoso; tanto se vêem estômagos dilatados de bons almoços e jantaradas e cerveja, como outros apenas de pele a cobrir os ossos. Cães lazarentos racionais que nem restos de comida ou um osso têm para iludir a fome. Se há o aproveitamento oportunista de coxos, cegos da mão estendida à caridade, há-os também que são mesmo pobres. Como há, também, a “pobreza envergonhada” de pessoas que se encasulam em casa com receio de que o vizinho se aperceba  da sua triste situação de pobre. Como houve os pobres-de-pedir em dias certos a rezar pai-nossos à porta das casas suplicando a “esmolinha pelas almas de quem lá tem”. Uns pobres de Cristo.
E foi um destes “pobres de Cristo”, vindo não se sabe de onde que estes dias nos apareceu na Lameira. Sentado no passeio lateral da Praça, à sombra de um plátano, sob o aperto deste calor anormal, estava esta pobre criatura, farrapo humano sob andrajos. Tinha cabelo bem preto, grosso e hirto, onde nem água e muito menos sabão, nem o pente se recordavam da última vez que por ali tivessem passado. Tinha barba preta, rara, comprida, como tojo de mato em bouça ou leira de monte. O rosto era chupado e ossudo, com olheiras fundas onde o sorriso há muito desaparecera como sol encoberto por nuvem negra. Notava-se o corpo macilento de fome.
Ali sentado, silencioso, tinha os olhos no chão onde estava estendido um pano e sobre ele um casaco, um par de sapatos, duas camisolas, uma camisa. Peças ainda por estrear; todavia, peças-monos que a imposição da moda rejeitara há muito e isso lhe fora dado, por esmola por alguém. Era a sua “feira”, na esperança de conseguir uns magros escudos para uma cerveja e uma sande. Um pobre inofensivo. Criatura indefesa e medrosa, incapaz de criar o mínimo problema.
Porém, como em casos semelhantes ou até noutros, alguém se lembra de o assustar. Estranho como era em terra alheia, num instante recolhe o recheio da sua “montra” sobre o farrapo estendido ali a seus pés no chão da Lameira e ei-lo, medroso, caminhando de lado para lado na Praça e sem uma nesga de espaço que o proteja do provocador. Outros se juntam e escorraçam-no como a cão vadio. Melhor: escorraçam-no como a animal nojento. Na verdade, aos cães abandonados na Lameira e tantos eles são às vezes, ninguém   os escorraça: antes alguém se apieda e se condói e lhes deixa, ao pé de cada árvore, um osso ou restos de comida. Ou lhes dá uma injecção letal que os subtraia à dor deste mundo quando as forças os impedem já de se arrastarem até à comida.
Assim acossado, esta pobre criatura, ei-la, desnorteada a caminhar de lado para lado, chacota daqui, chacota dali, fazendo espectáculo de circo no meio da Praça e ele fugindo deste e temendo aquele. Na fuga, deixa cair os monos que pensava conseguir vender e que outros apanham do chão e subtraem para o atrair à provocação, numa espécie de toureio em redondel onde as peças caídas fazem de pano vermelho à guisa de faena, mas onde o touro é este ser humano, cuja alma de miserável já nem forças tem que o façam reagir ao provocador mais chegado.
Perante este espectáculo, ninguém se insurge. Pelo contrário, uns riem-se, divertidos; outros passam indiferentes; outros, da varanda de uma das casas como bancada em coliseu, acicatam os provocadores: “Dizei-lhe que ides chamar a guarda!!!”. Dizei-lhe que ides chamar a guarda!!!”
O nome da “guarda” algo de terrífico faz acordar no subconsciente deste desgraçado: agarrando-se às últimas forças que ainda lhe restavam, consegue furar o cerco dos provocadores e desaparece. E nunca mais ninguém o viu na “passerelle” que é a Lameira em dia de festas da vila. Se calhar, exausto de fome ou desmaiado em qualquer valeta ou atropelado na estrada, quem sabe…. E se alguém ainda pergunta por ele, isso faz na esperança de poder repetir o triste espectáculo, então apetecido, onde a besta do circo foi uma pessoa, com o mesmo direito à dignidade e respeito de todas as demais pessoas, mas ali tratado abaixo de cão.
Aos cães abandonados na Lameira, ao pé de cada árvore, há sempre restos de comida. Àquele infeliz, nem isso foi permitido. O cão ainda consegue ser tratado como animal. Esta criatura, porém, não conseguiu sair de bicho. Repelente. Nojento. Que urgia escorraçar. Isto, num dia treze de Agosto de 1990. Uma segunda-feira.”
Caso único, esporádico, este?... Com esta crueza e brutalidade, presenciado por nós, sim. Porém: caso único?... Infelizmente, não. Não vai ainda há muito que a um outro ser humano, se faziam provocações para espectáculos tristes. Afinal os homens-bichos de Miguel Torga, do seu livro “Bichos” ainda continuam a existir, deles fazendo parte, aos quais se podem juntar ainda os “sem-abrigo” a deambular sem eira nem beira e à procura de comida nos contentores de lixo... Com o abraço amigo de sempre!