O Vilela Gadanha II

Pedro Marques

2018-03-08

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Na sequência da nossa apresentação anterior do Vilela Gadanha, vamos prosseguir mais um nadinha…

Entretanto, aproveitamos para nos mostrarmos reconhecidos àqueles que - da família também  -  vieram “agradecer- nos” a publicação do primeiro episódio. É que isto de se publicar episódios biográficos de pessoas, é sempre um risco, não obstante a intenção recta e sã de apenas se tentar  realçar o valor de uma pessoa, como também é agora o caso. E por isso nós esperámos os anos que se passaram entre a recolha e a data agora da nossa publicação.  Vamos, assim, continuar a revelar o  “herói” destes episódios como sendo “O Vilela Gadanha” porque ele assim gostava de ser identificado.
O Vilela Gadanha – assim ele preferiu identificar-se quando o visitámos – encontrámo-lo, ao tempo, numa espécie de oficina de trabalho onde estavam bastantes imagens e pedaços de madeira e de troncos ou ramos de árvores. E pedimos-lhe então se nos podia mostrar as imagens e falar-nos delas.
- “Mostro, sim senhor.  Esta aqui de N. Senhora, é a segunda que fiz. É uma imagem da Senhora de Fátima. Mas eu fiz uma que era da Nossa Senhora da Conceição. Comecei-a a fazer e como a minha mulher é doente, (disse-lhe):  “Olha! Vou fazer aqui de um pedaço de castanho, uma imagem de Nossa Senhora.  Ao que ela respondeu: “- Não fazes nada, que tu não sabes!... e tal”. Mas dei-lhe quatro cavacadelas… A minha mulher adoeceu muito… e depois faleceu. Um mês depois, ou três, comecei a fazê-la. A minha neta – filha da filha dela, (disse-me, então) – olhe que eu quero ficar com ela… (Ao que o Vilela Gadanha respondeu: “- Mas eu sei lá se fica bem!... E fi-la. E ficou bem. Mas é diferente desta. A outra imagem é esta, olhe… A que está naquele quadro. E aqui o Coração de Maria”. E fi-la. E ficou bem. Mas é diferente desta. A outra imagem é esta, olhe… A que está naquele quadro. E aqui o Coração de Maria”. Isto fui eu que fiz. Tem aqui o nome: Alberto Vilela. Isto deu muito trabalho. E isto foi a primeira flor que eu fiz. Olhe outra flor! Tinha aqui muitos vasos e resolvi: vou fazer uma flor”…
- “E esta qui?” -” É Jesus e a samaritana”. 
- E esta?...
- De um meu genro… (…) E das ofertas que fiz (do que fazendo), esta (escultura) guardo-a para mim (…)”. Uma vez, vieram aqui (pedir-me esculturas) para uma exposição. Depois da exposição, deram estas três. (E mostrou-me quais). E a outra? – perguntei. E a resposta foi sempre a mesma: não sabem! Não sabem! Não sabem!” 
Mostrou-nos então agora um desenho de Jesus e a Madalena. E enquanto nos mostrava, relatou-nos o episódio do Evangelho, de quando Jesus e Madalena se encontraram junto ao poço de Jacob. Desenho em dois episódios do mesmo encontro junto ao poço de Jacob.
E a seguir, mostrou-nos outra imagem – do S. José, desta vez. E diz-nos logo a seguir:      
 - “Esta aqui, é do S. José! É um S. Josezinho… Não está uma coisa muito perfeita, muito perfeita, mas…  “- E isto?...” – Perguntámos.  – Isto – responde-nos – “Isto… Peguei num bocado de madeira e ia fazer um anjo… Mas vi e disse (para mim): este bocado de pau é de choupo! De maneira que depois…fui buscar a ferramenta e com um ferrinho “tumba, tumba, tumba”. E assim nasceu um anjo. E aqui vou passando o meu tempo.
- E agora tenho ali um. Só para o snr. ver…- 
- Esse, ainda está a trabalhar nele… Este é também um Senhor Crucificado…
- É.
- E esta madeira que madeira é?...
- É castanho. Castanho velho. Muito velho. Tinha muitos pregos. Estava por aí e eu aproveito. Tudo. E agora, está aqui outro. Está principiado, mas ainda não está completo… E mostra um “risco”, isto é, um esboço de desenho…
- O snr.  antes de fazer a imagem, faz o desenho!
- Primeiro, faço o desenho e depois começo a trabalhar (a madeira).
- Vai ser o S. José!... 
-É. Já tenho aqui um braço do menino Jesus… E aqui as pernas…Aqui é o banco… Ele está aqui sentado no banco e o S. José, por trás dele… A segurar nele. Está ainda no começo. (Já tive muita ferramenta…) De maneira que agora tenho pouca. Mas chega. 
E depois, começa a mostrar-nos as ferramentas de que dispõe…
- Este ( utensílio) já trabalhou muito em pedra… É um palhete. E este… (e vai mostrando peças da ferramenta que tem…). Outro igual… Isto foi o meu neto que mo deu. É também um palhete. Isto é um formãozinho. Isto é uma goiva. Custou-me 600$00. Este aqui, oh!...
- Então é só começar a esburacar…
- De maneira que isto é uma goiva… outra goiva…outra goiva que também me deram. Esta aqui também trabalha muito! Para fazer estes fios, que é preciso!... Olhe! (E dá-nos um exemplo de como se trabalha para isso…). Isto vai-se aperfeiçoando cada vez mais… Isto vai indo… Isto são coisas para se fazerem… nestas coisinhas aqui à beira que também é preciso… De maneira que a minha ferramenta é esta. É fraca… A primeira… A primeira (imagem) que eu fiz foi só com isto: só com esta peça. Não tinha ferramenta, não tinha nada. E depois também aproveitei este que era de trabalhar em pedra. Mas eu amolei-o e agora corta que é uma maravilha! Olhe!... Está aqui outra tábua… E lá vou aproveitando tempo… Já tenho um risco para ela. Disto era para fazer outra coisa. Mas depois fiz noutra tábua. É para fazer uma imagem qualquer.
- Lá chegará o tempo…
- É este o meu serviço e a minha distracção.
Entretanto, mostrou-nos uma colecção de livros. E foi falando sobre alguns: Um deles tem o título de “ Imitação de Cristo”.  Já li isto… E já li tanta coisa!
Com o abraço amigo de sempre.