O fogo que ainda arde

Domingos Pedrosa

2018-01-11

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. . . E que se vê, é o de Pedrógão Grande. No RANKING Mundial dos incêndios mais mortíferos e devastadores desde 1900, o de Pedrógão está na décima primeira posição. 66 mortos, mais de 200 feridos, 263 casas destruídas ou afectadas e dezenas de pequenas e médias empresas atingidas. São números que não podem deixar de impressionar, nem deixar ninguém indiferente. O fogacho que naquela tarde de 12 de Junho se transformou num inferno, foi o causador de tamanha tragédia. Descontroladas labaredas, enormes, vorazes, rapidamente incendiaram toda uma região, e quase “queimavam” o Governo quando o culparam e apresentaram uma desprezível moção de censura que não passou nem fez diminuir a confiança dos portugueses no Executivo.
Culparam o Governo da tragédia de Pedrogão, e são ainda muitos os dedos acusadores, mas não têm razão. Que reconheçam que a acção do Governo no atendimento à grande desgraça, é meritória e louvável. Que reparem no que o Governo já levou a cabo. Reconstrução de 112 casas, 71 estão em obra, 60 já foram adjudicadas e 20 estão em fase de projecto. De salientar ainda, as dezenas de pequenas industrias já em laboração.
A grande tragédia não enlutou só o país, também abriu brechas em relações, e hostilidades absurdas. As brechas, embora ténues mas visíveis, são as que surgiram no relacionamento institucional entre o Presidente da República e o Primeiro-ministro, e as hostilidades, bem visíveis também, aconteceram no almoço de Natal das vítimas, almoço dito privado. Só Marcelo Rebelo de Sousa esteve presente, porque, acintosamente, António Costa não foi convidado. Foi considerado PERSONA NON GRATA. O país ficou surpreso quando soube que ninguém do Governo tinha sido convidado, e mais surpreso ainda quando ouviu a Presidente da Associação das vítimas de Pedrógão, dizer: “Só convidamos os que nos ajudaram”. É esta afirmação que nos faz dizer, que o fogo de Pedrógão, “ainda arde”. Vê-se que alguém de lá, mal agradecido, tenta ainda, “chamuscar” o Governo.
Foi injusta, cruel, facciosa a decisão da Presidente da Associação das vítimas. Ninguém tem dúvidas que se o Primeiro-ministro andasse a dar beijinhos e afectuosos abraços a todos os atingidos em vez de estar a coordenar as actividades dos três ou quatro Ministérios envolvidos na reconstrução de Pedrógão, não teria sido excluído do almoço de Natal. Seria reconhecido pela Senhora Presidente, tal como aconteceu com o Senhor Presidente da República. Mas António Costa não pôde nem podia andar a dar beijinhos, já que as suas funções são completamente diferentes das do Presidente da República. Ao Governo compete arranjar e implementar as soluções para os problemas, por mais difíceis que sejam como são os causados pelos incêndios, e ao Presidente da República compete apenas olhar por cima sem qualquer responsabilidade governativa. E foi isto que a Comissão das vítimas de Pedrógão não percebeu ou não quis perceber.
Na sua actividade à volta da tragédia dos incêndios, Marcelo Rebelo de Sousa tem-se limitado a exigir, a lembrar, a avisar o Governo, como se ele fosse composto por adolescentes imberbes, irresponsáveis. É um comportamento que roça o populismo barato, mas que o ajudou a ser convidado de honra no tal almoço de Natal. Preterido foi quem tudo faz para minimizar prejuízos, ajudar quem tudo perdeu, suavizar amarguras.
Ao contrário dos seus antecessores Mário Soares e Cavaco Silva (um, pouco beijoqueiro, outro nada beijoqueiro nem simpático), Marcelo não tem experiência governativa para poder aquilatar o que obriga esta função.
 É tão bom ser Presidente da República e nos tempos que correm, se cheirar a fumo, melhor ainda.