O Drama de muitos Avós...

Domingos Pedrosa

2017-12-07

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É o corte na relação entre pais e filhos que afecta também os netos. Sem nada poderem fazer no meio das desavenças, as crianças veem subitamente, os laços familiares serem cortados, ficando desorientados, embasbacados, e os avós desolados, por verem os netos assim.
Numa entrevista, uma advogada especialista em direito de família, diz que vê muitas coisas a acontecer no seu consultório, e conta: conheço uma avó, que para ela, o barulho das crianças a brincar na rua, é o som da tristeza. É, porque se lembra dos netos que criou e com quem há cinco anos deixou de ter relação próxima. A senhora sofre e chora ao ver crianças da idade dos netos, e aperta-se-lhe o coração só em pensar: “Terão passado o ano? Adormecerão felizes todas as noites como naquelas que lhe contava histórias para adormecer?... “ e vai buscar ao baú dos dias felizes, os, risos dos dois netinhos.
É uma avó que tomou conta dos netos, logo que nasceram, que os levou de férias, que planeou levá-los à “Disneylândia”, e que agora será impossível. É uma avó que sofre com medo de morrer sem os voltar a ver. É uma avó que ama a filha (a mãe dos netos que não vê) mais que a própria vida, ao ponto de dizer: “Se me disserem que ela é feliz se me atirar de uma ponte, eu atiro-me”. É uma avó a quem a filha destruiu todos os sonhos. Esta avó – continuou a advogada – que tinha moldado a vida à dos netos, montou em sua casa uma sala para os netos brincar, que não chegou a ser usada. Um dia, as crianças não apareceram, a filha telefonara-lhe a informar que os miúdos ficavam na casa do pai. Ao sentir algo diferente na voz da filha, ficou perturbada, e percebeu que a filha queria continuar a vida com o novo namorado onde não haveria espaço para os filhos.
Temendo o pior, consternada, a senhora foi a casa da filha – que ajudava a pagar e a sustentar – para falar com ela. Na versão da filha, tratou-se de uma entrada forçada na sua casa, agressão, coacção, calúnias e injúrias, cinco acusações que constaram no processo movido contra a mãe.
A pobre avó andou, e anda amargurada porque desde aquele dia que foi humilhada pela filha – quando esta chamou a polícia e lhe disse que não mais veria os netos – sentiu que a relação de mãe e filha e de avó e netos terminara. E passou a ver os netos às escondidas. Muitas vezes ao longe, outras vezes através das grades da escola. Sempre a tentar passar despercebida. Pediu a uma funcionária da escola para a avisar quando eles saiem e onde vão, e assim, aparece aos netos nos museus onde vão fazer visitas de estudo, ou a parques e jardins onde vão brincar. A avó fica tranquila com a certeza de que os netos estão bem, mas triste por os netos lhe pedirem para ir embora com medo que o pai apareça. Este proibira-os de falarem com a avó, desde que os pôs à guarda dos seus pais e a viver com eles.
É muito triste o drama desta avó, - diz a advogada – triste, porque ela fez pelos netos o que não fez pelos filhos, e agora vê-se longe deles pensando que eles tem necessidade da sua protecção. Tem esperança de poder dar-lha, já que no tribunal, tenta conseguir o direito de poder ver, e estar com os netos. Lembro-me de ela ter dito à filha e ao ex-genro: o mundo dá muitas voltas, e, numa delas, talvez precisem desta avó que tanto fazeis sofrer. Contai, contai sempre comigo, mesmo com a idade a pesar-me bastante, serei sempre avó dos meus queridos netos.
E por ter conhecido tantos casos semelhantes ao desta avó, casos de avós desgostosos por não concordarem com decisões precipitadas dos filhos – que muitas vezes são “doudeiras passageiras” – a advogada lamentou e lembrou esta verdade: são poucos os filhos que fazem pelos pais, o que os pais fizeram por eles, e, muitos os netos, que nada fazem pelos avós, depois deste lhe terem dado tudo. É que os avós são pais duas vezes, dão carinho e amor dobrado. E em jeito conclusivo, num claríssimo acinte à mãe que preferiu a companhia do novo namorado à felicidade de viver com os filhos, a advogada disse: Já ouvi, que são mais os pais que não amam os filhos, do que os avós que não adoram os netos.