Num abraço fraterno de Vizela e Tarouca no “Tarouca vale a pena”

Pedro Marques

2018-05-03

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Um tarouquense teve a ideia. E tanto quanto sabemos, partilhada essa ideia com a Câmara de Tarouca, logo tal ideia a mesma Câmara assumiu. Até porque ela tinha pernas para andar.
E tudo tem um princípio. E para o “Tarouca Vale a Pena” em projecto, à nossa caixa do correio via-email, também um convite chegou. Convite que nos deixou curioso: encontro de autores regionais?... Como descobriam o nosso nome?... E em poucos segundos tudo ficou esclarecido. E a semente da curiosidade, porque lançada em terra boa, começou a germinar como em alfobre e, num ápice, começou a haver colaboração daqui, dali, de mais além. Mercê também de dois valentes e bons empurrões - “Solar dos Poetas” e “Hora da Poesia” - o contágio passou a pandemia de musas à toa fugidas do seu “museon” como abelhas de enxame. Pandemia que deixou em polvorosa muito escritor   em prosa e em verso. De aquém e de além mar. E até músicos!
 A este contágio e como referimos, o programa da “Hora da Poesia” não pôde ficar imune. E foi ele também um dos motores da entusiástica dinâmica imprimida. Ao ponto de a própria edilidade tarouquense promotora do evento com o seu ideólogo, terem vindo ao último programa da “Hora da Poesia” que foi, até, uma forma diferente de comemorar Abril, também com a leitura de um poema ao 25 de Abril dedicado, ainda que de muita nostalgia e frustração. Mas lindíssimo por isso mesmo.
Ficámos então a saber que ao evento já aderiram escritores-poetas de mais de cinquenta municípios. Mesmo de lá do fundo do Algarve. Como houve colaborações literárias do Brasil e da Itália, com poemas tão melódicos e doces do idioma de Lácio e Camões. E tamanha tem sido a adesão, que as inscrições tiveram de ser canceladas antes do prazo previsto, por o evento se haver transformado em fenómeno que logo Tarouca passou a ser designada de “Tarouca-Vale Encantado” e “Cidade-poema”. E ao encontro de autores regionais, o baptizámos nós e enquanto colaborador também de as “TAROUQUÍADAS 2018”.
Nesta onda de entusiasmo onde a curiosidade e a necessidade de conhecimento mais abrangente e profundo para se poder penetrar nas “raízes” do POVO TAROUQENSE, para além da literatura procurada – e conseguida –  aguçaram o nosso apetite, passou a ser imperativa uma visita prévia a Tarouca para  “apalpação” da sua sensibilidade. Não só em termos de monumentos como da sua história no todo do contexto nacional ainda então em criação como tão profusamente se pode ler na História de Portugal do gigante (!) Alexandre Herculano no tempo da reconquista aos árabes que, em Lamego e Tarouca e Trancoso conheceu o belicismo mais intenso num território confinado ainda à “Lusitânia”.  Como ainda a obra “Portugaliae Monumenta Historica. Como também isso mesmo nos descreve o “Portugal Antigo e Moderno” de Pinhal Leal.  E ficarmos a conhecer, ainda e “por dentro” e de forma profunda, os usos e costumes deste POVO aureolado pela concha em redor da serra de Sta Helena. E como parte integrante, ainda, do Douro Vinhateiro, com o elo comum do “Vale do Varosa”.
E por isso, numa primeira vez, lá fomos nós com o nosso amigo Sepúlveda, auto-estradas fora por cerca de 120Kms até Tarouca. Logo lá tendo sido nós recebidos em terras de tão lindas e emocionantes lendas de moiras encantadas e tesoiros enterrados ou escondidos,  no “Castanheiro do Oiro”, assim se vê lá escrito quando o sítio atravessámos.
E logo de seguida, uma catadupa de surpreendentes revelações, ainda muitas delas em ruínas e outras em ruína iminente a que urge deitar a mão: o convento de Salzedas com toda a sua riqueza monumental e histórica e lendária; a vila e ponte de Ucanha que no período áureo da Ordem de Cister fazia de “portagem” e era parte integrante da “estrada” que unia Lamego a Trancoso. Com o mítico rio Varosa que sob os seus arcos passa. Imaginemo-nos a atravessar a “nossa” ponte romana e o “nosso” rio Vizela e ficaremos com uma pálida ideia do quanto Ucanha e o seu rio significam para Tarouca. E, pouquinhos quilómetros depois, visitámos as ruínas do que foi o convento de S. João de Tarouca, da mesma Ordem de Cister. De pé ainda, a inda imponente igreja do mosteiro com o seu cadeiral e órgão de tubos que urge recuperar.  E se há muitos a reclamar que D. Afonso Henriques nasceu aqui ou ali, também Tarouca reclama a paternidade do nosso primeiro rei. Criado e educado no convento de Salzedas e miraculado na Igreja do de Cárquere. No vizinho concelho de Resende. Ainda era menino.
E muito, muito viram os nossos olhos e com tudo isso vibrou de entusiasmo a nossa emoção. Na verdade, regressámos já baptizados nas águas do Varosa, sob a mítica ponte de Ucanha, depois de uma belíssima refeição ali num restaurante típico junto à ponte e sua torre. E confirmado ficou o nosso baptismo, após o “crisma” da nossa “profissão de fé” nas caves da Murganheira, com o tão saboreado e saboroso petisco de compotas de baga do sabugueiro, cuja cultura é uma grande (a maior até!) fonte de riqueza de Tarouca no cultivo por extensos hectares desta planta, que daqui a poucos dias se enfeita de flor branca, e de Tarouca faz noiva na sua “festa da flor do sabugueiro”.
E se mergulhámos nas águas do Varosa como João Baptista nas do Jordão, nem por isso o nosso entusiasmo se deu por satisfeito. Pelo contrário! Maior passou a ser a nossa ânsia de mais ficarmos a conhecer Tarouca, nimbados neste fascínio de encantamento de Tarouca sobre nós. Se calhar pelo contágio das lendas de moiras encantadas, num “resfriado” de respiração nossa do frio e da chuva que então a espaços ia caindo à mistura com o sal cristalizado das lágrimas dessas infelizes moiras. Por isso, nem sempre é verdadeira a afirmação de “afastamento, esquecimento”. Na verdade, a distância começou a roer-nos com a saudade a puxar por nós. E por isso lá fomos de novo. Sozinho, desta vez, por impossibilidade da excelente companhia do Sepúlveda. E regressámos deveras muito mais rico, já que o horizonte dos nossos conhecimentos e de visitas no terreno se dilatou e de que maneira. E por isso haveremos de escrever, de modo especial, de Várzea da Serra. E se esta paixão não nos engana, teremos de ir, mas a Tarouca e não a Viana.
Nas ao tempo ditas “terras do demo”, nem tudo, agora sobretudo, é fatalidade e austeridade. Se a miséria sentiu Aquilino Ribeiro, esqueceu-se, porém, da alma dos poetas que vive no POVO. Poetas (POVO!) que são a realização do SONHO. Que também habita em Tarouca. E ei-los, aos poetas de longe e à porfia e em multidão, a caminho (e nós também) de Tarouca nos dias 25 e 26 de maio! A quem o leitor amigo se pode juntar. Para a “festa da flor do sabugueiro”.  E ainda porque, entre Vizela e Tarouca, há cimentada, desde antanho, uma outra sintonia cultural: a amizade do sábio abade de Tagilde, com o sábio antropologista Leite de Vasconcelos (de Ucanha e Mondim da Beira). Que foram amigos e em comum colaboraram na antropologia imaterial das tradições e na material de achados arqueológicos.
Venha daí, amigo!  Tarouca fica a meio caminho da Senhora da Lapa, onde se calhar até já tanta vez lá foi, pois que a Senhora devota por excelência dos vizelenses é precisamente a Senhora da Lapa.
Com o abraço amigo de sempre.