Milagres

Domingos Pedrosa

2017-11-09

Partilhe:


Para muitos, serão contos da carochinha, mas que estão narrados na bíblia, nos anais de história e nas enciclopédias, estão. Vamos falar deles. Para nós, é a sequência de uma breve conversa que tivemos há dias, com uns amigos, com uns bons e velhos amigos. (um já deve estar a rir, se nos estiver a ler). Vamos falar, mas não dos de Jesus, já que toda a gente sabe que Ele ressuscitou mortos, pós paralíticos a andar e cegos a ver, que transformou água em vinho. Vamos falar de milagres de Santos bem conhecidos, como São Martinho, que esta semana é festejado. Não será propriamente um milagre, antes uma admirável acção, para meditarmos. Não tendo ainda conhecimento da religião cristã, Martinho foi tão amigo e defensor dos pobres, que numa manhã rigorosa de inverno, encontrou quase nu, a tiritar de frio, um mendigo. Não tendo mais nada que lhe dar, tirou a capa, cortou-a com a espada e deu metade ao pobre. Na noite seguinte, apareceu-lhe Jesus, em visão, trazendo aos ombros o pedaço de capa que tinha dado ao pobre e dizendo aos anjos que o acompanhava: “Foi Martinho, desconhecedor da minha doutrina, que me revestiu este manto”.
Agora vamos falar dos milagres de Santo António, um dos Santos mais amados e celebrados no mundo, e que bem conhecia os ensinamentos de Jesus. Por ser longa a lista, falaremos só de três ou quatro milagres, testemunhados sempre por muita gente, às vezes por milhares de pessoas. O que leva muita gente – pelo menos em Lisboa, cidade que o viu nascer – acreditar que há mesmo alguém a olhar por nós, foi os sinos de todas as igrejas de Lisboa tocarem sozinhos no dia da canonização do Santo na Catedral de Espoleto, em Itália. Aquele repicar festivo, só pode ser milagre, já que ninguém o soube explicar. Fez mais milagres, muitos quando vivo, pregou para este mundo, e só depois para o “outro”. Antes de líder religioso, foi um líder ético, político, que defendeu os direitos dos pobres e dos fracos perante os ricos e os poderosos. Acusou-os de lascivos soberbos, petulantes, barrigudos ou bem comidos, que faziam esperar à sua porta, morrendo de fome, os pobres de Cristo que lhes pediam migalhas. Dirigiu-se aos bispos mitrados, aos poderosos da Igreja, aos clérigos que se manchavam com a luxúria e a pecúnia.
Santo António é um Santo milagroso por excelência, e é difícil de encontrar em 2000 anos de cristianismo, alguém a quem se atribuam mais prodígios, mais milagres. Vamos lembrar só mais estes: 1 – A história diz-nos que certa vez, sobre uma praça onde 30.000 fieis escutavam um sermão do Santo, que os céus se turvaram, que os ares escureceram, que ribombaram trovões, assustando o povo. Santo António pediu que ninguém fugisse, porque nenhuma gota cairia sobre eles. O céu desfez-se em chuva torrencial, e ninguém se molhou. O cronista remata: terminado o sermão, apenas a terra que ocupava o pregador e o auditório, estava enxuta. 2 – Outra vez, numa viagem, Santo António e um irmão que o acompanhava, pararam a descansar na casa de uma pobre mulher que lhes ofereceu pão e vinho. A humilde criatura esqueceu-se de fechar o barril, e ele esgotou. Santo António rezou, e o barril ficou testo. 3 – Mas o mais conhecido milagre, é este: pregava numa Igreja em Itália, e apareceu em Lisboa no tribunal onde o pai era julgado, acusado de ter matado um homem. Os juízes já se preparavam para ditar o enforcamento, quando Santo António surgiu na sala e pediu aos juízes que o seguissem até ao cemitério. Meio abismados, lá foram até ao local onde o assassinado estava sepultado. Abriram a campa, e Santo António pediu ao defunto: conta aqui, se foi ou não, o meu pai que te matou. O morto abriu devagar a boca, e disse: Não. Santo António regressou à Itália e acabou o sermão sem que os fiéis se apercebessem da sua ausência.
Mas Portugal teve mais Santos, e uma Santa que foi Rainha. Quem não conhece o milagre das rosas? Reza a história que em Alenquer, (Há quem diga em Sabugal) desterrada por ordem do marido, D. Dinis, que a Rainha Santa Isabel cuidava muito dos pobres, dando dinheiro e de comer aqueles que tinham fome. Mas o Rei não sabia, e um dia ao visitá-la, encontrou-a na rua rodeada de mendigos. Com medo, a Rainha escondeu no regaço o pão que distribuía, mas o Rei apercebeu-se de que algo se passava, e perguntou: Que levais no regaço? “São rosas, Senhor!”. Rosas no inverno? Retorquiu o Rei. Então, soltando as pregas do vestido, a Rainha deixou cair o que carregava no colo: Lindas e perfumadas rosas, mesmo não sendo tempo delas.
No tempo em que Portugal ainda não era Portugal, mas as regiões que hoje o constituem parte da hispânica romanizada, São Vicente era diácono em Saragoça quando vieram os éditos do Imperador Romano para perseguir os cristãos. São Vicente é preso, e porque recusa renegar a fé, é supliciado até a morte. Depois foi abandonado num descampado para ser comido pelos abutres, mas dois corvos desceram das árvores, velaram o corpo de São Vicente, e mantiveram os abutres à distância. Os carrascos romanos atiraram então São Vicente ao mar, com uma mó ao pescoço, mas o cadáver ficou a flutuar. Trazido à costa pelas marés, um grupo de cristãos depositou-o num sepulcro que só eles sabiam, anos e anos. Só quando o Imperador Constantino professou o Cristianismo, é que São Vicente foi trasladado para uma basílica própria, onde foi venerado como ninguém tinha sido antes. Mas chegaram os árabes que transformaram em mesquitas todas as Igrejas Cristãs. Receosos, os cristãos levaram novamente São Vicente para o mar. Navegaram muito, indo parar ao promontório de Sagres – hoje cabo de São Vicente. Saiu de lá depois de D. Afonso Henriques tomar Lisboa. Diz a história, que na viagem (a última) de São Vicente, de Sagres para Lisboa, que além do mar se ter posto numa calmaria nunca vista, mais uma vez dois corvos se aproximaram do barco, e o escoltaram Atlântico acima.
Hoje, São Vicente é o padroeiro de Lisboa, e uma barca e dois corvos, as suas armas, a sua bandeira. Porque não chamar a esta última história um milagre, já que o comportamento dos corvos é um facto inexplicável pelas leis da natureza?