MEU CONTO DE NATAL 

Pedro Marques

2018-12-27

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O SNR.DR.ANTÓNIO ALVES PINTO”
POETA-ESCRITOR DE INFIAS, na estética de alinhamento do texto respectivo

 

Eram quadras assim que tu, meu amigo, desde há trinta anos, quando nos tornámos amigos me saudavas no advento de cada Natal. Devemos ter, escritos por ti para a minha pessoa e dispersos pela confusão dos nossos papéis mais de vinte mensagens de Natal. Cessaram  só quando começaste a sentir dificuldade em escrever. Na nossa frente, porém, temos quatro. E recordo-te mais esta: “Belém é Fonte de Luz/ Que ilumina e dá calor/ Natal é sentir Jesus/ Pão na mesa, paz e amor”.
DOMINGO NOVE DE DEZEMBRO DE 2018
11.00H  MISSA NA IGREJA DE INFIAS.
Meu amigo, 
Nesta Eucaristia, onde foste lembrado no sétimo dia do teu falecimento, numa oferta da tua vida ao Deus Menino que estamos a celebrar, nós enquanto peregrinos cá na terra; tu já nos resplendores da Luz perpétua, fomos invadidos por comoção profunda pela tua ausência física do nosso meio. Sentimos, então e ali, a FORÇA, dimensão e profundidade do que significa a palavra “amigo”. Sentimo-nos comovido ao ouvir o teu nome e tive de dar razão ao filósofo-monge quando afirmou que o amigo é metade da nossa alma (Giovani Cassiani). E Sto Agostinho afirma o mesmo: “a metade da nossa alma é um bom amigo”. E isto passamos a ser em reciprocidade, desde aquele dia em que me pediste para ler o teu projecto de livro “Levada Vazia”, de quatrocentas e cinco páginas, história das muitas das pedras do  teu caminho desde o apascentar do gado no monte até ao descanso merecido na contemplação da tua “Ribeira” do cimo da tua varanda voltada a poente com os maravilhosos pores-de-sol que teus olhos contemplavam enquanto a tua alma sonhava.
E sentimos comoção, quase incontrolável, quando, assim de repente e na expressão da tua filha Rosita, nos pregaste a partida de te ires embora sem avisar. E sentimos uma certa orfandade da tua presença, embora nós, nestes últimos tempos, não fôssemos visita assim tão assídua.  Não por desinteresse ou esquecimento: pelo contrário, eras uma presença constante no nosso pensamento; mas porque a comunicação pela fala já se tornava muito difícil. E tu sofrias; e nós sofríamos. Mesmo assim, éramos reconforto. Por outro lado, a comoção intensificou-se quando, naquele instante do pensamento, nos apercebemos de que a idade que nos separa não é por aí além e nós caminhamos pela vida entre as balizas do falecimento do nosso (meu) pai e do da nossa (minha mãe) mãe que regressou ao seio de Deus também aos oitante e nove anos. E mais! Quando vimos que sobre o altar da celebração da Eucaristia, estavam três dos teus livros – o da “Levada Vazia”, ao qual ajudámos a dar o ser porque fomos o primeiro a lê-lo e a apreciá-lo porque Tu confiavas na nossa capacidade de análise crítica e do que sempre nos sentimos gratificado e aí começou a nossa amizade; como vimos - cremos – os de  “Poemas do Meu Diário” e “Fala Saudade”, então saltou-nos a tampa” dessa comoção e os nossos olhos ficaram bem húmidos. Se de uma saudade assim tão fortemente inesperada, também pela acção de graças do DOM da VIDA na Eucaristia enquanto por ela peregrinamos cantando o Kumbaiá, Senhor, Kumbaiá!
Houve um arcebispo que disse que as nossas missas deveriam ser “mais criativas”, para não se verificar a desertificação de modo especial da juventude que ninguém consegue “agarrar” à sombra da igreja. Querem, amigos nossos, viver uma experiência da tal missa criativa”? Então venham a Infias. Nesta Eucaristia dominical onde estava a ser lembrada também a memória do nosso amigo, mais presente ali nos livros sobre o Altar a par do pão e do vinho da Celebração! Houve ali alegria espiritual de comunhão! Desde o dom comunicativo carismático do sacerdote – o nosso condiscípulo e amigo P. Rosas, aos cânticos do Coro, onde estavam dois antigos nossos alunos de órgão – o Nuno e a Isabel, integrados num coro coeso, de onde irradiava esta alegria comunicativa dos cânticos aliada ao carisma do celebrante no “dom” do seu empolgante vozeirão, de arrebatar os fiéis, todos fazendo ”um todo” neste “milagre” de união de assembleia, altar e coro, numa trindade una de louvor a Deus. Onde foi muito expressiva a oração do PAI-NOSSO “ (…) O Pão nosso de cada dia nos dai hoje (…) Venha a nós o Vosso Reino! (…) (o advento celebrado no seu segundo domingo da caminhada espiritual até ao Natal que o “ snr. Dr. António Alves Pinto” fielmente anunciava aos amigos batendo à nossa porta com a sua quadra de Natal).
No “milagre da Fé” proclamado pelo sacerdote após a Consagração, nós “vimos” e “sentimos” esse Milagre, quando nos reconhecêmos “despidos” do emaranhado dos nossos pensamentos sinuosos e tortuosos e aceitámos com a simplicidade de criança a beleza de Pensamento de S. Tomás de Aquino sobre a Eucaristia. E quisemos ser criança, regressando a esse tempo de inocência e simplicidade. Foi, assim, esta Eucaristia para nós o regresso à simplicidade da criança no Pensamento do Evangelho “Se não fordes como crianças…”. Nesta Eucaristia de sétimo dia do nosso amigo “Snr. Dr. António Alves Pinto”, a par do pão e do vinho sobre o Altar e dos referidos livros e do vozeirão que arrebata, congrega e une, do celebrante, nós sentimos a nossa pobreza de dádiva pessoal ao recordarmos o cântico “Os dons que Vos trazemos com fervor, são pobres como nós./De Cristo na patena Deus Senhor, são ricos para Vós./E neles escondidos vão também defeitos e pecados,/ Não temos mais que dar… que pena têm os Vossos convidados!”
Recordamos, em vida deste nosso amigo, as vezes em que fomos visitá-lo. Algumas das vezes, na pujança da se saúde, sobre a escada e de tesoura de poda cantando na sua mão, dos sarmentos que ia cortando na sua vinha de uvas brancas, ali ao pé da casa. Outras vezes, olhávamos para o lindo pinhal atrás da casa e para o penedo por ele cantado nos seus poemas. Como conversávamos sobre a pequenina Igreja e as suas lutas de diálogo, renhidas, com o padre Zé…  até que passaram a ser amigos! Mas “do sino grande, eu não gosto! Dan! Dan! Dan! Quando ele se ouvia derramando som pesado colina abaixo, por vezes até me assustava. Era sinal de morte! (…)” Falamos do Menino Jesus pelo Natal; pela Ressurreição da Páscoa. E do chorrilho de tanto “Pai nosso” a que correspondia uma esmola por cada um pela invocação de cada fiel defunto na visita ao cemitério pelos “santos”. Uma mina de dinheiro! Com ele, ambos da sua varanda contemplávamos a “sua ribeira” até para lá da estação do comboio onde no seu tempo de rapaz, o linho se vestia no azul da sua flor e as raparigas, de lenço de lavradeira iam e vinham das feiras de cesta à cabeça… Contemplávamos o pôr-de sol em tardes quentes para lá da montanha que se levanta para lá da capela de Atim… E conversávamos, quando ele, já trôpego, caminhava apoiado no seu andarilho e depois, no seu carrinho de rodas, ia para o seu escritório e já a muito custo, ganhava forças e coragem e escrevia, agora com menos genica, no seu computador.
 E fomos visitá-lo ao seu quarto, algumas vezes, com ele na sua cama que passou a ser o seu sofá até à hora da morte. Onde adormeceu e já na Paz do Senhor acordou. Mesmo assim e sempre que podia, vinha ao seu escritório escrever mais umas letrinhas. O seu escritório era o seu mundo! Guardamos desse nosso amigo, gratas, grandes e saudosas recordações e, também, do  muito que partilhámos nas nossas conversas e das quais guardamos alguns registos.
Como dos meus pais me despedi, assim para ti, amigo “snr. Dr. António Alves Pinto” conforme “diploma” de “doutoramento” redigido pelo snr. Presidente da República, Dr. Marcelo Rebelo de Sousa, vai o meu “até Deus”, bom amigo!
“Cantem os anjos Hossana/ Bem-vindo seja Jesus/ Cada peito uma cabana/ E o Natal cheio de Luz “ “Festas Felizes. AAPinto”.
Com o abraço amigo de sempre, para si, leitor amigo, fica este “Conto de Natal”.