Medicina Popular na Região de Vizela

Pedro Marques

2018-10-04

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Na edição desta semana do RVJornal, iremos debruçar-nos sobre um tema que é interessante. De modo especial para todos quantos gostam de acompanhar as tradições nos seus usos e costumes e hábitos e rituais do POVO, na sua evolução pelas gerações adiante. Isto faz parte de uma ciência – a antropologia – nas suas vertentes sociais, culturais  e religiosas na sua forma totalizante. Para além de outras. Uma ciência que se torna até fascinante. Na base de todas, está a pessoa humana (de anthropos e logos, vocábulos gregos). Deixemos a antropologia física e fiquemo-nos pela antropologia naquelas vertentes sociais e culturais  e religiosas e mais a arqueológica.
Neste nosso entretenimento de simples curioso e sujeito, portanto, a cometer eventuais “heresias” neste âmbito da antropologia científica, vamo-nos centrar nas tradições de Vizela no espaço da medicina popular.  Medicina essa que tem fatalmente associada e como complemento e parte integrante a oração. E onde, não poucas vezes, entra o fantástico e até a feitiçaria. Termo este que vulgarmente é entendido de modo negativo. Mas que o não será tanto assim. Na verdade, a feitiçaria, muita vez resulta do exercício de  um “dom” que certas pessoas têm e aproveitado para fazer o bem.  Não podemos ficar-nos pela forma redutora do seu conceito só negativo ou de suspeita. Já foi tempo de uma Joana D’arc ter sido condenada à fogueira pelo seu “dom” de “vidente” e de “ouvir vozes” e por isso ter sido associada à prática de feitiçaria. Mais tarde, foi considerada “santa” e canonizada.  Todavia, primeiro, queimaram-na viva em fogueira, como tocha a arder.  Segundo a mentalidade e as “leis” daquele tempo. Depois, foi o dito pelo não dito e foi até santificada com honras de altar. Enfim…Qual será, então, a VERDADE que só tem certezas e se possa considerar CIENTÍFICA  E DOGMÁTICA?...
Nesta ciência da antropologia nacional, temos o incontornável gigante Leite de Vasconcelos. Cientista de um curriculum riquíssimo, natural e residente em criança na freguesia de Mondim da Beira, vizinha de Ucanha e S. João de Tarouca e Salzedas e toda essa região fazendo parte integrante do concelho de Tarouca. Que veio a ser um grande amigo do “nosso” Abade de Tagilde. Num tempo em que, em termos de transportes, havia as diligências do “Cabanelas” e o cavalo. No entanto e mesmo à distância, eles tornaram-se amigos recíprocos. Visitaram-se e comunicavam e partilhavam, entre si, estudos de antropologia também arqueológica. Nesse tempo, o telefone era ainda um luxo. Ao qual, porém, ambos já teriam tido acesso. E comunicavam, também, por telegrama. Num relacionamento de busca de conhecimento e de informação do lado de cá (Tagilde) e do outro lado (Mondim da Beira).  Um ponto comum os unia e formava o tripé – Leite de Vasconcelos, a Sociedade Martins Sarmento e o “nosso” abade de Tagilde, o qual, devido ao seu prestígio de cientista e de historiador, tem o seu nome numa avenida na nossa cidade.  Nomeadamente, correspondiam-se por “cartas, os postais e os cartões de visita (…)”
O “nosso” Abade de Tagilde no âmbito da ciência arqueológica era um muito bom conhecedor de epigrafia e paleografia - estudos de inscrições em latim dos romanos e outras escritas antigas. E neste âmbito, muita correspondência foi trocada entre este sacerdote então a paroquiar Tagilde e Leite de Vasconcelos. Segundo Joaquim Roque Abrantes, estes dois cientistas eram (muito) “unidos pela amizade e pelo saber (e) tiveram entre si momentos de convívio e proximidade e trocaram vasta correspondência. (…) Com uma correspondência muito diversificada (…)” Numa “opinião e orientação do seu mestre; outras ainda (são) de ordem pessoal, uma simples conversa despretensiosa de amigo para amigo (…”). Estes excertos, numa espécie de “monografia” sobre o relacionamento destes dois cientistas, são, como referimos, da autoria de Joaquim Roque Abrantes.  Obra esta de leitura muito interessante e cativante até. Neste âmbito segundo o atrás aludido Joaquim Roque Abrantes e no âmbito da antropologia arqueológica, o abade de Tagilde ”escreveu durante 16 anos a Leite de Vasconcelos. O ano de maior correspondência entre ambos foi 1903 – 14 cartas do Abade de Tagilde e 4 de Leite de Vasconcelos. Não admira! Foi nesse ano que foram publicados vários artigos n’ O Archeologo Português assinados por Oliveira Guimarães com os quais a correspondência está directamente relacionada (…)”.
Porém, o nosso objectivo não é ir pela área monográfica destes dois cientistas, mas sim, descer a um terreiro mais linear. Descermos, portanto, a uma realidade vizelense que pudemos recolher, em conversa com as pessoas no recuado ano de 1994.
Então, nesse tempo e na nossa actividade de bancário profissional e quando ainda se trabalhava ao sábado de manhã numa semana de muita pressão, o nosso relaxar era a de deambular, à tarde, pelos caminhos de Vizela e arredores e deste modo nos familiarizarmos com pessoas e nos fazermos amigos recíprocos. E com este nosso vício da pesquisa, fazíamos perguntas após perguntas. E muita informação valiosa recolhíamos nos apontamentos que íamos fazendo. E deste modo conseguimos entrar na intimidade das pessoas e suas casas e lugares onde estavam inseridos. E recolher do POVO esta SABEDORIA que ele tem. E tantos anos depois, ainda hoje, com muitas dessas pessoas nos vamos encontrando e esse tempo vamos recordando. Então nós éramos o “snr. das fotografias” e o snr. da caneta e gravador” sempre acompanhado por uma cadelita – a Ruca.
Das muitas recolhas que fizemos da tradição oral de avós para filhas e netas e bisnetas e por aí fora( e sempre no feminino), iremos debruçar-nos sobre episódios de medicina popular e orações associadas, contadas por pessoas do Monte, das Barrocas, das Maragatas, de Padim, Mato, Souto (Tagilde). E outras localidades. A alguns episódios, iremos transcrevê-los na sua totalidade; de outros, apenas iremos fazer referência.
Uma coisa é certa: nesse tempo, em termos de devoção popular de orações ao deitar e levantar da cama, de certeza que se rezava muito mais do que hoje. E isto faz também parte da antropologia, no seu âmbito de culto de fé individual e social.
 Com o abraço amigo de sempre.