MEDICINA POPULAR NA ANTROPOLGIA VIZELENSE AINDA A “DADA” O “ TALHAR DO AR” E OS

Pedro Marques

2018-11-29

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No nosso anterior entretenimento, questionámo-nos do porquê do número nove nas “orações” ou ensalmos recitados no exercício da medicina popular para a cura de males.  Pelos vistos, sensíveis a esta modalidade de tratamento. Assim vindo a ser desde gerações anteriores a gerações anteriores. E se assim é, é porque tinha vindo a resultar desde as brumas da memória. E no exercício de tais curas, algumas delas com ritual repetido ao longo de uma cadeia de nove dias que não podia ser quebrada, umas terminando com o ensalmo repetido nove vezes seguidas no decurso da terapia. Ou então, apenas três vezes. Já vimos do porquê, na nossa interpretação das nove vezes pela “magia” ou poder simbolizados no número nove.
Derivemos, agora, um pouquinho do exercício ritualista desta medicina. E fixemo-nos na curiosidade de também nas devoções da igreja católica se fazerem as “novenas” e os “tríduos”. Nas novenas, que ainda se vão fazendo, há a preparação espiritual para a celebração de uma determinada festividade em honra de um santo, durante os quais há a liturgia adequada à situação. Dantes, era comum ir-se à “novena”. De modo frequente quando o trabalho era essencialmente no campo e as fábricas ainda não absorviam o trabalho agrícola. E nos tríduos – ritual menos “exigente” que a “novena” -  apenas havia as orações adequadas a algum dos santos, se calhar de menor “categoria” que os que beneficiavam da “novena”. Dos tríduos, o de maior significado e solenidade é o “tríduo pascal”, de preparação imediata para a Páscoa. Por aqui se pode concluir que, também para Igreja católica, os algarismos três e nove têm a sua “força” pelo seu significado. Não nos esqueçamos de que, no livro do Apocalipse (Revelação), é abundante a referência a vários algarismos. Onde, ainda hoje, se mantém enigmático o número seiscentos e sessenta e seis ou o “número da besta”.
Porém, em relação ao algarismo três, além do já referido no texto anterior, vejamos o seguinte da Bíblia: Os três filhos de Noé (Gn 6,10) representam a totalidade dos seus descendentes; chama-se a Deus três vezes Santo, ou seja, Aquele que tem toda a santidade (Isaías 6,3), as três vezes de Pedro a negar que conhecia Jesus (Mt 26,34); antes disto, as três tentações do diabo a Jesus; e também quando Jesus afirmou que reergueria o templo (do seu corpo) em três dias. Já nos referimos à SS. Trindade. Deus-Pai, Causa Eficiente; Deus-Filho, Verdade e Causa Formal; Deus- Espírito Santo – Bondade e Causa Final. 
Nós somos, corpo, alma e espírito e temos a “trindade” das virtudes: Fé, Esperança e Caridade”. Uma simples flor é tríplice na sua unidade de ser:  tem forma, tem perfume e tem cor.  E pensamos que já chega para relembrarmos a “força” que o algarismo três encerra e por isso até o esoterismo o utiliza. E daqui uma vez mais, a conclusão de que o POVO é SÁBIO na sua simplicidade.
E vamos passar a um outro exemplo de “terapia” pela medicina popular e ainda a propósito da “Dada”. Neste caso, contado, ao tempo, num momento em que ela estava nos Mordomos. Vamo-nos referir à Miquinhas “Perua”. Senhora, para nós, muito alegre e dando-nos a certeza de ser uma senhora feliz. Temos dela um testemunho muito lindo e que a seu tempo lhe daremos luz aqui nestes nossos encontros consigo, amigo leitor. E estamos convictos de que a família não se agastará connosco por a ela hoje nos referirmos sem prévio pedido de autorização. Estamos a referir-nos à Miquinhas Perua, senhora de sorriso nos lábios e cabelinhos de estopa. Então, falou-nos de várias maleitas e de como o POVO no seu tempo, essas maleitas atalhava através da medicina popular e das orações.
Sobre a maleita da “Dada”, contou-nos ela o seguinte: “ As “dadas” são dores intensas de caroços nos peitos das mães que amamentam. E, andando, há muito, muito tempo, Jesus e S. Pedro pela terra, disfarçados de pobres, ao passarem nuns campos, repararam num homem que barafustava muito com os bois. Não dizia “pecados” mas rogava muitas pragas, com muita violência nas palavras que utilizava para com os animais. Porém, nem o Senhor nem o S. Pedro fizeram muito reparo ao aparato da cena do homem a barafustar com os bois. Mas pediram-lhe agasalho e abrigo. Deveria ter sido num fim de tarde, com a noite já a caminho. Então o homem respondeu-lhes: “Vão para minha casa que há lá sempre onde dormir”. E eles foram com ele para casa. E já em casa, mandou à mulher que lhes arranjasse dormida em lugar decente. Então, ela preparou-lhes dormida, mas numa dependência, térrea, de casa onde havia lama no chão e grades de gradar a terra dos campos. O Senhor, continuando a reparar na expressão angustiada do homem e na sua falta de repouso, perguntou-lhe então:- “Homem!  Que tens que andas tão atarefado?...”.  E o homem responde: -””Temos uma criança nascida há poucos dias e a minha mulher tem muitas as dores de peito e  não sei como livrá-la dessas dores”. E o Senhor responde-lhe: “vais ao pé dela e vais-lhe dizer assim:  “Homem bom me deu pousada/ mulher má me fez a cama/  Por cima desta grade e lama / Sai-te “dada” desta mama”. Posto isto, o Senhor e o S. Pedro desapareceram da sua presença, deixando-o a ele e à mulher boquiabertos da surpresa inesperada. Então o homem exclama: “- Oh, mulher! Eram o Senhor e o S. Pedro!”
Nesta história contada pela Miquinhas Perua, ficou-se por aqui o ensalmo para a cura da “dada”. Ficou, por isso, omissa a necessidade, ou não, de se rezar alguma oração. Como omisso ficou o acto da benzedura com o sinal da cruz durante e recitação do “responso” acima e da aspersão da água com fiozinhos de azeite. Mas, ficou a garantia de que as dores e os caroços desaparecem. Ou recitando-se este responso apenas uma vez. Ou várias vezes quando as dores são muito intensas e resistentes à eficácia do responso.
Cada terra com seu uso e cada roca com o seu fuso, diz o POVO. E nestes casos de medicina popular, por norma com benzeduras e orações ou responsos ou ensalmos durante os três ou os noves dias; ou três vezes ou nove no acto do ritual da cura, o certo é que estas maleitas desaparecem e a pessoa padecente, neste caso a mãe de amamentar, recupera a saúde. E se pensamos que isto é hábito de outros tempos, ainda não é bem assim. Tenha sido antes ou mantendo-se ainda nestes nossos tempos onde a oração deu lugar à eficácia da medicina (que é milagre continuado e por isso perdeu a sua “carga” de espanto do sobrenatural), o certo é que isto são episódios da antropologia, ou seja, da evolução de cultura, hábitos e de Fé do ser humano. 
E vejamos, agora, a “cura” de “talhar o ar” do “mal da inveja”.  Este ritual foi-nos contado por uma senhora que morava nas Maragatas (S. Miguel): “Com uma faca e umas “contas” (terço) juntos e fazendo cruzes defronte do paciente, a curandeira rezava o seguinte:” “Pelo poder de Deus e da Virgem Maria e S. Silvestre, tudo o que fizer, tudo lhe preste. Onde lhe eu puser a mão, o Senhor lhe ponha a virtude e eu seja verdadeira mestre. Talho o ar da casa; o ar da fonte; o ar do monte; o ar de todos os cantos. Assim como esta faca talha pão e carne na noite de Natal, assim eu te talho de todo o mal. E vá para o monte maninho onde não haja nem pão nem vinho”. E isto, uma só vez ou, então, se o “mal” continuar durante três dias”.
O POVO também tem solução de cura para os “pesadelos”. Quem tem “pesadelos” durante o sono e acorda aflito ou “tolhido”, ao deitar-se deve rezar o seguinte: “S. “Bertolameu” meu disse / que me deitasse e dormisse/ Que não tivesse medo/ nem à onda da má sombra/ nem ao pesadelo / que tinha as mãos furadas/ as unhas reviradas/  e que me entregasse à Sta Virgem Sagrada”.
E com esta “oração” feita durante três dias seguidos, com três Pai-Nossos e três Ave-Marias, a pessoa que sofresse dos pesadelos ficava deles curada e liberta.


Com o abraço amigo de sempre.