Medicina Popular

Pedro Marques

2018-11-15

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No nosso último texto, fizemos referência ao S. Silvestre, pela (quase) infalível invocação nos rituais do exercício da medicina popular. Debrucemo-nos, hoje, sobre o caso da maleita da “dada” e a sua cura pela medicina do POVO. Ora, o que é a maleita da “dada” (doença)?. “Dada” é um mal num seio da mulher ou no úbere de uma vaca, no aleitamento das suas crias, devido a um ingurgitamento (obstrução) numa das tetas, o que não só impede o fluxo do leite, como provoca dores muito fortes. E se esta “medicina popular” é exercia só por mulheres, acontece, neste caso, a excepção que faz a regra: em doenças como esta, de recurso, até o homem a pode “talhar”, do que o exemplo é testemunha. Desde que saiba. É óbvio.
Numa determinada quinta da região, aconteceu o seguinte: a caseira da quinta, quando foi dar penso ao gado, viu uma vaca numa situação de grande sofrimento. Há pouco tinha parido uma cria. E o penso que lhe havia dado antes para ela se alimentar, ali permanecia intacto. Preocupada, foi chamar o seu homem que andava com um amigo numas obras na casa. E disse ao marido que a vaca além do sofrimento, nem dava leite nem tinha comido a ração anterior. 
 Naquele tempo, os veterinários só começaram a ser conhecidos e actuantes a partir da instalação de vacarias para vacas leiteiras, para as cooperativas de leite. E o casal, então, perguntou ao trolha se conheceria alguém que pudesse ver qual seria o mal da vaca. O trolha, filho de pais lavradores-caseiros também, logo respondeu que a vaca tinha o mal da “dada” e que era preciso “talhar esse mal”. E ele próprio, o amigo do marido, se disponibilizou, uma vez que havia urgência.
Pediu, então, que lhe arranjassem uma bacia ou tigela com água quente. E ainda um pente. Daqueles das mulheres, dantes, arranjarem o cabelo, quase sempre entrançado ou em perrucho para o desenriçar. E pediu também um pouquinho de azeite. Com tudo isto já ao pé dele e da vaca trazida para o terreiro ou eido, o homem, tirando o boné da cabeça, benzeu-se e mergulhou o pente na água aquecida e onde brilhavam já uns olhinhos do azeite nela misturado. E com o pente como um hissope, fez com ele nove sinais em cruz sobre o dorso e o úbere da vaca, espargindo a água com os olhinhos de azeite. E, ao mesmo tempo de cada sinal em cruz, recitava este ensalmo ou reza: “Bom homem te deu pousada/ Má mulher me fez a cama/ Sobre vides e sobre a lama/ Sara aí o teu peito; Sara aí a tua mama.  No fim, o trolha rezou ainda um “padre-nosso”, uma “Ave-Maria” e uma “Salve-Rainha”, em louvor da Senhora da Silva. E terminou esta “oração” ao S. Silvestre “que tudo que eu faça que lhe preste”. E não é que a vaca, passadas poucas horas logo melhorou e já dava leite e já comia?
Este ensalmo tem uma história, ou lenda, pois é mesmo lenda. Segundo esta lenda, N. Senhor e S. Pedro andavam percorrendo o mundo. Uma vez chegada a noite (deve ter sido logo na primeira noite) e estando eles num sítio ermo da serra, foram pedir agasalho a quem morava na casa que encontraram. Era um casal novo ainda e a mulher tinha acabado de ser mãe há pouco tempo. Vendo à porta dois pobres a pedir dormida, o homem, com pena deles foi dizer à mulher que estavam à porta dois homens a pedir agasalho, no pressuposto de que ela concordaria em deixá-los passar a noite em casa. Porém, a mulher, se calhar sofrendo ainda das dores do parto, não se mostrou lá muito atenciosa e, arranjando um pretexto para eles se irem embora, respondeu, com azedume, ao homem: - “Arruma-os então na cozinha, junto à lenha”. A lenha eram molhos de vides das podas.  Como daqueles que dantes, ao redor de Vizela, se faziam as “fogueiras de S. José”. E nas encostas de Regilde e Sto Adrião e Sta Eulália, iluminando a noite como tochas enormes, davam até um certo calor de emoção. Era lindo! 
Ora, o Senhor e o S. Pedro, tinham ouvido à porta, este diálogo de homem e mulher. Entraram no casebre e procuraram sítio para se acomodarem. A cozinha era de terra e de telha vã e onde havia o galinheiro e casota dos coelhos. E nalgumas cozinhas assim de lavradores, até o porco de noite aí tinha o seu agasalho. Como era hábito em muitas casas dos lavradores.  O chão era em terra, que empapa quando chovia. E era lama que havia ao pé da lenha. Mesmo assim, foi onde se deitaram.
Pela madrugada acordaram com os gritos da mulher que se queixava de dores de uma “dada” num peito. Aflito, o marido foi pedir socorro aos hóspedes. E então, o S. Pedro deu ao casal a “receita”. A mesma com que o nosso homem “talhou” a “dada” da vaca. Mas não totalmente “ipsis verbis”. Na verdade, o ensalmo entregue pelo S. Pedro ao casal, era assim: “ Bom homem me deu dormida/ Má mulher me fez a cama/ Sobre vides e sobre a lama./ Curai, Senhor, esta mama/ sob o poder da Virgem Maria!/ Padre-nosso, Ave Maria!/.”
Rezando-se nove vezes seguidas tal esconjuro enquanto se aspergia, sobre a doente, água com pintas de azeite com um molhinho de delgadas varinhas de videira a fazer de hissopo, ou na sua falta um pente, o certo é que as dores pararam e à mulher assim curada se desencaroçaram os peitos e logo o filho passava a poder mamar. E se assim acontecia com a mãe, o mesmo passou a acontecer às vacas em aleitamento que do mesmo mal padecessem.
As invocações do S. Silvestre acontecem nos rituais de outras curas de outras doenças. E quase sempre também com uma oração recitada nove vezes, em forma de cruz sobre o sítio da localização do “mal”. Porquê as nove vezes?  Se formos ao “dicionário dos símbolos, vemos que o número nove, entre outros “predicados”, é um número que significa poder (…) e reflecte a eternidade. Representa a integridade e a sabedoria (…). Muito poderoso: é o triplo do poder do número três (o da Trindade de Deus) e o da que foi a trindade dos romanos (Neptuno, Zeus e Hades). (…)  É o número de meses da gestação de uma criança no ventre da mãe e represente o fim de um processo (de criação). E continuando-se pela mitologia, vê-se que o número nove representa ainda o infinito, como também a totalidade do mundo no triângulo “céu, terra, inferno”.
Afinal, o POVO tem a sua SABEDORIA. E não repugna que se aceite que a cura do mal da “dada”, tenha a sua eficácia no contacto com a água quente e o azeite. Ou será mesmo a fé da pessoa que “talha” a doença?...
 E voltaremos, de novo, com os algarismos nove e três a propósito de outros episódios.


Com o abraço amigo de sempre.