Marcas das perdas

Manuel Marques

2018-11-15

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Escrevo este texto numa altura em que cumpro luto pela partida de Luís Pinheiro, um grande amigo e dos melhores companheiros de trabalho que tive em toda a minha vida nas mais diversas empresas por onde passei. 
O Luís não dava grande importância ao futebol por isso à segunda-feira falávamos um pouco de tudo menos daquilo que é comum discutir nas horas de convívio nas outras firmas entre colegas de trabalho no primeiro dia laboral de cada semana: a bola. 
Não valia a pena eu puxar conversa sobre este ou aquele jogo porque acabava em nada. Porém o Luís tinha umas ligeiras e interessantes noções sobre o desporto-rei. 
Uma vez disse-lhe que não gostava de estar parado na empresa e a resposta dele foi esta: “Não viste ontem na TV o Cristiano Ronaldo sentado no banco de suplentes durante um jogo? Quando foi preciso o treinador pô-lo a jogar e ele marcou um golo. Numa empresa deve ser exatamente assim. Se tivermos de estar parados (no banco de suplentes) estamos, mas quando for preciso marcar golos entramos em campo. Essa ideia de que um trabalhador não pode parar de vez em quando, mesmo no seu horário de trabalho, é desumana” - disse.
O meu amigo referia-se ao jogo Andorra-Portugal em que o selecionador Fernando Santos não arriscou incluir Ronaldo no onze inicial com receio de que o capitão da seleção visse um cartão amarelo que o impediria de defrontar a Suíça no decisivo jogo seguinte de apuramento. Portugal venceu por 2-0 e Ronaldo (que acaba de perder injustamente a quinta Bola de Ouro para um intermitente Modric), marcou um golo aos 63’. 
Luís Pinheiro tinha outra tirada habitual sobre o futebol: “Como não acompanho nenhuma equipa, não sofro com nenhum resultado. Isso é positivo”. De facto já ouvi algumas pessoas dizerem: “Feliz de quem não gosta de futebol, pois futebol é sofrimento”. 
Mas o que seria a vida sem sofrimento quando dizem que as dores ensinam a amar?  No desporto como na vida em geral somos levados a procurar o sucesso, as vitórias, a felicidade. Todavia poucos são os treinadores, professores, pais e demais educadores que ensinam os seus instruendos para a superação do insucesso, da batalha, do sofrimento e das perdas. Se à noite nos dermos ao trabalho de contabilizar tudo o que perdemos ao final de cada dia que acabamos de viver, concluiremos que foram demasiadas coisas importantes como tempo de vida (menos 24 horas), menos familiares, amigos, saúde, oportunidades, juventude e tudo o mais que não resiste à erosão do tempo.  No futebol como na vida em geral as derrotas são mais marcantes do que as vitórias. Perder traz amargura, dor e cansaço. As derrotas são mais duradouras que as vitórias. 
Esquecemos depressa o dia em que ganhamos um amigo, mas jamais esquecemos quando o perdemos. 
É assim a vida (ou a morte).