Manel Campelos, o Garibaldi da Autonomia de Vizela

António Moniz Palme

2018-09-06

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 Estava eu ausente do Porto por razões profissionais, quando  o meu amigo, Sr. Eng. Adelino Campante, me telefonou a dar uma triste notícia: 
O grande Homem de Vizela, Manuel Campelos havia falecido. Fiquei desolado, ainda por cima por não poder estar presente nas cerimónias fúnebres e desse modo homenagear o meu querido Amigo. 
   Conheci Manuel Campelos quando estive, como deputado, no Parlamento. Para lá fui com o intuito de defender os interesses da Agricultura, para proteger a Natureza e o Património, e a Liberdade dos portugueses, consubstanciada na autonomia municipal. Em Portugal, os monarcas da primeira Dinastia, conseguiram escapar ao Feudalismo, dando força ao Povo através da concessão de Forais que criaram Municípios com administração e justiça próprias e que bem depressa começaram a participar na vida pública, tendo assento nas Cortes. Porém, a força dos Municípios acabou, com a ditadura de Pombal, com a centralização de Mouzinho da Silveira, que acabou definitivamente com a imediação dos munícipes em relação aos respectivos órgãos autárquicos. E o processo da autonomia foi enterrado de vez pela Primeira República e pela República do Estado Novo que apenas viam os municípios como centros de recrutamento militar, serviços de cobrança de impostos e locais de organização das eleições. Por outro lado, eu acreditava que uma instituição monárquica não iria permitir que governantes, em plena Liberdade Democrática, se atrevessem a enriquecer à custa do erário público, como agora acontece, tratando o País como um quintal particular, explorando o Povo até ao mais descabido descalabro económico. Ora, perante estes objectivos políticos que me animavam, em 1980, estando no Parlamento, a receber os que procuravam o meu grupo parlamentar, apareceu uma deputação de Vizela, chefiado por um senhor com um ar palaciano e maneiras de diplomata, de nome Manuel Campelos. Esse grupo era composto por gente serena, com conhecimento profundo dos problemas da sua terra, educados e a comunicarem claramente o que de nós pretendiam. Sabiam perfeitamente o que queriam. Eram eles, entre outros, José Ribeiro Ferreira, Domingos Vaz Pinheiro, Carlos Teixeira e Joaquim Lopes Vaz, integrantes de um movimento regionalista MRCV que lutava pela restauração do Município de Vizela. Refiro Restauração do Concelho de Vizela pela simples razão de que a comunidade vizelense tinha conseguido constituir-se em Município, no Século XIV, por carta de foral do Rei D. Pedro I, mantendo-se as respectivas prerrogativas até ao ano de 1408.
   Como consequência dessa visita, o PPM apresentou um Projecto de Lei de Criação do Município de Vizela. Comecei então a partilhar uma grande parte do meu tempo parlamentar na tentativa de resolução do problema vizelense. Conheci, na altura, gente fantástica. Mais, conheci todo um Povo e a sua longa história de opressão municipal, pois há séculos lutava pela sua autonomia. Em Vizela, pessoalmente, com excepção do Sr. Eng. Adelino Campante, meu amigo de sempre que, como eu, se formou e frequentou a velha Universidade de Coimbra, apenas conhecia alguns amigos e parentes que lá iam passar temporadas.
Claro que todos os momentos políticos da minha vida passaram a ser partilhados com o MRCV, os seus componentes, os bons amigos da “Pesada” e, principalmente com o Sr. Manuel Campelos. A nossa amizade foi aumentando ao sabor do espingardear contra os inimigos da autonomia vizelense. Nessa luta, devo dizê-lo, por vezes dramática, com ameaças de morte à mistura. A nossa amizade cresceu, aprendendo cada um a descobrir o que o outro pensava, mesmo antes de o declarar. Na verdade, tinha uma grande cultura, uma grande sensatez, uma grande coragem, uma visão política claríssima e, acima de tudo, não tinha medo de nada. A sua estratégia política era perfeita e não hesitava quando tinha que chocar alguns com as suas atitudes à primeira vista incompreensíveis. Pois, era um chefe carismático que assumiu frontalmente e sem rodeios a intransigente luta pelos interesses da sua terra e de toda a sua região. E teve que suportar a má vontade de alguns conterrâneos, que propalavam não ter Ele categoria para chefiar o Movimento da Restauração, pois não era licenciado e não era rico, fazendo-lhe uma surda e infame oposição. Esse tipo de gentinha tinha medo de não controlar o processo da autonomia, com Manuel Campelos e os seus amigos na liderança, pois já tinham planeado a aquisição de imóveis, onde seriam construídas as futuras infraestruturas do novo município. Enfim, estavam escondidos à sombra de grandes partidos, procurando torpedear o desenvolvimento do processo da criação do município de Vizela. Gente sem valores, gestores falidos sem qualquer credibilidade, a não ser a baixa protecção política que tinham conseguido por falsas razões eleitorais e que, na realidade, atrasaram a criação do novo município anos e anos a fio. Repito, uma série de medíocres, sem qualquer categoria, profissional, social e política, protegidos por organizações camufladas que actuavam à sombra de partidos. Contudo apanharam um punhado de gente séria pela frente, que só e apenas queria a criação do seu Município, gente essa chefiada por um chefe resoluto, sem medo de nada, utilizando os meandros da política para atingir os seus fins, com a argúcia de um Maquiavel. Era esse comandante inolvidável da estratégia política, Manuel Campelo, personalidade que nem a Morte consegue destruir. Mesmo que altos responsáveis da nossa política miserável e corrupta se oponham, o Povo de Vizela já escolheu Manuel Campelos como um autêntico Símbolo da Liberdade da sua Região. 
  Garibaldi foi o herói da unificação da Itália, lutando contra o egoísmo dos interesses privados. Manuel Campelos foi o Garibaldi da Restauração do Concelho de Vizela, contra tudo e contra todos. 
Bradarei comovidamente: -Morreu Manuel Campelos. Viva Manuel Campelos, o herói da Restauração do Concelho de Vizela.