Longe da vista, longe do coração

Domingos Pedrosa

2018-03-08

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Vou contar duas histórias verídicas (como todas as outras que contei já). São pequenas mas curiosas. Um amigo meu que não gostava da profissão que tinha (não gostava ou não tinha aptidão. Era igual à minha) resolveu e conseguiu empregar-se nos Correios. Era carteiro, profissão que adorava por poder falar com esta e com aquela, saber a vida de toda a gente. E sabia. Já lá vão 70 anos, mas lembrei-me da história dele ao ouvir há dias na televisão, um psiquiatra a contar um caso que há muitos anos conheceu, de uma deprimida que o consultou.
Contou assim: Todas as semanas, a dona Margarida ia à campa do marido. Já tinham passados dois anos sobre a sua morte, mas as saudades não se desvaneciam. Ficava por lá umas horas, e, sentada num banquinho de lona que levava, falava com o defunto. Sobre os filhos, o que tinham feito, as suas alegrias e sucessos, mas também tristezas. E falava muito dela, de como se sentia muito só, sobretudo à noite, quando na cama o escuro era mau companheiro. Na sua cabeça, ele respondia-lhe, dava-lhe conselhos, ensinava-lhe como devia viver. A saber tomar conta dela. Vinha para casa mais confortada, mas a meio da semana já estava com saudades de estar com ele.
Ao longo do tempo foi conhecendo outras pessoas que passavam pelo cemitério e com quem trocava, sobretudo ideias, sobre flores. Quais as que resistiam mais tempo sem murcharem, e aprendeu um “truque” para as flores ficarem viçosas durante uma semana até poderem ser renovadas. Foi o senhor Jacinto que lho ensinou: Uma aspirina na jarra, e as flores levam muito mais tempo a murcharem. Ele estava viúvo há seis meses, e conheceu-o quando se encontraram junto à torneira onde iam buscar água para as jarras. Como a dona Margarida, o senhor Jacinto todos os fins-de-semana visitava a campa da mulher.
A pouco e pouco, foi sabendo tudo do senhor Jacinto. Que tinha ficado viúvo há pouco tempo, que ele e a mulher viveram como Deus e os anjos os 42 anos de casados, que não tinha filhos e que era um homem respeitador, educado e asseado. Um cavalheiro. Algumas semanas depois de o conhecer, começou a sentir que ia ao cemitério pelos dois. Pelo marido e pelo viúvo. Nunca lhe tinha acontecido nada parecido, um desejo incontornável fê-la fazer coisas que não imaginava ser capaz. Mas gostou, e logo fizeram juras de amor, prometendo os dois, contar tudo aos respectivos defuntos. Muito a medo, ele disse-lhe que só casava com ela, com uma condição: Tinha prometido à mulher que se voltasse a casar seria ao pé dela. Dona Margarida achou a ideia “gira”, e manifestou desejo que o seu falecido também assistisse à cerimónia, já que enquanto vivo, nada tinha feito nas suas costas. Falaram com o padre, que logo disse que sim: Por mim, não há qualquer problema, o Senhor está em toda a parte. Querem começar em qual das campas?
Disseram as frases do consentimento e de fidelidade na campa dele, e trocaram as alianças na campa dela. E ao casarem, Margarida e Jacinto, (duas lindas flores!) leram – talvez como no primeiro casamento – passagens do “Cântico dos Cânticos”: … Levanta-te, minha amada, formosa minha, e vem…Mostra-me o teu rosto, deixa-me ouvir a tua voz. Enfim, as pieguices do costume quando nos verdes anos, os noivos quase não sabem dizer outra coisa. Foi este casamento com juras de amor, que me fez lembrar a história do meu amigo carteiro. Andou anos a entregar todos os dias nas mãos da namorada de um apaixonado, uma carta que este mandava como resposta às dela. Nas cartas, os apaixonados trocavam juras de amor eterno, e esperavam ansiosos, o dia do casamento. Mas como longe da vista, longe do coração, a apaixonada namorada acabou por casar com o carteiro que via todos os dias e com ele conversava longo tempo.
Foram muito felizes porque os quatro anos de entregas de cartas deram para bem se conhecerem, compreender, tolerar e aceitar o que cada um era, e, acima de tudo, porque os seus corações nunca conheceram lonjuras.
Passaram anos, muitos anos sem ver o meu amigo carteiro, mas um dia encontrei-o em Braga. Vives aqui? – Perguntei. Vivo – respondeu – e muito feliz. Sabes que o meu casamento não foi um “nó cego” como muitos que se deram e dão por aí – disse-me a sorrir por saber que conhecia bem a história do seu passado.