Expressões espirituosas e desconcertantes

Domingos Pedrosa

2018-12-06

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…Que ouvi, que li, que me contaram e achei graça. São muitas, mas para não ser maçudo, só vou contar estas trinta: 1 – Um vizinho meu que era GNR, sempre que estava de plantão, a esposa levava-lhe o almoço ao quartel. Um dia, diz-lhe uma vizinha curiosa: Você sai muitas vezes com essa cestinha? Vou levar “o comer” ao meu homem que ele hoje não pode sair do trabalho. Ai ele trabalha? Olhe que sempre julguei, que ele era Guarda Republicano. 
2 – Eu e o meu saudoso amigo Costa Dias, fomos ver o Vizela a Arcos-de-Valdevez. Na esplanada dum café, perguntei ao homem que me engraxava os sapatos, onde tinha sido o torneio entre os cavaleiros de D. Afonso Henriques e os do seu primo D. Afonso VII de Castela. Foi ali, e apontou para uma colina em frente, pouco distante. Aquilo é que foi! Rolavam cabeças por aquele monte abaixo, braços e pernas espalhados por todos os lados, e muitos fugiam por aquele monte acima. Você havia de ver!
3 – Os criados da minha avó, só tomavam café com leite aos domingos, (à semana, manhã cedo, comiam um suculento caldo) e a minha avó, perguntava: Está doce? Um dos criados respondia sempre: Remedeia. Um dia vazou-lhe todo o açúcar do cartucho, quase fez papas. Está doce Samuel? Remedeia, remedeia. Já o tomei muito mais azedo.
4 – Contou o Franciscano Padre Melícias, que um prégador, seu irmão, muito impetuoso na voz e nos gestos, nos sermões que fazia, que a brusquidão num foi tanta, que pôs ao dependuro no púlpito, a corda cheia de nós que trazia à cinta. Agarrado à saia da mãe, cheio de medo pela “fúria” do prégador, um miúdo viu-a, e disse: Vamos embora mamã, ele soltou-se!
5 – Antigamente nos meses de Julho e Agosto, morriam muitas crianças de tenra idade. Havia dias que o coveiro não saía do cemitério. A mulher levava-lhe de comer, e pelo caminho, dizia: Não falta trabalho ao meu homem, graças a Deus, têm morrido muitas criancinhas. 
6 – Contou-me um amigo e colega de trabalho, que no fim de uma patuscada, ao dar os parabéns ao cozinheiro, que lhe perguntou: Como faz você, tão delicioso arroz de cabidela? Olhe, primeiro, mata-se o frango, depois, depena-se…
7 – Eça de Queiroz num dos seus volumes das “farpas”, conta que encontrou em Vizela o velho Maia completamente careca e muito triste por São Torcato não o ter ouvido. Tinha-lhe prometido uma libra se o cabelo voltasse a nascer. Deixa lá – consolou-o o escritor – para o ano vou trazer-te uma cabeleira postiça, e vamos os dois a São Torcato. Também quero ver a cara dele quando te vir com cabelo.
8 – O Padre João perguntou a um paroquiano porque não ia à missa. Não vou, porque não sei aquele palavreado que o povo lhe responde. Se é por isso, vai. Vai, e faz como muitos: vão para lá, bulir as beiças. 
9 – Camilo Castelo Branco que era mordaz para quem não lhe caía em graça, um dia, escarrachado no seu pequeno burro, cruzou-se com um Morgado que tinha “retratado e malhado”, num dos seus romances. Do alto do seu cavalo, o Morgado cumprimentou: Então senhor Camilo, como vai o burro? A cavalo, senhor Morgado – respondeu Camilo. Esta história é contada pelo zelador da “Casa de Camilo” em S. Miguel de Seide, a todos que a visitam.
10 – Nas “Sedas de Vizela” quando algum trabalho de manutenção não era acabado no sábado, o senhor Oliveira pedia: Tendes que vir amanhã acabar isto. Eu sei que é domingo, mas podeis vir, que eu depois falo com o senhor Padre Albano. 
11 – Numa freguesia para os lados de Famalicão, quando uma procissão passava à porta de uma tasca, saiu um bêbedo com uma caneca a implorar ao “Senhor dos Passos” que ia no andor, sede, muita sede. Atrás do andor, dizia: Ó senhor, Vós porque destes tão bô este tintol? Dai-me sede, dai-me sedinha, que ele é tão bô. (Vi esta cena há perto de 70 anos).
12 – Contava um médico vizelense, (Doutor Toriz) que inspeccionava os mancebos para irem para a tropa, que perguntou a um que queria ser marinheiro: Sabes nadar? Para quê? – respondeu – A Marinha não tem barcos?
13 – Guerra Junqueiro não ia à missa, mas acompanhava sempre a esposa até à Igreja. Ela entrava e ele esperava no adro. Um dia passou um amigo que lhe perguntou: Não entras? Não. Estou de relações cortadas com o dono da casa.
14 – Quando Eça de Queiroz ofereceu um capote com uma racha até à cinta ao velho Maia, ele perguntou: A racha é para entrar o ar? Não. É para sair – respondeu o sarcástico Eça.
15 – Um condiscípulo meu, sobrinho de um padre, contava que o tio visitou um bom homem, ateu, que estava a morrer e que lhe disse: Deus criou-nos para Ele, ao morrermos vamos ver uma luz muito brilhante a indicar-nos o caminho do céu. E para ir para o inferno – perguntou o moribundo – não há nenhuma tabuleta?
16 – Numa Sexta-feira Santa, almoçava eu com o senhor Oliveira num restaurante no Porto, e vimos um padre a trinchar um grande e grosso bife. Diz o senhor Oliveira ao empregado: Hoje não é dia de jejum? É, mas ele diz que “aquilo”, à alma, não faz mal nenhum, e que ao corpo faz melhor que sardinhas ou carapaus.
17 – Quando o presidente da República (Américo Tomás) veio a Guimarães e se soube que o comboio presidencial parava em Vizela, o moleiro “Maquias” ficou entusiasmado, ansiava por o ver, mas, quando Américo Tomás assomou à janela do comboio e o povo desatou aos vivas ao senhor presidente, o moleiro ficou decepcionado e, desapontadíssimo, disse: Ui, ele é um homem?! E marinheiro.
18 – Um barraco para ferramentas de jardinagem que o meu bom amigo Rui Caldas precisou de fazer, tinha que ter dois metros e meio de altura. Na serração, o carpinteiro que o ia fazer, todo se esticava para medir os barrotes que estavam encostados. O Rui deitou um no chão, e disse ao homem: Assim, é mais fácil para medir. Ó senhor Rui, eu quero saber a altura, não é o comprimento.
19 – O Silvino Panoia caiu e desmaiou à beira da Bica-quente. (Tinha saído bêbedo da Tasca da Caçoila) E, para o reanimar, chegaram-lhe ao nariz um copo de aguardente. Ao sentir o cheiro, murmurejou: mais baixo, mais baixo.
20 – Quando o Fernandinho Sacristão construiu a Capelinha da “Senhora do Bom Despacho” na Cruz Caída, perguntaram-lhe: Esta “Senhora” vai fazer milagres? Vai, e muitos, vai fazer milagres como um cesteiro faz cestos. 
21 – Há muitos anos, uma nova lei na Inglaterra não permitindo que os funcionários públicos fossem analfabetos, o sacristão de uma igreja de Londres foi despedido. Começou uma vida nova a vender cigarros pelas ruas. Quando já tinha um dinheirito, abriu um quiosque, depois outro, outro e outro, e por fim, lançou uma nova marca de cigarros. Já muito rico, o seu banco chamou-o, ofereceu-lhe uma caneta de ouro, e pediu-lhe para assinar o livro de honra. Não sei assinar – disse. Embasbacado, o presidente do banco, perguntou-lhe: Se, analfabeto, o senhor é multimilionário, que seria se soubesse ler e escrever? Sacristão – respondeu.
22 – No regresso de um país longínquo, Cavaco Silva contou que encontrou lá, um português a trabalhar num hotel. Surpreendido, perguntou-lhe: Como foi que veio aqui parar? Como veio para tão longe? De avião, senhor presidente.
23 – Há muitos anos, foi sepultado um ciganito no cemitério de S. Miguel. Os pais quando vinham assear a campa no Dia de Todos os Santos, diziam: Para aqui, para junto do nosso filhinho, havemos de vir um dia se Deus nos der vida e saúde.
24 – Numa freguesia vizinha, esteve muito tempo afixada à entrada do cemitério, uma placa que fazia rir. Só o jornal “Os Rídiculos” com a sua jocosidade, conseguiu que a tirassem. A insólita placa, dizia: Este cemitério, é para os mortos que vivem nesta freguesia.
25 – A minha catequista quando se confessava a um padre sobrancelhudo, viu um pelo que saía dum buraco do ralo do confessionário. Deu-lhe um puxão com as pontas dos dedos, e logo o padre, quase gritou: Ai, ai, não puxes, não puxes. Ela deixou de puxar, e disse: Desculpe senhor abade, julguei que era um aranhão!
26 – Contou um amigo meu que foi condiscípulo do Salustiano – um rapaz muito limitado – que o professor o chamou ao quadro e lhe disse: Escreve 40. Fez um enorme quatro, e ficou a olhar. Quarenta é assim? Senhor professor, não cabe o nada!
27 – E eu tive um, que não tinha jeito nenhum para desenhar. Quando o professor nos disse: Ides desenhar um avião, cada um desenha-o como o viu em terra ou a voar. Todos desenhamos mais ou menos parecido com o do Gago Coutinho que copiamos do livro da 4ª classe. Só o João “Fava” fez um minúsculo traço no meio da folha de papel. Isso é um avião? Ó senhor professor, quando o vi, ia muito alto, muito alto.
28 – Numa manhã de S. João, o Biruca Campelos que tinha andado toda a noite na farra, tirou um pêssego a uma mulher que os vendia na feira. Mostre o pêssego – dizia a mulher, muito zangada – mostre o pêssego. Olhe que eu mostro. Mostre, mostre. Bêbedo, baixou as calças e as cuecas e virou-lhe o rabo.
29 – Numa ida do nosso povo a Lisboa aquando a luta pelo concelho, uma camioneta parou num despovoado, (era de noite) e o responsável por ela, (era um Amaral) disse: Paramos aqui uns minutos, para quem precisar de fazer chichi, ou qualquer coisa no género.
30 – Há 80 anos, muitos bêbedos havia em Vizela, mas um, era o rei. Chamavam-lhe o Manel Bebedinho. As bebedeiras eram tão grandes, que nem sabia onde morava. Batia a todas as portas, e perguntava: O seu homem está? Às que diziam não, pedia com voz entaramelada: Pode vir à porta para ver se sou eu?
Como a jovialidade alivia os amargores da vida, espero que esta trintena de surpreendentes expressões, tenha desenrugado cenhos bem carregados. Gandhi, dizia: “Tu, és a esperança do mundo que queres ter”, e eu quero um, sem macambúzios. Um abraço amigo, e sejam alegres e bem-dispostos. Que se ganha com a tristeza, ou ser carrancudo? A alegria e boa-disposição são bons tonificantes. Acreditem.