Editorial 29 de Junho de 2017

Fátima Anjos

2017-06-29

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Portugal consegue sempre exceder-se quando é chamado a ser solidário e isso tem ficado provado ao longo das últimas duas semanas numa tentativa de tornar menos negros os dias das vítimas dos incêndios da região Pedrogão Grande.

No entanto, rapidamente nos desconcentramos daquilo que é o essencial para passarmos a colocar no epicentro do teatro das operações o comentário a que muitos já apelidaram de ofensivo por ter sido proferido no decorrer de um concerto solidário. 

Salvador Sobral disse apenas o que pensava, desprendido daquilo a que chamamos de politicamente correto. É um não assunto! 

Prendi mais a atenção no que disse Jorge Palma. O músico lembrou que há muitos anos que vai participando em ações de solidariedade para ajudar causas que visam o bem comum. Por isso, não vê a solidariedade como um ato novo e sem potencial para crescer. Não, ele também sabe que os portugueses são solidários. Todos nós sabemos. Não é a solidariedade que está em falta mas antes como este afirmou ontem, uma verdadeira aposta na prevenção dos fogos florestais. É aí, insisto, que devemos prender todas as nossas atenções. 

Esta semana, tivemos a oportunidade de estar em contacto com os soldados da paz que partiram de Vizela para apoiar as equipas que combatiam os incêndios que deixaram Pedrógão Grande e Góis num manto de cinzas. Rapidamente conseguimos perceber que esta foi uma experiência que deixará as suas marcas. Voltaram com a aflição daquela comunidade “atravessada na garganta” e com a plena consciência de que esta terá de ser apoiada não só no presente mas ao longo de muito tempo para que consiga não só fazer o seu luto com alguma dignidade mas para que também possa ter a oportunidade de renascer.

Tenho os Bombeiros como heróis… Não podia ser mais verdade! Um porto seguro, ao qual devemos muito e, por isso, devemos retribuir na medida das nossas possibilidades.

Tudo isto para dizer que tenho orgulho da solidariedade do meu povo, mas não podemos deixar passar esta oportunidade para reivindicar uma mudança no paradigma da política de combate a incêndios florestais… Mais do mesmo, nunca mais! Poder-me-ão dizer que é muito fácil falar! Mas eu direi antes que mais fácil é deixar a nossa floresta arder sem que nada se faça para o impedir. Chega de facilitismos e de virar a cara ao lado, como se o problema fosse do vizinho!