Editorial 25 de julho de 2019

Fátima Anjos

2019-07-25

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Nunca nadei no Rio Vizela.

A condução do programa “Corta e Prega” da Rádio Vizela nos últimos meses (face à ausência da jornalista e amiga Helena Lopes, por uma boa razão, acabou de ser mãe esta semana e parabéns por tamanha dádiva) tem-me permitir fazer uma viagem ao passado, até à infância de alguns dos nossos conterrâneos. Uma infância que todos recordaram com um sorriso no rosto, afirmando que a passaram nas margens do nosso rio, onde aprenderam a nadar e onde também viveram um dos períodos mais bonitos das suas vidas.

Mas eu nunca nadei no Rio Vizela. Não tenho sequer recordação do rio sem poluição. Sou mulher mas sem qualquer receio em esconder a idade. Tenho 36 anos. O que significa que o problema que vivemos hoje tem, infelizmente, mais de três décadas.

O atual Executivo camarário, bem como os anteriores, tem vindo a tornar públicas as suas ações de combate à poluição que foi, de tal forma, nociva em determinados períodos da nossa história de implantação industrial nas margens deste curso natural que a sua recuperação promete ser morosa e, por isso, basta que chegue o verão e que o caudal seja menor para que se coloque a nu a herança pesada de um tempo em que o capitalismo se sobrepôs à defesa da natureza e ao bem-estar das populações.

Em simultâneo, ao longo de todos estes anos, os vizelenses foram-se fazendo ouvir na defesa do seu rio mas há também quem faça esta mesma viagem, embora no sentido oposto, continuando a ser responsável pelas descargas poluentes que desaguam no Rio Vizela, só porque, imagino eu, lhe parece “mais fácil” e, de certeza, “mais barato”. 

A diferença é que hoje, apesar do capitalismo continuar a imperar, existe, por parte da sociedade civil, uma maior consciencialização ambiental. Uma sociedade que se tornou também mais exigente e até reivindicativa na preservação daquele que é um património natural coletivo, facto que leva a que as autoridades, de diversa ordem, sejam obrigadas a exigir, sob pena de serem acusadas como sendo “cúmplices” dos crimes perpetrados se não o fizerem.

Tudo isto para dizer que devemos sim, continuar a exigir um Rio Vizela sem poluição e que as autoridades devem fazer tudo o que estiver ao seu alcance para identificar e penalizar os seus prevaricadores.

A verdade é que não sei se um dia irei nadar no Rio. 

Mas não baixo a voz, nem o devem fazer todos aqueles que me rodeiam, porque um dia, talvez o meu filho ou os vossos possam vir a partilhar as histórias felizes que viveram nas margens do nosso Vizela, na nossa Cascalheira.

Que se repita este passado que é parte integrante da identidade coletiva desta nossa comunidade!