Editorial 22 de Junho de 2017

Fátima Anjos

2017-06-22

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Uma tempestade de fogo se abateu sobre o nosso país no último sábado. Uma tragédia difícil de digerir mesmo para quem vive à distância mas não deixa de imaginar os momentos de terror vividos por quem tentou salvar a sua vida e a dos outros e acabaram engolidos pelo fumo ou pela brutalidade das chamas. Famílias como a nossa que viram todos os seus sonhos apagados em frações de segundo.
Nos últimos dias, temos ouvido dizer que este é ainda momento de centrar energias no combate aos incêndios que continuam ativos naquela região de Pedrogão Grande e de Góis. Afirmou-o a Ministra da Administração Interna e também o Presidente da República. 
Mas é inevitável a discussão em torno das causas de uma das maiores tragédias que assolou Portugal nas últimas décadas. É o mínimo que se poderá fazer depois da perda de 64 vidas, da destruição do património de centenas de famílias e da devastação da nossa floresta. Nem adiantará servirem-se da mãe natureza como bode expiatório. Sim, o incêndio até poderá ter-se iniciado na sequência de uma conjugação de fenómenos naturais ou talvez até possa ter envolvido mão criminosa, como foi referido esta quarta-feira pelo Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, mas mais importante do que isso será perceber de que forma é que este se propagou de forma a ficar incontrolável e a causar o terror junto daquelas populações.
Não tenho dúvidas de que os Bombeiros fizeram aquilo que podiam mas também tenho a certeza de que o país não estava preparado para dar resposta ao que aconteceu naquele sábado. E é um facto de que só estará preparado quando efetivamente se priorizar a prevenção em relação ao combate, endurecendo a legislação e, principalmente, fazendo valer o que está escrito na lei. É mais do que certo que a grande parte dos cidadãos só desperta para as suas obrigações quando se lhes aperta a carteira.
E depois olho para um país que continua a ser gerido à distância, desde uma capital chamada Lisboa, e com protagonistas que não conhecem muitas daquelas que são as singularidades do nosso território, o que impede a que se tomem medidas condizentes com as necessidades de cada distrito, de cada município e de cada aldeia do nosso Portugal. Esta é a altura para o Governo olhar para o Poder Local e para o pacote de competências que entende delegar nos Municípios, entre as quais estarão, como é do conhecimento público, as que dizem respeito à Proteção Civil. 
Se o Governo investisse na prevenção dos incêndios a verba que poupa com o suor dos nossos Bombeiros Voluntários, talvez o último sábado tivesse uma história diferente para contar…
Infelizmente não dá para apagar o que aconteceu… Mas podemos e devemos, por respeito às vítimas e às suas famílias, aprender com os erros cometidos e não deixar que tal inferno volte a descer à terra.