Editorial 07 de fevereiro de 2019

Fátima Anjos

2019-02-07

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Só em Portugal, entre 2004 e o final de 2018, foram mortas 503 mulheres em contexto de violência doméstica ou de género. E só no início deste ano, já foram assassinadas mais 9 mulheres.

Números que nos deverão suscitar alguma reflexão sobre o comportamento moral da sociedade em que nos transformamos muitas das vezes desprovida daqueles que deveriam ser os verdadeiros valores, a começar pelo respeito da vida humana.

“Uma atuação sem tréguas” e “intolerância” para com o comportamento dos agressores defendia, no início desta semana, Rosa Monteiro, Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade. Certamente que tal exigirá uma mão bem mais pesada no que toca à justiça e a criação de respostas imediatas para mulheres ou homens cujas vidas possam estar em perigo. Respostas que possam abranger as crianças destas famílias, porque sabemos que dificilmente alguém abandonará o lar (ou o inferno) deixando os filhos para trás.

É urgente proteger as vítimas dos agressores.

Não se pode despenalizar a violência, tentando encontrar justificações no injustificável.

Há efetivamente números que nos devem deixar a pensar. Escrevia esta quarta-feira, o Jornal de Notícias de que no decorrer do ano de 2017, a Comissão de Proteção às Vítimas de Crime recebeu 18 pedidos de adiantamento de indemnização de filhos de vítimas de crimes de homicídio, todos menores de idade. A esmagadora maioria são aqueles a que chamamos de órfãos de violência doméstica: viram, na maior parte dos casos, a mãe ser morta pelo pai e este preso pelo crime cometido.

São estas as principais vítimas deste flagelo. Estão ao lado da menina de dois anos do Seixal, cuja vida foi roubada esta semana pelo próprio pai. Que mundo é este em que vivemos? Que seres são estes que se dizem humanos mas que não são mais do que nada, incapazes sequer de racionalizar a dor que provocam nos seres mais indefesos?

Uma sociedade intolerante, que quer dominar pelo exercício da força, incapaz de respeitar a diferença de opiniões e de se esforçar em tentar compreender o outro, mas sempre disponível para o conflito, para a agressão e para dar um fim a tudo.

Volto a dizer, é urgente proteger as vítimas, penalizar os agressores e, cada um de nós, contribuir para a formação da nossa sociedade, a começar pelos nossos filhos!