Editorial 05 de julho de 2018

Fátima Anjos

2018-07-05

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Os proprietários de restaurantes podem agora autorizar a entrada e a permanência de animais de estimação nos seus estabelecimentos. Em abril de 2018, a DECO perguntou a 1800 portugueses se concordavam com a presença de cães e gatos em restaurantes e concluiu que apenas um quarto o aceitava de bom agrado. Ainda neste inquérito levado a efeito pela Associação de Defesa do Consumidor, entre os donos de cães e gatos, somente 22% considerou a possibilidade de levar o seu amigo de quatro patas a um estabelecimento que lhe permitisse a entrada.
Nesta matéria considero que foi dado um passo maior que a perna e passo a explicar porquê. Em Portugal há ainda muito trabalho a fazer no que toca à vivência entre seres humanos e a vida animal. Apesar de muitos de nós termos os nossos animais de estimação, os quais cuidamos com muito respeito e atenção, ainda não dispomos, como povo, de uma mentalidade suficientemente aberta para aceitar partilhar aquele que tomamos como sendo o nosso espaço – a nossa zona de conforto – com realidades que, pensamos nós, nos podem sugerir alguns constrangimentos.
Como posso eu decidir levar a minha Minnie (uma das cadelas mais simpáticas da região) àquele restaurante do centro da cidade sem garantir que ela faça barulho, no momento em que se confrontar com outros amigos da mesma espécie ou até mesmo quando for servido o prato principal? E depois como posso garantir que esta vai conseguir controlar as suas micções naquele momento em que eu vou estar distraída com a sobremesa? Vão-me dizer que é uma questão de educação… Eu digo que não, a natureza é assim mesmo…
E depois coloco-me também do outro lado… Será que na hora de ir jantar com o meu filho de dois anos, que não pára sentado na cadeira (e aqui poderão voltar-me a falar da educação… e eu volto a citar a natureza das coisas), vou optar por um restaurante, onde possam estar presentes vários animais que ele vai querer “irritar” de todas as maneiras?
Depois que não haja dúvidas de que os proprietários dos restaurantes são também eles consumidores e colocam-se nesse papel e é, por isso, que a maioria vai optar por não colocar o dístico à entrada, dirigindo-se este a um nicho de mercado muito reduzido e que encontrará o seu espaço em grandes cidades e não em meios como o de Vizela.
E continuo a considerar que foi dado um passo maior do que a perna porque nós portugueses ainda antes de abrirmos os restaurantes aos animais de estimação temos de aprender a partilhar a nossa vida com eles, mas partilhando o verdadeiro significado da palavra partilha.
 Mas ainda muito antes disso, temos de saber respeitá-los e isso passa por respeitar o principal de tudo – o direito à vida e a uma vida com dignidade. 
Num país onde ainda existem tantos animais a morrer à fome na rua, não podemos armar uma batalha, porque queremos levar meia dúzia ao restaurante. Boa medida seria ajudar financeiramente as famílias portuguesas no processo de esterilização dos seus animais, impedindo que continuássemos a assistir à descarga de animais recém-nascidos nos montes da nossa região. Mas é verdade, isso custa dinheiro…