Dulci - Era uma vez Pastora...

Pedro Marques

2018-12-13

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Hoje, vamos suspender as digressões pela medicina popular, para darmos a conhecer aos nossos leitores deste semanário uma POETISA-ESCRITORA que foi guardadora de cabras e ovelhas.
              Para isso e em jeito de introito comecemos por uma leve caracterização de duas das aldeias(freguesias) de Castro Daire – as aldeias de S. Joaninho e a de Farejinhas.  Ainda não as conhecemos pessoalmente. Porém, iremos conhecê-las.  Se a nossa “heroína” de hoje nasceu em S. Joaninho, actualmente vive em Farejinhas.
Farejinhas nada tem a ver com a nossa quase vizinha freguesia de Fareja, que foi uma espécie de presépio de moinhos encosta abaixo até ao estreito e cantante rio Vizela. E de onde vieram moleiros, e moinhos construíram já nos domínios do nosso concelho e do outro lado. Nomeadamente na Coutada e Póvoa de Tagilde.
Esta “heroína” é a escritora e poetisa Dulcí Ferreira, que ficámos a conhecer pelas afinidades literárias comuns e em cuja apresentação pública de mais dois dos seus já vários livros editados, nós tivemos a honra e a satisfação de termos estado presente. E de cuja vila – Castro Daire - ficámos a gostar deveras, como também dos arredores por onde nos foi possível viajar.
Pelo que, entretanto, já nos foi possível, conhecer, quer se percorram as ruas e caminhos de S. Joaninho, quer as de Farejinhas, apercebemo-nos de estarmos em sítios de um Portugal profundo, onde as tradições e hábitos próprios de sítios tão isolados e ermos, no seio das montanhas de Montemuro, se mantêm na sua quase pureza; e onde, portanto, o “progresso” “selvagem” não causou ainda estragos por aí além. E mesmo o rio Paiva, ao fundo, limitando concelhos e freguesias e nomes de serras, isso não impedirá de podermos afirmar que, neste caso de vizinhança de um e outro lado do rio, Arouca e Castro Daire montanhosos ex-aequo para essas bandas, formariam um todo neste viver do tal Portugal profundo.
Ouvindo-se o rumorejar das águas do Paiva, unindo-os, esse rumorejar sobe tranquilo e vagaroso as escarpas de um e outro lado. E, se conhecemos as margens do Paiva, em cuja praia da Areinho já comemos, grelhadas na brasa, bogas pescadas na hora nesse rio, de um e outro lado de Janarde e Alvarenga, por exemplo, estamos com um pé na serra do Montemuro e outro pé da na Gralheira. Mais precisamente nas montanhas de Arade.
Se nos dias de hoje assim já não acontece em termos de modo de vida, num passado ainda recente, de um e outro lado do Paiva havia o pastoreio de cabras pelos montados da serra; como havia o pastoreio do gado bovino e lanígero na fundura dos vales e campos nas encostas das montanhas. E apostamos que nas leiras das encostas voltadas a sul, haverá, também em S. Joaninho e Farejunhas, sorrisos de laranjas e brincos vermelhos de medronhos.
Mesmo assim, em Castro Daire, todos os anos se tem vindo a fazer a recreação da transumância deste gado em simulacros de percursos que dantes percorriam as Beiras e Alentejo. E sentimo-nos privilegiados, na medida em que, do lado de cá do Paiva, ainda vai havendo o pastoreio das cabras sob a responsabilidade dos vezeiros – pastores que, à vez, todo o gado da comunidade levam ao pasto e aos redis o conduzem pelo cair do sol. E isso pudemos observar, presencialmente, mais que uma vez em vários anos.
 E feita muito ao deve a caracterização das aldeias de nascimento e residência da escritora-poetisa Dúlci, é dela que pretendemos levar até si, leitor amigo, algumas referências, porque entendemos que os (bons) escritores devem ser conhecidos e divulgadas as suas obras. Ora, esta hoje escritora já com nome e público feitos, nasceu no seio da pastorícia. E por isso foi, na sua meninice e adolescência, pastora de cabras e de ovelhas. E do gado bovino também. Percorreu os caminhos estreitos e por vezes cheios de neve de S. Joaninho,  subindo montanhas, descendo ladeiras, no pastoreio das cabras. Ora cantarolando com a água dos rios Paivó e Paiva nos seus declives e no cantarolar dos rodízios dos moinhos e gemibunda lengalenga das tremonhas ou tremeleiras no rolar das mós, ora sentando-se nas fragas para comer o seu farnel, ora ainda rebolando na penedia   e por vezes se molhando até no esparrinhar da água dos rodízios, quando não mesmo se banhando na água dos rios e ribeiros. E não poucas vezes, se abrigando da chuva e do frio sob a sua capucha de burel.
Nesse viver assim de infância e adolescência, tinha ali no seio do Montemuro o seu universo de contemplação e introspecção. Desde os picos à fundura das gargantas das montanhas onde os rios eram fios de prata brilhante, ao límpido azul do céu onde voavam a águia de asa redonda e o pombo trocaz. Porém, onde esta pastora também temia o lobo ou a cobra cornuda, cuja mordedura é fatal nas crianças.  E assim, a par da selva das montanhas, do pastoreio de que por vezes, já sonhadora, se alheava esquecendo o gado que se esgueirava para o pasto dos campos de outros com a consequente repreensão em casa, já então esta menina sentia voos para subir mais alto que a águia de asa redonda, ou descer aos sítios mais recônditos do coelho, da fuinha ou mesmo do javali. E sonhando acordada, começou a descobrir outros horizontes de sentimentos que lhe corriam na alma como o sangue nas veias.
Na verdade, para esta Dulcí adolescente, já então “pensar era voar mais alto e mais longe”. Então e sem o saber ainda, já esta rapariguinha Dulcí pensava como Fernando Pessoa: “(…) A maioria pensa com a sensibilidade e eu sinto com o pensamento. Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver. Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar (…)”. Um trocadilho de palavras que vai muito para lá de um mero jogo em si. Quer em Pessoa, quer nesta Dulcí, ainda rapariguinha, já o Espírito, sem tempo nem fronteiras a tolhê-lo ou a limitá-lo, fazia esta comunhão de pensamento e sensibilidade de corações a bater em uníssono. Porém, esta Dulcí pensava também com os olhos no deslumbramento de paisagens a morrer de vista para lá dos pores-de-sol e do céu em noites luarentas de lua cheia.
No sábado, primeiro deste mês, em Castro Daire, na Casa Municipal da Cultura e perante moldura humana muito rica, foi a apresentação de mais dois livros (dois filhos gémeos) da autoria desta escritora, de um dos quais e com muita honra e orgulho foi da nossa responsabilidade a revisão dos textos e na qual tivemos também a subida honra de podermos estar presente. É que neste universo da Literatura e Poesia, o longe torna-se perto quando se revela a comunhão de ideias e de sonhos. E assim, para nós, Castro Daire “era já ali. E “ali fomos”. E nos nossos horizontes, depois de Trás-os-Montes e Alto Douro,  as nossas visitas já se estenderam, em actividades literárias e outras no sentido de Viseu, por Tarouca, Moimenta da Beira, Sernancelhe de Aquilino (onde também a Senhora da Lapa)  e, agora, Castro Daire. Se no âmago das “Terras do Demo”,  nem por isso deixam de ser belas e atractivas. Ainda mais, na medida em que vai havendo a revelação de valores. Neste caso, no universo da Poesia e Literatura.
Ora, neste nosso estilo de não sermos parcos a escrever, antes isso fazendo, por vezes com minúcia de pormenores, que a muitos até agradam, mas a outros assim nem tanto, desta escritora, além deste nosso artigo de agora, pelo menos mais um outro neste semanário -  RVJornal  - iremos partilhar consigo, dedicado leitor.
Com o abraço amigo de sempre.