DO FENÓMENO DOS MILAGRES AOS MILAGRES DA SENHORA DA LAPA (I)

Pedro Marques

2019-09-12

Partilhe:


A Senhora da Lapa é para nós, agora, e de modo especial desde há uns tempos, uma referência de espiritualidade, Fé e devoção. E uma Luz espiritual que muito nos iluminou  e tem vindo a ajudar nesta nossa caminhada na busca da Fé de afectos.
Somos, por imperativo de consciência, e por vezes, crítico em relação a excessos devocionais quando esse excesso, na nossa interpretação, é usado e até explorado no sentido de um testemunho colectivo de “fé” em termos de aparato de multidão e de massas. Onde interessa mais o aparato que a autenticidade e profundidade de Fé. Podemos estar errados na nossa forma de pensar. Todavia, pensamos bem que estamos certos. A FÉ tem de ser vivida de dentro para fora e no seu essencial; e não uma fé de fora e por fora (só) de “encher o olho”.
Em termos de Fé, podemos recuar centenas de anos atrás, quando a Fé cristã era uma fé autêntica de testemunho de vida. Fé daquela capaz de mover montanhas. No entanto, e através do que temos vindo a ler e a constatar, desde há muito, essa Fé é luz que amorteceu e bruxuleia como de vela a ficar já sem pavio nem cera. Ou mesmo apagada já.
Por outro lado, quando se contesta só pelo contestar, pode uma pessoa atolar-se nesse lodaçal e dele não sair mais.  Temos humilde para estarmos atentos a este perigo. Se o título deste nosso tema de agora parece nada ter a ver com a Senhora da Lapa em Quintela, Sernancelhe, ele tem, aí, a sua pedra de “toque” e para a Senhora da Lapa iremos levar a água ao nosso moinho: para os milagres. E para o nosso testemunho de pessoa crente.
Há nos evangelhos e segundo a revista “Bíblica” de que sou assinante há décadas, reflexões sobre os chamados “milagres teológicos” ou catequéticos e os milagres autênticos. Dos primeiros, fará parte o milagre da multiplicação do pão e dos peixes. Acredito piamente que Jesus Cristo possuía o dom do poder do milagre, mesmo só enquanto Homem, ainda que aparentemente esse milagre violentasse as leis da Física ou outras leis naturais.
Na verdade, e também segundo a “Bíblica” e na fundamentação da afirmação de Deus quando criou o mundo, este conceito de “mundo” foi sinónimo de que tudo quanto Ele fizera tinha sido bom e perfeito. Assim sendo, o milagre físico, neste âmbito do “perfeito” será, à partida, uma anomalia de algo que afinal escapou ao exame de Deus quando classificou a Sua Obra de “mundo”.
Ora, o mundo, Obra de Deus que Ele achou “boa”, não pode ter imperfeições E neste sentido, qualquer imperfeição humana congénita, que para a sua cura e por força do sobrenatural violente as leis da Natureza, segundo a “Bíblica” não pode ser milagre. Todavia, não será também tanto assim, nesta radicalidade: o milagre, na verdade, acontece. E no nosso raciocínio, há, para isso, uma explicação.
Também não vamos dissertar agora sobre perfeição, beleza ou pureza do conceito “mundo”. É uma aventura para a qual não estamos habilitado para além das coisas básicas, imediatas. Ora e reportando-nos ao milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, segundo a argumentação da “Bíblica” que referimos, esse milagre (só) teria sido possível no pressuposto de que cada um dos que seguiam Jesus nas suas pregações, levaria consigo, no bolso ou bolsa, um bocado de pão e de peixe e na hora adequada, em jeito de farnel, todos eles repartissem pelos demais o pouco de que dispunham, mas que acabava por chegar para todos e restarem ainda sobras. Esta é a explicação da “Bíblica”.
E há mais. Além de Adão e Eva, agora, nunca terem existido como pessoas, também Abel e Caim não passam de duas personagens poéticas da Bíblia com um objectivo catequético sobre o Bem e o Mal. E até o próprio Job também nunca existiu. Sendo Job apenas um dos personagens do poema que é o “Livro de Job”. Livro maravilhoso enquanto poema, embora cansativo na leitura. Por este caminhar assim, vamos longe!
Por outro lado, em tempos recuados, um condiscípulo do nosso curso académico para o sacerdócio, numa sua homilia sobre o episódio no evangelho, da expulsão do demónio, por parte de Jesus: se no tempo de Jesus isso era tido como “milagre”, ele esclareceu que, hoje e pela evolução da medicina, isso tem a sua explicação – um sintoma ou evidência da doença da epilepsia, por exemplo. Todavia, bastou a imposição das mãos de Jesus e o “possesso” ficou liberto do “demónio”.
Digamos que, em termos parapsicológicos de pessoas dotadas, da simples imposição das mãos flui um “poder” de cura que não contraria nenhuma lei física ou do Universo. E para quantos não queiram ou se recusem a acreditar que Jesus fazia “milagres”, não podem recusar a realidade excepcional de haver pessoas dotadas, as quais, pela simples imposição das mãos, têm o dom da cura.
Até há uns tempos, a própria igreja recorria com frequência aos sacerdotes exorcistas para a expulsão de “demónios” do corpo de uma pessoa “atacada”. E devemos dizer que, neste âmbito, uma vez tivemos de pedir ajuda ao falecido padre João, de Tagilde e cuja intervenção foi de eficácia radical. Devemos-lhe essa gratidão.
Aliás, na escala ascendente na subida dos degraus para o sacerdócio, havia as seguintes etapas nas chamadas “ordens menores”: hostiário, leitor, exorcista e acólito. E só depois de percorridas estas “ordens menores”, se passava ao patamar seguinte das “ordens maiores” de Subdiácono, Diácono e Presbítero.
Ora, temos para nós que o “milagre” só é milagre – coisa extraordinária, mas não impossível nem contrária às leis da Natureza – na medida em que as pessoas “dotadas”  antecipam  um poder, neste caso da medicina, que só mais tarde vem a ser “descoberto”. E que da “maravilha inicial”, passa à vulgaridade com o uso. Mas até isso acontecer, o que acontece é “milagre”. Um fenómeno escondido, mas natural e apenas à espera de que a Ciência, pela Inteligência humana, o descubra.
Se formos à hagiologia de muitos santos da Igreja cristã, os milagres aconteciam aos pontapés. Pelo menos e no caso dos arcebispos de Braga, ao  D. Teotónio. (ainda iremos continuar a reler os restantes) não havia arcebispo nenhum (exceptuado o D. Maurício que até se “apoderou” da cátedra de Pedro com título de Gregório VIII – anti-papa), que não tivesse tido o dom de operar milagres. E milagres mesmo de espantar como o de se conseguir, por súplicas insistentes a Deus, recuperar-se uma alma caída no inferno. E de ressuscitar mortos. A começar pelo S. Pedro de Rates. Ainda no nosso tempo de juventude, sempre que houvesse seca extrema continuada, ou chuva sem parar pelo inverno, ao ponto de uma e outra situação serem consideradas de catástrofe, a igreja fazia procissões públicas penitenciais com a invocação, em ladainha, de todos os santos. E o certo é que a situação de catástrofe desaparecia logo nos dias imediatos.
Aqui, pensamos, que a própria igreja perdeu Fé, desacreditando da eficácia de tais súplicas penitenciais. Na verdade, desde há muito que a Igreja “se fechou em copas”. E nunca mais houve procissões penitenciais contra as catástrofes. Até Conceição Cristas, quando foi ministra da Agricultura, numa das últimas secas, esperou, como solução que do Céu viesse  o “milagre” da tão desejada chuva… Por que terminaram estas procissões: por falta de fé por parte da própria Igreja?...

Com o abraço amigo de sempre