Desta vez...

Domingos Pedrosa

2017-07-06

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Os incêndios que nos envergonham, puseram o país de luto e a chorar. Vi grandes chamas a devorar encostas inteiras de arvoredo verdejantes, que em poucos minutos se tornaram manchas negras de cinza, fumarentas, desoladoras, e lembrei-me dos meus tempos de criança. Lembrei-me, porque as coisas mais presentes na memória, são as vividas a partir dos meus 10 anos, e nesses tempos longínquos, não havia este flagelo. Nem um, sequer, tenho na memória. E estalavam foguetes no dia de S. Bento de manhã à noite, havia trovoadas secas, dias calmosos, pinheiros e eucaliptos. Não se limpavam os montes, a única limpeza era feita por quem apanhava lenha para consumo ou vender, como árvores secas, pinhas, cascas de eucalipto. Grandes matagais não havia, porque os lavradores roçavam o mato que nas cortes do gado se transformava num fértil estrume para adubar os campos. O que não havia também, era pirómanos pagos ou dementes, que ficam na fresca ribeira mesmo sendo surpreendidos.
    Mas tudo mudou, e todos os anos pelo verão, temos incêndios. São como os feriados móveis, todos os anos se repetem em dias diferentes, dias infernais e não santos como os feriados. E dizem que são originados pelas elevadas temperaturas, por baixa humidade, trovoadas secas, árvores especialmente combustíveis, tudo coisas que antigamente aconteciam e existiam, e os montes não ardiam.
    Agora ardem, há muitos anos que ardem e continuam arder mesmo depois de medidas tomadas que quase garantem que no futuro não se repetem desgraças. Mas repetem-se e cada vez mais trágicas. Desta vez foram 64 os que morreram, (e centenas de animais) transformados em archotes, a fugir, sufocados, e encarcerados nos carros entre labaredas dos dois lados da estrada onde tudo ardeu, derreteu, como as jantes de liga leve que não se sabe a quantas centenas de graus, derretem. E defronte daquele inferno, os bombeiros, abnegados heróis, exaustos, pediam socorro, gritavam que havia corpos a arder, sem lhes poder valer, desorientados, desesperados no meio dum inferno que carbonizou 64 irmãos nossos numa área ardida de 45 mil hectares.
    Isto faz doer, doer doer, e obriga a perguntar onde se gastam todos os anos 75 milhões de euros nos combates aos fogos, se Portugal está sempre a arder e com redobrada violência. E dizem os entendidos, que o problema não está no combate aos fogos. Está na prevenção. Mas só se lembram disso depois da tragédia.
Na proposta técnica do Plano Nacional de Defesa Contra Incêndios, do professor catedrático José Miguel Pereira e Tiago Oliveira de 2004 lê-se: Os espaços florestais representam 64% do território, e são responsáveis por 3% do PIB, 12% das exportações, e “permitem pagar o que importamos para comer”. Estes dados dizem a importância da floresta na nossa economia, e o que se faz pela floresta? Nada. O desmoronar da nossa estrutura agrícola, como o abandono dos campos e de atividades como a pecuária, levaram a que os proprietários se virassem para a floresta como fonte de receita. Os proprietários não começaram a plantar pinheiros e eucaliptos por diversão. Fizeram-no por necessidade. Decretar agora, como se ouve já, o seu fim, pode levar à quebra generalizada de rendimentos no mundo rural, ajudando assim uma maior desertificação e o consequente total abandono das terras.
A floresta tem de ser pensada e com a preocupação de ser uma atividade rentável. E a ideia de nacionalizar as terras, só pode existir nas cabeças de quem não aprendeu com os erros do passado. As pessoas, os proprietários, fazem parte da solução. O estado é que é o problema. Não cumpre nem obriga ninguém a cumprir a lei. Um decreto de 2009, estabelece que a entidade responsável pela rede viária, tem de assegurar a limpeza da floresta e do mato em volta das estradas numa faixa não inferior a 10 metros de cada lado da berma. No caso da estrada 236, a responsabilidade caberia a uma empresa (que recebeu dinheiro para isso) que garantiu que a limpeza tinha sido feita em Junho, o que não é verdade. O presidente da Junta da respetiva freguesia, desmentiu e alertou para o tamanho das árvores junto à estrada e da proximidade a que estavam das bermas. As copas das árvores de um lado e do outro da estrada faziam um túnel tocando umas nas outras. Mas nada foi feito depois deste alerta, e o que aconteceu? 47 horríveis mortes naqueles 500 metros.
Há a certeza de culpados, identificados, destas 47 mortes. E o que lhes vai acontecer? Provavelmente nada, como é costume, e quando se repetir a tragédia acusam a trovoada seca, o raio, o eucalipto, os bombeiros, a GNR, e até os mortos como desta vez, por terem fugido para o lado errado. E quem tem culpa dos bombeiros não terem equipamentos necessários e de um bombeiro morrer porque as botas derreteram ao pisar o braseiro? Disse alguém em 2005, que o país arde e as tragédias acontecem, por culpa dos responsáveis políticos, e dos eleitores que votaram neles!