De Novo o Senhor-Fora em Vizela

Pedro Marques

2019-05-09

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Já sobre este assunto nos debruçámos em anos anteriores, enquanto um acto e testemunho de FÉ e enquanto uma das lindas tradições de hábitos ou costumes em função de uma Fé que atravessa os tempos.  Não, portanto, ao sabor das alterações da moda, por exemplo, subordinada esta às provocações apelativas de consumo pela sociedade como a roupa que se veste e que vai mudando sempre no seu estilo.
Este costume do Senhor-Fora faz parte da antropologia religiosa da FÉ da Pessoa crente. Uma expressão de FÉ na genuinidade da sua essência. Não em função do aparato da procissão enquanto chamariz ou até “motor” para o chamado “turismo” religioso para consumo turístico enquanto espectáculo social pelas ruas das aldeias, vilas ou cidades. Somos bastante crítico no aproveitamento social sob o beneplácito do tal “turismo religioso” em que até a Igreja colabora e indirectamente ajuda a “esvaziar” do sentido de FÉ determinados actos públicos de expressão de fé. Citamos, por exemplo, o aparato das cerimónias da Semana Santa, que movimenta multidões apenas para verem o aparato das cerimónias litúrgicas em Braga ou em Sevilha na dimensão internacional que ganharam. E aqui, à frente do acto religioso em si, está o interesse do “lucro” do comércio local como objectivo a projecção e dinamização as entidades civis pretendem para o meio. Isto é, a motivação de expressões públicas de FÉ, fica esvaziada, por quem dela se aproveita, do sentido espiritual para dar lugar ao espectáculo. Pense-se nisto: afinal, a Morte de Jesus em vez ser para redenção da humanidade, passou a ser fonte de receita para o turismo. E baterei sempre no ceguinho. E depois digam-nos se somos pessoa ou não de FÉ.
Sabemos que os actos públicos religiosos da FÉ que se expressa vindo em procissão à rua e as ruas percorrem, é luz que não pode ser escondida sob o alqueire, mas deve brilhar como estrela no céu, cá fora pelas ruas. Que, depois, mas de modo indirecto, outros se aproveitem para chamar gente para o “espectáculo”, é já outro assunto que não pode “encurralar” dentro do templo a FÉ de uma comunidade.
Entremos, então, no assunto.
Vizela, nas suas freguesias de S. João e S. Miguel, na intensidade da vivência de FÉ na Semana Santa e depois no domingo de Pascoela, tem duas expressões de FÉ EUCARÍSTICA: na Quinta Feira Santa em S. João, chamada das “Endoenças”, um dia propício ao perdão das nossas faltas perante Deus e perante o nosso próximo. Uma procissão, portanto, de Fé penitencial e Eucarística. Há terras onde, por exemplo e não longe, se dá uma dimensão social de espontaneidade de crença através da colocação na via pública ou noutros sítios de milhares de tigelinhas com cera ou sebo cujo pavio arde como vela, iluminando a noite. Basta irmos às margens do Tâmega e Douro de Entre-os-Rios para montante. E não se pode negar que é uma visão maravilhosa. Mas lá está: para quem isto lhes interessa, “as Endoenças constituem um evento de turismo religioso ímpar”. Esvaziando, nesta visão de todo o seu sentido espiritual de Fé na EUCARISTIA.
Nestas procissões, enquanto acto de Fé é, para nós, tocante o momento da entrada do sacerdote na casa de cada pessoa incapacitada de se deslocar à igreja para receber Jesus Sacramentado sob as espécies do pão. O SENHOR -  e por isso em bastantes localidades, a esta procissão eucarística se chama a “festa do Senhor - sob estas espécies do pão sai à rua, percorre estradas e caminhos e entra na casa das pessoas sobre o aveludado macio de tapetes de flores, tecidos com arte e engenho na expressão de maravilhosos retalhos na força da suas expressão de cores quentes.
É de admirar, no nosso meio, a postura - solene e de reverência! -  do piquete dos bombeiros que acompanha o pálio e depois a saída do sacerdote de sob ele para se “abrigar” de novo sob a umbela até à porta da casa onde vai entrar e de novo regressar ao abrigo do pálio.
São momentos que provocam em nós emoção enquanto expressão da nossa alma na vivência de momentos assim. Porque a nossa manifestação de Fé não pode ser no vácuo e não pode limitar-se ao “quando dois ou três estiverem reunidos em Meu Nome, Eu estarei no meio deles”, de modo escondido como no tempo dos cristãos das catacumbas. Temos, nisto, de agradecer também ao 25 de Abril a restituição que fez à sociedade da sua liberdade de expressão, conquanto no tempo da ditadura esta manifestação de Fé não tivesse estado sob controle policial público.  Mas nada nos admira que, também aí, estivessem infiltrados agentes e informadores da Pide que era   omnipresença vigilante e invisível e silenciosamente activa.
Nestas procissões é hábito irem pessoas – mulheres, das avós às mães às solteiras – caminhando descalças atrás do pálio acompanhando de forma penitente o SS. Sacramento.  E dá para pensar na dimensão da FÉ destas pessoas como dá para pensar como chegarão elas a casa depois de uma caminhada de pela menos uma hora de pés descalços. Ora sobre terra, ora sobre caminhos empedrados ora sob o asfalto que, felizmente para uma penitência assim, é sempre bem mais macio. No tempo em que se andava descalço, se já então o caminhar assim representava sacrifício, imagine-se hoje quando se anda de pés agasalhados e protegidos logo desde menino. O primeiro par de sapatos que calçámos foi pela nossa comunhão solene. Até então descalço que andávamos, ou então com sulipas que se arrastam como chinelo. E quando tínhamos que fugir a correr por causa de alguma travessura feita a alguém, pegávamos nelas na mão e “ala, que se faz tarde, oh, pernas para que vos quero!” E lá fugíamos a correr, descalços.
Depois, na procissão do Senhor-Fora de S. Miguel, há um outro lindo pormenor singular e que teve até já mais requinte solene: o sobre-céu: dantes, uma arca pequenina transportada por um homem da Confraria do Santíssimo. Forrada a vermelho e transportando lá dentro cremos que a chave do Sacrário. Desta vez, não foi esta arca transportada, mas sim uma outra alfaia, forrada a vermelho também, mas na forma em tamanho e feitio dos antigos missais volumosos e com iluminuras que ainda se utilizam em determinadas solenidades eucarísticas. Este sobrecéu, era ainda símbolo do infinito e da eternidade numa espécie de sacrário ambulante na expressão, quanto a nós, da Arca da Aliança do Antigo Testamento. Será?...
Temos por costume acompanhar também estas procissões. Se na expressão de um acto de FÉ, também para a recolha de imagens que mais tarde nos possam fazer recordar a emoções e vivências nossas, pessoais, no silêncio da nossa alma. No testemunho  e meditação individuais da incrível transformação deste continuado milagre do Pão transformado pela “transubstanciação”, no Corpo de Cristo. Milagre impossível aos olhos e à nossa sensibilidade, mas MILAGRE aos olhos da FÉ, testemunhada publicamente de modo colectivo nestas procissões das Endoenças e da Pascoela. Milagre que nossos olhos recusam, mas a nossa FÉ aceita. E depois, no seu dia próprio de “Corpo de Deus”, na Quinta-feira Santa de cada ano pascal. Sobre este milagre da transubstanciação do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Jesus, é sempre bom ler-se S. Tomás de Aquino, o “Doutor Angélico”. Se teólogo e filósofo, com uma capacidade de linguagem que todos conseguimos entender.
Fica a sugestão, amigo leitor. Procure textos deste PENSADOR e, se calhar, até modificará a sua forma de pensar. Passámos pelas nossas dúvidas. Hoje, temos certezas.
Com o abraço amigo de sempre.