DE LAGOAS À CAPELINHA DE S. CRAU (II)

Pedro Marques

2017-06-08

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Se o lugar de Lagoas actualmente, é da freguesia de Sto Adrião, não o foi sempre e terá vindo a fazer parte desta freguesia cremos que a partir da última divisão administrativa que ocorreu em finais do SEC. XIX. No tempo do abade de Tagilde, que viveu sensivelmente no tempo dessa divisão administrativa, passou este lugar de Lagoas, em termos de administração religiosa a depender, alternadamente, ora da freguesia de Sto Adrião, ora da freguesia de S. Miguel das Caldas. Isto é, um ano era de S. Miguel; outro ano, era de Sto Adrião. Esta alternanância de administração, não se sabe se por descuido, desinteresse ou acordo tácito de S. Miguel, veio decaindo. E de há uns 40 anos, parece que apenas as duas últimas casas do lugar e confinantes com os limites das duas freguesias, ainda essa alternância conheciam. Ainda no tempo do Monsenhor (S. Miguel das Caldas), então, até essas duas casas perderam este estatuto de alternância. Hoje, todo o lugar depende da administração religiosa de Sto Adrião de Vizela.
Poder-se-á considerar este lugar, por comodidade, indo-se da última casa de Frades, de S. Miguel, até à Porta de Ferro, dado que, actualmente,  toda essa área é um aglomerado populacional denso e contínuo. Todavia, se ele assim nos parece na prática, de facto e “ de jure”, assim não é. O lugar, propriamente dito, é da freguesia de Sto Adrião, enquanto que o da Porta de Ferro é de Tagilde; logo, duas freguesias de concelhos e distritos diferentes. Esse lugar da “Porta de Ferro” tem a sua história. A par de outras “portas de ferro” em Tagilde, elas eram passagens de carros de bois, subindo o monte de S. Bento, naturalmente em “caracol” até às outras povoações. Passagens essas, todavia, protegidas por traves de ferro. Como ainda hoje acontece noutras zonas onde é intensa a  exploração do eucalipto e cuja entrada para os carreiros dos tractores ou camiões, está vedada por sólidas traves de ferro.
Até à criação do concelho de Vizela, a freguesia de Sto Adrião por força do “enclave de Lagoas, repartia-se pelos distritos de Braga e Porto e respectivas dioceses. Com a criação do concelho de Vizela, por força da inclusão de Sto Adrião nele, toda  esta região em termos administrativos passou para o distrito de Braga, continuando, porém, Sto Adrião e Sta Eulália vinculados à diocese do Porto.   Ao tempo, aberrações divisórias administrativas, onde terá prevalecido a “vontade”, ou seja, a imposição de alguém influente?... Mas há outras curiosidades neste âmbito. No caso ainda no mesmo lugar de Lagoas, junto à “ponte velha”, havia uma propriedade que era da freguesia de. Não sabemos se hoje ainda assim é. E passada que é a “ponte nova” há também ali algumas casas que são de Tagilde mas em “território” de Sto Adrião.. E pensamos que esta submissão, ou dependência da freguesia de Tagilde  se deva ao facto as parcelas de terreno terem pertencido à Quinta da Porta, cujos domínios até aqui se estenderiam. Isto não passa, no entanto, de mera hipótese. A nossa preocupação, hoje e aqui, não é a da pesquisa destes pormenores. Mas quem disto souber e tiver bases de prova, sem dúvida que, dando-o a conhecer, contribuirá para o levantamento monográfico  mais enriquecedor do “ Lugar de Lagoas”.
Debrucemo-nos, agora, sobre as origens do nome de “Lagoas”, já que não é de modo “inocente” que uma qualquer denominação aparece a identificar, neste caso, uma localidade: Há uma causa nos “bastidores”. Há algumas três décadas atrás para a “monografia de Lagoas”, escrevemos assim:

“As origens do Lugar. 
Um pouco de História

Quais as origens deste Lugar e o porquê do nome de Lagoas? Para quem não o conheça ao pormenor e se disponha a dar um passeio pela estrada que o atravessa, verificará que ele, se estende ao longo do Rio Vizela (margem direita), a curta distância dele e num plano superior, com belas panorâmicas não só do rio, como até das paisagens do outro lado de “além rio”. E sobretudo em Lagoas, o Vizela tem passagens lindas e convidativas, quer na exuberância da Primavera e amadurecimento  do verão, quer na nostalgia do outono e desolação do inverno. Aliás, ao fundo e no meio do rio, fica a “Ilha dos Amores”, de lenda encantadora e romântica. Mas que, por enquanto,  não vamos chamá-la para aqui, embora a “Ilha dos Amores” ao Lugar pertença.
Dizíamos que, vindo-se passear para estes lados, vemos lá ao fundo, o rio. E como este (o rio) noutros tempos, tivera conhecido cheias espectaculares em temporais de chuva intensa e continuada, tivera sido natural também que, regressado o caudal da água ao seu espaço normal - o leito do rio - nas margens e em superfícies abaixo do nível destas, ficassem represas de água, semelhantes a lagoas. Porém, se isto é um raciocínio lógico mesmo que especulativo, a origem do nome não está aqui, mas sim, em poças de nascentes de águas termais que no Lugar houve em tempos muito recuados. Se calhar, uma espécie de “olhos de água” como os da Lameira. E é isso que vamos fazer aqui e agora: recuar no tempo, até aos finais do sec. XIII e ver o que, já nessa altura, se dizia do Lugar de Lagoas, respeitando a grafia do texto:
    Na freguesia de S. Miguel das Caldas dizem as mesmas inquirições (de 1290) dionísias: O lugar que chamam de Lagoas foi herdamento de homens filhos de algo e mandaram-no ao moesteiro de Vilarinho e ora seu linhagem dos que o mandaram trazem-no por honra, que nom entra hi mordomo nem peitam voz nem coima, e  moram hi bem nove homens ( famílias). D. Dinis sentenciou igualmente a devassa deste lugar das Lagoas (que as inquirições de 1290 esclarecem ser o dos casais do mosteiro citados nos anos de 1220 e 1258) mandando entrar nele o mordomo e não se honrar por ter sido de fidalgos ou o trazer a nobreza descendente destes, da parte do mosteiro a que os antepassados haviam feito a doação. Estes fidalgos - vê-se das inquirições de 1301 - reclamaram contra os efeitos da sentença da chancelaria real, e foram restituídos, nesses fogos e prédios, ao estado anterior certamente pelo especial das relações de posse entre eles e o convento, mas com entrada do porteiro nos casos crimes, pelo que a honra foi mantida, mas não nestes casos, não de “calúnias”. De facto, lê-se nas inquirições de 1301: “... em o lugar que chamam as Lagoas (...) El-Rei volveu os filhos de algo ao estado em que ante estavam ( o que não pode deixar de referir-se à alteração sentenciada em 1290) pelo que o Comissário Régio manda que entre hi o porteiro ( já não o mordomo como em 1290) e que façam dereito pelos Juízes de Guimarães. Mas o abuso persistiu em ambas as freguesias das Caldas (não inquiridas em 1304, razão talvez por que a nova situação ilegal é posterior a esta data) pelo que em 1308 se acham novas determinações, emanadas do Comissário Real_... na freguesia de Sam Miguel de Caldas achei que nas Lagõas moram nove homens ( famílias) , ampara-se porque foi de filhos-de-algo, empero é já do moesteiro de Vilario, e achei que o casal que chamam o Couto que é de Martim Afonso, escrivão, e de seu irmão, que o defendem por honra, ao que tudo dá o Comissário sentença de devassa, sem excepção ou desigualdade”.
A fls. 51 do dicionário do Portugal Antigo e Moderno, sobre a origem do lugar de Lagoas, pode ler-se: “Lagoas, de acordo com a existência de nascentes termais”.


UM AGRADECIMENTO

Há dois domingos atrás, um nosso amigo, leitor assíduo do RV Jornal, teve a amabilidade de nos corrigir numa afirmação feita por nós quanto à  localização da casa de Chambers, do visconde de Alcobaça. Na verdade, esta casa de Chambers era outra que não a referida, embora a entrada fosse comum às duas propriedades. O meu obrigado pela correcção da imprecisão.
Com o abraço amigo de sempre,
PEDRO MARQUES