Das cinzas às fogueiras de S. José

Pedro Marques

2019-03-14

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É nossa intenção, dar-lhe a conhecer, prezado leitor, pelo menos um dos vários textos que temos acerca de quem foi “O Abade” de Tagilde, Porém, como entrámos num período, para nós crentes cristãos católicos, denominado de quaresma, iremos debruçar-nos, desta vez, um pouquinho sobre isto. Com referência a uma tradição que – perece – já faz parte do passado, além de uma outra, e se deixou de reviver – a tradição das “fogueiras de S. José” e a tradição os “martírios”.
Temos um trabalho extenso, escrito por nós, acerca da quaresma, o qual, se é um fenómeno religioso, é por extenso um fenómeno antropológico numa forma de expressão de se viver este período. Numa necessidade de purificação. De lavagem. E até do aniquilamento para uma “ressurreição”. A par e no mesmo período em que a Terra desperta para a Primavera e de tos a impureza quer libertar-se. Corpo e espírito: o material e o imaterial solidários no mesmo fenómeno de purificação num eterno retorno.
À terra, o lavrador a limpa de tudo quanto venha impedir a “ressurreição” da semente que à terra se lançou ou vai lançar para depois se colher. E por isso, dantes, da rama das podas desde a das videiras às árvores de fruto, estrategicamente se ia fazendo a sua recolha em montículos aqui, acolá, maios além. Nesta encosta, naquela encosta mais acima. Desde Padim ou Mato; fosse até Montesinhos; fosse na encosta de Regilde e Sto Adrião, ou mesmo Revinhade e Lustosa. Tudo era recolhido e nesses montículos ficava até ao dia próprio de se lhe chegar lume.
Recuemos, entretanto, ao cerimonial da imposição das cinzas no primeiro dia da quaresma – a quarta feira de cinzas, onde o sacerdote derramando um pouquinho de cinza na cabeça dos penitentes, lhes vai dizendo “lembra-te de que és pó e ao pó regressarás”. Uma penitência de fé e do corpo humano, pelo jejum e abstinência, a par de uma penitência telúrica. Penitência de fé, porém, não exclusiva da religião católica.
Se se for à Bíblia, já os hebreus recorriam às cinzas enquanto penitência. Desde a cinza da combustão (Epher) à cinza-pó (Apher). A primeira significava aflição. E então, numa situação de aflição, o POVO lançava cinzas sobre a cabeça ou sobre o vestuário e corpo. Ou enterrava a cabeça e o corpo em cinza. Outras vezes, era sobre a cinza que se sentava, ou atirava terra ao ar. Por outro lado, a Bíblia faz referência às cinzas como sinal de jejum. Então e num caso destes, os judeus e fariseus cobriam a cara de cinza, como testemunho público de haverem feito jejum.
Mas também  e fora do contexto bíblico, noutras regiões como a Arábia, a Grécia, o Egipto, o POVO às cinzas recorreu nas suas manifestações de aflição. Noutras mais ainda, o recurso às cinzas era um meio de purificação por substituição da água onde ela não existia. E não vai longe ainda o tempo em que os judeus e muçulmanos beijavam o pó das sepulturas. Como também um meio de purificação de mistura com a água.
Os hebreus guardavam a cinza dos holocaustos ou sacrifícios como coisa sagrada e isso guardavam em sítio onde não pudesse ser profanada. E por associação e disso fomos testemunha em rapazinho e já quase na juventude: os ramos benzidos no domingo de ramos, havia-os que eram queimados na residência paroquial e a cinza bem guardada para a quarta-feira se cinzas do ano seguinte.
Este cerimonial, na Igreja Católica – da imposição das cinzas – vem desde quase a sua origem como Igreja. No SEC. VIII, com a imposição das cinzas, começavam os jejuns quaresmais. Como penitência pública da sua situação de povo pecador. A partir do SEC. XI, perdeu-se o carácter público de penitência que se reduziu à actual cerimónia religiosa. Não nos esqueçamos de que a cinza era uma das componentes obrigatórias para as “barrelas” de uma lavagem a fundo das roupas mais encardidas de sujidade. Quando alguém, há muitos anos, passava por uma pessoa porca e malcheirosa e roupa cheia de nódoas, exclamava e se calhar ao mesmo tempo  que tapava o nariz do fedor: “aquela criatura precisa mesmo de uma “barrela!” O próprio tecido de linho, para se libertar do seu tom baço, tinha de passar por barrelas de cinza até ficar branca.
Em Vizela e de modo especial em S. Miguel, também dantes e pela quaresma cantavam-se os “martírios”. Numa melodia quase transversal a toda a devoção no País cantada nas igrejas, cantavam-se, de umas casas para as outras, quadras evocativas dos martírios por que Jesus passou na sua via-sacra a caminho do Calvário. Por exemplo, dessa melodia, desde o lugar do Mato, à noite e da janela de casa ou da porta de quem as melodias cantava, alguém cantava  a primeira quadra a que  outro alguém, por exemplo  das Veigas ou Padim, respondia com a seguinte; e assim sucessivamente até à última. De casa para casa e de lugar para lugar. Nesse tempo, imperava o silêncio que nem os carros que eram poucos nem as caldeiras das tinturarias impestavam de ruído o sossego da noite. Nós ainda precisámos este costume. E desse modo, as vozes, mesmo solitárias, ouviam-se ao longe. Garantiram-nos que, o pregão da sardinheira Leocádia com a sardinha na canastra  “ao que bibinha!” cá em baixo ao pé da estação,  de modo inconfundível se conseguia ouvir em Montesinhos!
 Como presenciámos um outro  costume que também já desapareceu infelizmente.  Então, na noite da véspera do S. José, tanto aqui em Vizela, na então vila – e estamos a recordar uma fogueira à entrada da Rua da Rainha e outras na Lameira – aos montes de lenha de limpeza dos campos e quintas das casas, chegava-se-lhes lume. E então, grupos de pessoas andavam à volta destas fogueiras e cantavam hinos e outros cânticos alusivos ao S. José, cujo dia que até chegou a ser dia santo de guarda, era e ainda é, em cada dezanove de Março. E logo outras fogueiras na distância iam surgindo: Padim, Mato, Montesinhos, Lage; Regilde, Sto Adrião, encostas acima até aos Maragoutos. E era lindo ver-se isto: fogaréus ou tochas enormes à distância, brilhando nas encostas como as estrelas no céu. E isto nas restantes freguesias da região de Vizela.
E isto, porquê? Uma forma também da combustão de “impurezas transformadas em cinza para a “ressurreição” da vida vegetal, depois de expurgada a terra das últimas impurezas que era preciso purificar. 
E também este costume acabou por desaparecer. E foi pena. Durante uns tempos, cremos nós que por iniciativa do Cálidas Clube desse tempo, ainda na Lameira, se tentou manter este costume enquanto valor etnográfico, transportando-se para a Praça, ramagem das podas e se fazer uma enorme pilha desta lenha a que depois se chegava o lume e a mesma se transformava em pira de enormes labaredas. Hoje, mas não ligada já a este costume, tem sido habitual na noite da “sarra-se a velha” as crianças trazerem para a Praça os seus bonecos dos desfiles pelas ruas de Vizela. E de tudo isso fazer-se também enorme fogueira. E algumas crianças, de tanto haverem gostado da sua “sarra-se a velha”, choram quando a vêem a arder nessa enorme pira. Com o abraço amigo de sempre.