Da falta de uma Carta Arqueológica municipal aos atentados patrimoniais

Eugénio Silva

2018-01-25

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Foram anunciadas obras municipais na Praça da República com a pública promessa de preservação de todos os hipotéticos vestígios arqueológicos. Louva-se a intenção, esperando-se que jamais se repetirão as retóricas promessas e os requintados exercícios de cinismo e hipocrisia políticos praticados no passado.
Desconhece-se, com rigor, os prazos e a extensão das obras a efetuar, tão pouco o tipo e a dimensão dos trabalhos a executar no subsolo e, muito menos, se merecerão o acompanhamento planeado e contínuo de um arqueólogo, tendo por objetivo a salvaguarda patrimonial. Digam-nos, por exemplo, como se procederá ante uma nova e significativa estrutura arquitetónica termal do período de ocupação romana?
Acredita-se, no entanto, mesmo que empiricamente, que o subsolo do território de Vizela albergará (ou teria albergado) uma milenar herança de várias épocas, povos e civilizações. Estas condições poderiam fazer de nós um caso de referência nacional, mas continuamos desinteressados e ineficazes a estudar, valorizar e mostrar todo o nosso património herdado, em completo desrespeito por quem o legou e com pouca (ou nenhuma) consideração pelas gerações futuras a quem o deveríamos transmitir, preservado e valorizado, com elevado orgulho.
Referente ao espaço em questão, as sucessivas transformações Oitocentistas e o desmesurado crescimento urbano da cidade de Vizela acarretaram a destruição de muitos dos vestígios arqueológicos do passado, sobretudo os ligados à tipologia do termalismo e da romanização de Vizela. Destruíram-nos a Câmara Municipal de Guimarães, a partir de toda a primeira metade do século XIX, com o arranjo e a construção de novos balneários termais na Lameira; aniquilaram-nos, a partir de 1876, a Companhia dos Banhos de Vizela com a canalização subterrânea de todas essas nascentes sulfúreas para o novo e modelar balneário termal que vinha a construir na Bouça das Pedras; e, paradoxalmente, o próprio município de Vizela ao descurar as virtudes de uma Carta Arqueológica concelhia, por razões que se prenderão à combinação letal de muita arrogância política e elevado défice cultural. 
Com efeito, uma Carta Arqueológica do concelho de Vizela constituir-se-ia numa preciosa ferramenta que nos proporcionaria medidas de ações políticas públicas de proteção e gestão do património arqueológico que ocorreria por meio de um inventário. Este, de um modo geral, teria como objetivo principal o conhecimento científico fundado na definição, localização e identificação, rigorosa e precisa, da existência dos bens culturais e arqueológicos concelhios Para além disso, possibilitaria acautelar a preservação e o estudo desses próprios bens culturais e patrimoniais existentes. 
Nesta conformidade, todos os responsáveis pelo planeamento e execução dessas obras disporiam de ampla e profunda informação. No presente, o real conhecimento de vestígios arquitetónicos e patrimoniais existentes nesse local é meramente empírico e muito esparso, confinando-se ao relatório científico apresentado pelo arqueólogo que estudou (apressadamente) os vestígios arqueológicos exumados no topo norte da Praça da República, aquando as obras de arranjo urbanístico levadas a cabo pelo município vimaranense, em 1996. De referir que estes vestígios arqueológicos, enquadrados na tipologia de estruturas termais da época romana, não mereceram visibilidade e exposição pública, voltando, novamente e por decisão municipal, a serem soterrados. 
Face ao exposto, mesmo sem uma Carta Arqueológica, não seria descabido nem desperdício de dinheiro executarem-se as obras ao abrigo de um planeamento cuidadoso e exemplar, sob alta supervisão de um arqueólogo, viabilizando-se perceber o grau, a profundidade e a dimensão do passado histórico de Vizela. Roga-se, pois, que não façam operações à socapa e que todos os vestígios arqueológicos exumados venham a merecer estudo e inventariação. Se, de novo, tiverem de ser soterrados, que o sejam, pelo menos, com geotêxtil e areia. Pode ser que amanhã, alguém com outra cultura e mentalidade, possa cuidar, proteger e valorizar o que ainda resta do nosso desgraçado património.