Curiosidades Conciliares da Igreja de Braga

Pedro Marques

2019-08-01

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Desta vez, prezados leitores amigos, vamo-nos entreter um pouquinho, penetrando nas actas dos concílios da Igreja de Braga. A começar, “pelos anos de Christo 410”. Foram cinco estes concílios, tendo sido o mais antigo e o primeiro celebrado por iniciativa do bispo da Igreja de Braga Pancraciano.
Assim a tantos séculos de distância, poder-se-á avaliar do quanto foram mudando muitas realidades em termos de pensamento, doutrina e militância activa no âmbito da fé e sua doutrina.
Devemos dizer que são, para nós, leituras fascinantes, na medida até em que, e recorrendo ao chavão se calhar já quase gasto de que para se conhecer o nosso presente, urge que se conheça também o passado. O qual e segundo outros (Alexandre Herculano, por exemplo) é a história do nosso futuro. Que se terá já repetido com personagens diferentes.
A necessidade destes concílios da Igreja de Braga derivou da invasão dos alanos, dos suevos e dos vândalos “pelas terras de Lusitania  Galliza. Eraõ eles parte Gentios & parte Arrianos “. Povos estes que, por onde passavam, cometiam as “mayores crueldades, que executavam, era contra as Igrejas, & Sacerdotes, roubando tudo o que nellas achavaõ, e queimavaõ as sagradas relíquias”.
Então e para tentar remediar “este dano”, convocou Pancraciano, arcebispo de Braga nesse tempo, um concílio com os bispos seus sufragâneos.
Se recuarmos uns tempos na “História Universal” e para todos quantos a estudaram, recordarão  a invasão dos povos ditos “bárbaros”, isto é, daqueles fora da civilização romana desse tempo.  Os alanos “constituíam um povo com origem iraniana no nordeste do Cáucaso, entre o rio Don e o mar Cáspio. Pontuaram entre os povos que penetraram o Império Romano tardio no período das migrações dos povos bárbaros, migrando em direcção ao ocidente nos séculos IV-V. Em 460, os hunos destruíram o seu império, obrigando muitos a atravessar a Europa até a Península Ibérica (em 609). Nesta migração, acabaram por se juntar aos suevos e aos vândalos que ocuparam simultaneamente com estes a Hispânia.
Os alanos estabeleceram-se na Península Ibérica e fundaram um reino na Lusitânia, sediado em Pax Julia, a actual cidade de Beja, em Portugal, chefiado por Átax, que foi destroçado em 418, obrigando-os a seguir para o norte de África onde sob os reis Gunderico e Genserico, fundam o Reino dos Vândalos e dos Alanos, que seria extinto no século VI, com a dominação bizantina”. Os alanos eram um grupo nômade iraniano entre os povos sármatas, pastores nómadas prontos para a guerra de diversas origens, que falavam uma língua iraniana e compartilhavam, num sentido amplo, de uma cultura comum”.
Mas não só destes como de outros povos se verificou a invasão. Vieram os suevos e os godos que por estes lados se instalaram. Até em Vizela, sendo do tempo deles não apenas o nome de Atanagildo (segundo o abade de Tagilde) e outros. A capelinha de Sta Susana, que se manteve até ao sec. XVI, e da qual ainda hoje há o nome, vem do martírio desta santa de Braga, por parte desses.
O nosso antigo professor de Grego e que deixou de o ser por ter sido mobilizado para a “Índia Portuguesa” como capelão militar da expedição para lá enviada nesse tempo de professorado, foi um dos “lutadores” pelo regresso das relíquias desta Sta Susana e de outros santos. No que teve êxito depois de um processo de recuperação dessas relíquias ao longo dos séculos.
A propósito veja-se o que em 28.08.2010 se escreveu no “Correio do Minho” (…) o cónego Eduardo Melo Peixoto ( o nosso professor), diz ter ‘muito orgulho’ em ocupar o cargo de deão do cabido da catedral mais antiga da Península Ibérica (…). Uma das mais recentes ‘atracções’ da Sé Catedral de Braga é a Capela das Relíquias onde agora se encontram, entre muitas outras, as relíquias dos mártires bracarenses S. Frutuoso, S. Silvestre, S. Cucufate e Santa Susana, que no início do século XII tinham sido levadas para a Catedral de Santiago de Compostela.
E recua a esse tempo (dos concílios), a menção da freguesia de “Sanctus Michael  Oculis Calidarum” como sendo da Diocese de Braga.
Retomemos, porém, o fio à meada e continuemos com a referência às causas que levaram ao  primeiro concílio de Braga, a começar por este “pelos anos de Christo de 410”. Concílio este com os bispos sufragâneos da Diocese de Braga. Braga, enquanto diocese metropolita, tinha subordinadas várias outras dioceses quer em Portugal quer em Espanha. E por isso o bispo de Braga, honorificamente, ainda hoje é “Senhor de Braga e primaz das Espanhas”. Dessa subordinação à diocese de Braga, resta apenas a diocese de Lamego.
Recuando ao tempo da invasão desses bárbaros, nesse concílio além dos bispos das tais dioceses, participaram também outros bispos fugidos para Braga por causa da violência dos invasores, para “se dar ordem a se esconderem as relíquias dos santos, de modo que nem viessem às mãos e poder dos hereges e idólatras. “Nem por mui escondidas se perdesse a memória delas”.
“Ajuntando-se os bispos Elipãdo de Coimbra; Pamerio da Idanha, Arisberto do Porto; Deodato de Lugo; Gelasio de Merida; Pontamio de Agueda; Tiburcio de Lamego; Agathio de Iria; Pedro de  Numância (…) O Senhor Pancraciano, bispo da primeira sé disse:: “Manifesto-vos, irmãos e companheiros meus,. Como as gentes bárbaras destruem toda a Hespanha, assolaõ os templos & poem à espada os servos de IESV Christo; profanaõ as memórias dos santos, seus ossos, templos & sepulturas; quebraõ as forças do Imperio, trazendo tudo na mesma inquietaçaõ, que tem as arestas movidas com a fúria do vento. E fora das provincias da Celtiberia & Carpetania, todas as mais que há té os montes Pirineos, estão debaixo de seu poder. E por que esta desaventura está já quasi pendendo sobre nossas cabeças, me pareceo chamarvos, pera que cada  û  proveia as cousas que lhe tocaõ e todos juntamente acudaõ a comum necessidade. Proveiamos companheiros o remedio das almas de nossas ovelhas, porque a multidão dos trabalhos as naõ constrãia a seguir o cõselho dos maos (…)”
E, se até aqui foi assim, lá mais para diante, há episódios mais interessantes como os das excomunhões, que têm o sentido negativo de punição pela expulsão, quando, afinal, não passam de uma declaração da constatação de que, vivendo-se à margem da Fé da Igreja, se vive, por vezes, fora da (mesma) Igreja, da qual voluntária e deliberadamente se auto-exclui quem assim procede. Mas não se conclua linearmente que discordar é necessariamente auto-exclusão.
Pensemos na afirmação que se faz nas promessas do baptismo de pais e padrinhos do baptizando e depois o sacerdote conclui assim: “Esta é a nossa Fé. Esta é a Fé da Igreja que nos gloriamos de professar em Jesus Cristo Nosso Senhor”. E por isso, o baptismo é um acto público e solene de Fé e  de compromisso e não um mero acto de vaidade pessoal e social para ficar nas fotografias. É um testemunho de FÉ. Tem de se pensar bem.
E posto isto, meus amigos, e sem pretendermos ser “mais papista que o papa”, e a propósito da FÉ que pressupõe este primeiro concílio da Igreja metropolita de Braga perante a invasão de bárbaros “trazendo tudo na mesma inquietação que tem as arestas movidas com a fúria do vento”, aguardemos o próximo episódio, onde também aparece o “Credo”, que levou cem anos(!) a ser elaborado, com as ligeiras(?) alterações pós-Vaticano II. Mas também não se conclua daqui que tudo vai bem no seio da Igreja, já que, na realidade, também não vai. E nem sempre discordar é auto-exclusão.

Com o abraço amigo de sempre.